De R$ 3,90 a R$ 24,90: o novo preço do álbum da Copa do Mundo
Em 2002, o álbum de figurinhas da Copa do Mundo custava R$ 3,90. Em 2026, custa R$ 24,90. Corrigido pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE, o preço seria R$ 15,84. A diferença — R$ 9,06 — representa um ágio de 57% acima da inflação oficial acumulada em 24 anos.
É menos gritante do que o ágio do pacotinho de figurinhas, que chegou a 245% no mesmo período.
Mas o álbum tem uma história própria: seu preço cresceu de forma consistente acima da inflação a cada edição desde 2006, e a distância entre o que a Panini cobra e o que o IPCA justificaria nunca foi tão grande quanto agora.
Mas, para Para Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, o aumento no custo tem motivo.
"A qualidade dos álbuns e das figurinhas melhorou de lá para cá, o que elevou o custo de produção. Com isso, parte desse aumento foi repassada ao preço final, ou a empresa teria prejuízo", afirma em entrevista à EXAME.
Edição a edição, sempre acima
Em 2006, o álbum custava R$ 3,90, o mesmo preço da Copa anterior, de 2002, quando o Brasil foi campeão. Corrigido pelo IPCA até março de 2026, esse valor chegaria a R$ 11,41.
O preço atual representa um ágio de 118% sobre esse patamar. Em 2010, o álbum subiu para R$ 4,90, e o ágio calculado até hoje é de 109%. Em 2014, custou R$ 5,90, com ágio de 121%.
A partir de 2018, os saltos ficaram mais visíveis. O álbum passou de R$ 5,90 para R$ 7,90, alta de 34% numa única edição, enquanto o IPCA acumulado entre as duas Copas havia sido de 27%, segundo dados do IBGE.
Em 2022, o preço subiu de R$ 7,90 para R$ 12,00, em alta de 52%, contra inflação de 25% no período. Em 2026, novo avanço: de R$ 12,00 para R$ 24,90, alta de 107%, com IPCA acumulado desde 2022 em torno de 18%.
Nas três últimas edições, o reajuste do álbum ficou acima do dobro da inflação do período.
O argumento do conteúdo
A Panini tem uma justificativa parcial que não existe para o pacotinho: o álbum cresceu.
A edição de 2026 tem 980 figurinhas, ante 670 em 2022 e 638 em 2002. São 112 páginas, figurinhas especiais, papel de maior gramatura e a maior coleção da história da Copa. Quem compra o álbum de 2026 está comprando um produto diferente do de 2002.
O problema é que o preço não cresceu na mesma proporção que o conteúdo. Entre 2002 e 2026, o número de figurinhas aumentou 54%. O preço do álbum aumentou 538%. O IPCA no mesmo período acumulou alta de 306%.
O álbum que poucos completam
Em 2002, com R$ 100, era possível comprar o álbum e cerca de 192 pacotinhos — 960 figurinhas, suficientes para cobrir 181% das 638 necessárias para completar a coleção. Em 2026, os mesmos R$ 100 compram o álbum brochura e pouco mais de dez pacotinhos.
Para reunir as 980 figurinhas sem repetição — o mínimo teórico —, seriam necessários 140 envelopes, ao custo de R$ 980, fora o álbum. Na prática, com a distribuição aleatória e as inevitáveis repetidas, completar o álbum depende de trocas ou da compra de avulsas.
Os dados do IBGE mostram que, independentemente dos custos de produção, o preço do álbum cresceu acima da inflação a cada edição desde 2006.
A distância entre o preço cobrado e o valor corrigido pelo IPCA nunca foi tão larga quanto em 2026.
Em 2002, R$ 3,90 comprava o ritual de início de Copa. Em 2026, o mesmo ritual custa R$ 24,90. E a inflação explica menos da metade dessa alta.
Como os cálculos foram feitos?
Para essa reportagem, foram usadas as taxas mensais do IPCA divulgadas pelo IBGE — o índice oficial de inflação do Brasil, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Os dados estão na tabela 1737 do Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA), série histórica disponível ao público.
O cálculo segue a mesma metodologia da Calculadora do Cidadão do Banco Central do Brasil: multiplica-se o preço original pelo fator acumulado mês a mês entre junho do ano da Copa — mês de lançamento típico do álbum — e março de 2026, última leitura do IPCA disponível no fechamento desta reportagem. O fator acumulado é o produto das taxas mensais individuais, não a simples soma.
O ágio é a diferença entre o preço real cobrado pela Panini em 2026 (R$ 7,00 o pacote) e o valor que resultaria dessa correção, expressa em percentual sobre o valor corrigido.
Todos os cálculos foram feitos com as taxas mensais brutas do IBGE, sem arredondamentos intermediários, e com a ajuda de ferramentas de inteligência artificial (IA) como Gemini, Perplexity e Claude. O IPCA acumulado entre junho de 2002 e março de 2026 é de 306%.
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