De Courtney Love a Olivia Rodrigo: a história do babydoll na moda

Por Gustavo Frank 24 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
De Courtney Love a Olivia Rodrigo: a história do babydoll na moda

Há pouco tempo, Olivia Rodrigo lançou o clipe de Drop Dead filmado no Palácio de Versalhes, com direção de Petra Collins e uma estética que remetia diretamente ao filme Maria Antonieta, de Sofia Coppola. O que gerou mais comentários não foi a logística de fechar um patrimônio histórico para as filmagens, mas o look: um babydoll off-the-shoulder da Chloé pré-outono 2026, com bloomers de seda à mostra e meias brancas até o joelho. Semanas depois, em Barcelona, num show do Spotify, Rodrigo voltou com um babydoll floral da marca francesa Génération78, desta vez com botas Dr. Martens cano alto. A internet explodiu.

As acusações variaram entre "sexy baby" e "pedo core". Courtney Love entrou na defesa: "Se vocês estão sexualizando isso, talvez o problema seja vocês. Podem arrancar meu babydoll das minhas mãos mortas." A própria Rodrigo, em entrevista à edição britânica da Vogue do mês passado, havia descrito seu estilo como "babydoll dresses e decotes anos 1970. Quero que tudo pareça divertido e despreocupado."

O babydoll não é uma novidade nem uma provocação recente. A peça surgiu nos anos 1960 em paralelo com o vestido miniature, como um ponto de tensão entre a propriedade social esperada das mulheres e a liberdade sexual que o feminismo de segunda onda começava a tornar visível. Nos anos 1990, reapareceu no universo grunge com Courtney Love e Kat Bjelland, que o usaram para ironizar e subverter uma feminilidade considerada dócil. A estética ganhou nome próprio: kinderwhore.

As passarelas das últimas temporadas confirmaram o retorno da peça pelo lado do luxo. Na coleção outono-inverno 2026 da Miu Miu, apresentada em março no Palais d'Iéna, em Paris, babydoll em tons pastel apareceram combinados com tênis chunky, numa leitura que Miuccia Pra da descreveu como "sensualidade quente" e "agência sobre o próprio corpo". A Simone Rocha, que há temporadas explora a fronteira entre a infância e a feminilidade adulta em suas coleções, apresentou na primavera-verão 2026 vestidos translúcidos e adornados que transitam no mesmo território. A Sandy Liang, referência da estética babydoll entre o público mais jovem, levou versões em vichy e renda para a passarela de Nova York.

O que Rodrigo faz com o babydoll é diferente das referências grunge. É mais polido, mais referencial, mais Pinterest do que punk. Mas a reação que gerou segue o mesmo padrão de sempre: a roupa de uma mulher jovem no centro de um debate moral que diz mais sobre quem olha do que sobre quem veste. Sabrina Carpenter usou uma versão transparente com referências à lingerie retrô. Addison Rae posou num minivestido branco no Instagram. Alexa Chung usa babydoll há anos sem que ninguém peça explicações.

Segundo Liza Betts, pesquisadora do London College of Fashion, o babydoll sempre existiu nesse espaço ambíguo entre a roupa do dia e a de dormir, entre o inocente e o provocador. É exatamente essa ambiguidade que gera o debate. E é exatamente essa ambiguidade que faz a peça voltar, geração após geração.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: