De uma casa sem luz elétrica ao Senna Tower: a engenheira por trás dos prédios mais altos do Brasil

Por Layane Serrano 9 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
De uma casa sem luz elétrica ao Senna Tower: a engenheira por trás dos prédios mais altos do Brasil

Quando nasceu em Cerejeiras, no interior de Rondônia, a casa de Stéphane Domeneghini não tinha energia elétrica. Um gerador funcionava apenas duas horas por dia, tempo suficiente para os banhos da família e algumas tarefas básicas.

Décadas depois, ela participa do cálculo estrutural e da viabilização de edifícios que ultrapassam 500 metros de altura.

Engenheira civil e hoje diretora executiva da Talls Solutions, consultoria especializada em projetos complexos e prédios superaltos que integra o Grupo FG, Domeneghini se tornou uma das profissionais mais experientes do país em um nicho ainda raro no Brasil: a engenharia de arranha-céus.

Entre os projetos em que atuou estão empreendimentos como o Infinity Coast, o Epic Tower e o One Tower, entregue como o prédio residencial mais alto da América Latina.

Agora, participa de um desafio ainda maior: o Senna Tower, que deve se tornar o edifício mais alto do Brasil. Mas o caminho até ali começou muito longe do topo.

Da escassez à disciplina

Filha de um mecânico e neta de migrantes do Sul que buscaram terra no Norte do país, Domeneghini cresceu em um ambiente de poucos recursos materiais, mas com forte incentivo à educação.

A mãe cobrava dedicação absoluta aos estudos. O pai transmitia valores de trabalho e honestidade. E o avô paterno, Hermes Domeneghini, repetia um conselho que marcaria sua trajetória.

“Não se limite. Você é inteligente. Vá além”, dizia.

A afinidade com números apareceu cedo. Um episódio ainda na escola ajudou a moldar sua relação com o estudo.

Depois de faltar uma semana de aula por doença, tirou nota 5,7 em uma prova de matemática na quinta série. A frustração virou um compromisso silencioso: até o fim do ensino médio, não voltaria a tirar uma nota abaixo de 10 na disciplina. A disciplina virou método. E o método virou identidade.

Inicialmente, ingressou no curso de Psicologia, movida pela curiosidade sobre o comportamento humano. Depois, migrou para Engenharia Elétrica. Mas foi na Engenharia Civil que encontrou o que buscava: a possibilidade de construir algo que permanecesse por gerações.

“Dentro da engenharia encontrei o que procurava na arqueologia: criar algo que atravesse o tempo”, afirma.

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A mudança que mudou tudo

Bolsista do ProUni na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), ela deixou o interior do Rio Grande do Sul e percorreu mais de 500 quilômetros até Balneário Camboriú, em Santa Catarina.

Ao caminhar pela Avenida Atlântica, observava os arranha-céus que redesenhavam o horizonte urbano. Pareciam distantes da realidade de alguém que havia estudado em escola pública e crescido em uma casa sem luz elétrica.

Anos depois, ela passaria a ajudar a projetar exatamente aquele skyline.

A carreira nos superaltos

Em um momento em que Balneário Camboriú iniciava sua corrida por edifícios acima de 150 metros de altura, Domeneghini começou a carreira na Embraed.

Ela se destacou pela capacidade de integrar diferentes áreas técnicas, um dos maiores desafios da engenharia de grandes torres, que envolve arquitetos, calculistas, especialistas em vento, fundações e dezenas de projetistas.

Após três anos, seguiu para a FG Empreendimentos, onde passou a trabalhar em alguns dos projetos mais ambiciosos da verticalização brasileira, como o One Tower (prédio residencial mais alto da América Latina).

O projeto que mudou sua trajetória

Entre todos os empreendimentos em que atuou, o mais desafiador foi o edifício Epic Tower, pela fachada côncava e convexa toda em vidro, em que tiver que estudar e desenhar desde a curvatura e ajudar resolver toda essa análise de fachada para época extremamente desafiadora.

"Ele também carregou diversos desafios devido ao vizinho, a fundação e estrutura. Como também foi o primeiro prédio a trazer o drywall como solução definitiva para vedaçõe, o processo de implantar requeria muitas análises, entendimentos novos e um cuidado na execução que partiu naquela época de mim", afirma a executiva.

Do lado pessoal, para a engenheira, o Senna Tower é mais do que um desafio técnico, é também um projeto carregado de simbolismo. Ela afirma que a obra representa um desejo antigo de participar de algo capaz de atravessar gerações.

“O Senna Tower é a minha obra mais importante, porque representa os meus anseios desde que me conheço por gente. Sempre quis estar próxima de algo que simbolizasse os mistérios e valores que o ser humano carrega e que o levam a edificar monumentos para permanecer além do seu próprio tempo.”

Liderança em um setor masculino

A engenharia de superaltos ainda é dominada por homens. Ao longo da carreira, Domeneghini enfrentou questionamentos sobre sua capacidade técnica. A resposta veio pelo conhecimento.

“Se alguém questionasse um número, eu precisava saber a norma, a base, o cálculo e o porquê”, afirma.

Hoje ela soma mais de 50 projetos acima de 150 metros e estima ter participado de cerca de 200 empreendimentos ao longo da carreira.

O medo de altura não é maior que as obras

Curiosamente, a engenheira tem medo de altura. Dois metros em uma escada já são suficientes para causar desconforto. Mas, ao colocar o capacete de obra, o foco muda.

Ela já subiu a mais de 200 metros para acompanhar soluções estruturais diretamente nos canteiros.

No topo das torres, o vento é forte e o ruído é constante. Cada decisão técnica precisa considerar impactos que durarão décadas.

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O legado que pensa no futuro

Hoje, à frente da Talls Solutions, Domeneghini lidera uma equipe direta de 21 profissionais e coordena mais de 60 projetistas.

Em apenas um ano, a empresa expandiu sua atuação para diversas regiões do Brasil e também para a América Latina, replicando um modelo baseado em engenharia de alta complexidade.

Mas a maior motivação da engenheira está fora dos cálculos estruturais. Mãe de Heidi, de seis anos, ela diz que cada projeto também carrega um significado pessoal.

“Tudo o que faço ganha sentido quando penso no dia em que minha filha verá tudo isso pronto”, afirma. “Desejo que ela entenda o porquê das longas jornadas e das ausências.”

Para Domeneghini, legado não é apenas um conceito técnico.

“Construir esse legado é o que me move. No fim, será também a história da minha geração.”

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