De ex-BBBs a influencers: partidos buscam famosos para ganhar cadeiras na Câmara
Em eleições proporcionais como a da Câmara dos Deputados, partidos não disputam apenas cadeiras — disputam volume de votos. É nesse contexto que ganha força a figura do “puxador de votos”: candidatos conhecidos pela população para além da político, capazes de atrair grandes votações individuais e, com isso, elevar o desempenho de toda a legenda.
No sistema proporcional brasileiro, votos não elegem apenas indivíduos, mas ajudam a definir quantas cadeiras cada partido ou federação terá direito. Na prática, isso significa que um candidato muito votado pode “carregar” outros nomes da mesma chapa, mesmo com votação individual menor.
A estratégia não é nova — casos emblemáticos como do comediante Tiririca, que recebeu 1,3 milhão de votos em 2010, já mostraram esse fenômeno em eleições anteriores.
O que mudou é o perfil desses candidatos e a necessidade dos partidos. Se antes os puxadores de voto vinham da televisão, hoje influenciadores digitais também passam a ocupar esse espaço.
Partidos intensificaram a filiação de celebridades e criadores de conteúdo no fim da janela partidária como forma de ampliar alcance e evitar a temida clausula de barreira.
“Bancada maior significa mais dinheiro do Fundo Partidário, mais espaço nas comissões e mais poder de negociação com o Executivo”, diz Fabio Zambeli, analista político e diretor de Public Affairs do Grupo In Press.
Em 2026, uma sigla precisa eleger pelo menos 13 parlamentares em pelo menos nove estados e atingir 2,5% votos válidos, com pelo menos 1,5% em cada unidade da federação.
Entre os exemplos recentes estão os ex-participantes do reality show Big Brother Brasil como Gracyanne Barbosa (Republicanos), Lucas Penteado (PT) e Matteus Amaral (PP). Rico Melquiades (PSDB), vencedor do reality show A Fazenda em 2021, também deve participar da eleição.
Lucas Penteado em campanha para a Avon (Avon/Reprodução)
A atriz e youtuber Antonia Fontenelle (PSDB), a filha do Silvio Santos, Silvia Abravanel (PSD), a socialite Val Marchiori (Republicanos) e os ex-jogadores como Edmundo (PSDB) e Luís Fabiano (MDB) completam a lista de famosos que podem entrar no jogo eleitoral.
Silvia Abravanel: apresentadora e filha de Silvio Santos anuncia candidatura à Câmara dos Deputados em 2026 (Instagram/@silviaabravanel/Reprodução)
“O objetivo não é eleger essas figuras individualmente: é usar o capital de visibilidade delas para inflar o quociente eleitoral e puxar cadeiras para candidatos menos conhecidos da mesma legenda”, diz Zambeli.
A estratégia, porém, não deu resultado esperado em 2022, quando nomes como Thiago Gagliasso, Maurício do Volei e Mário Frias foram eleitos, mas longe de serem campeões de votação. Nomes dos extremos políticos, como Nikolas Ferreira e Guilherme Boulos, foram os mais votados do Brasil.
O resultado de toda essa dinâmica é uma eleição que se joga em duas frentes simultâneas: a disputa pelo Planalto e a construção silenciosa da base que vai sustentar — ou limitar — o próximo governo.
“Quem vencer a Presidência em outubro vai governar com a Câmara que sair das urnas. Por isso os caciques partidários tratam a montagem das chapas proporcionais com o mesmo cuidado que dedicam às alianças majoritárias”, afirma.
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