Debasement: entenda o jargão do mercado que explica fluxo para países emergentes

Por Clara Assunção 24 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Debasement: entenda o jargão do mercado que explica fluxo para países emergentes

O sobe e desce do dólar, a disparada do ouro e a busca por ativos reais em meio a um novo capítulo da guerra comercial reacenderam uma expressão que circula nas mesas de operação do mercado: debasement trade.

Nos últimos dias, ouro e prata voltaram a subir com força. O metal precioso avançou cerca de 2,4%, para a casa de US$ 5,3 mil a onça troy nesta segunda-feira, 23, enquanto a prata saltou 4,7%, negociada perto de US$ 88,56. No Brasil, o dólar caiu para R$ 5,168, o menor valor em quase dois anos. E o pano de fundo desses movimentos foi o vai e vem das tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Após questionamentos judiciais sobre o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), Trump afirmou que manteria uma taxa de 10% por outro instrumento legal e, no sábado, 21, anunciou uma tarifa global ainda maior, de 15%. A escalada elevou a percepção de inflação global e mexeu com as apostas para juros. É nesse ambiente que ganha força o chamado debasement trade.

O que é debasement?

A palavra "debasement" significa, literalmente, degradação de valor. No passado, era usada quando governos reduziam o teor de ouro ou prata das moedas para financiar gastos, mantendo o valor nominal, mas diminuindo o valor real. Hoje, a lógica é parecida, mas aplicada às moedas fiduciárias, segundo operadores.

Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, explica que o termo passou a descrever situações em que políticas econômicas corroem o poder de compra de uma moeda.

"O que se chama debasement, hoje em dia, são eventos que têm como consequência a perda de poder de compra de uma determinada moeda, por meio de inflação ou perda de valor frente a outras moedas e metais de reserva, principalmente o ouro", afirma.

Segundo Perri, isso costuma estar ligado a expansão monetária excessiva, crescimento acelerado da dívida pública e políticas fiscais ou monetárias inflacionárias por períodos prolongados.

E o que é o “debasement trade”?

Mas o mercado vem transformando o conceito em estratégia. "O debasement trade é uma operação na qual se busca proteção desse tipo de fenômeno, ou mesmo especulação para auferir lucros. As mais tradicionais são as long & short, nas quais o investidor fica vendido em dólar e comprado em reservas como ouro ou bitcoin”, diz o economista.

Já Cristiano Leal, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela Faculdade Brasileira de Negócios e Finanças (FBNF), resume como uma mudança de preferência no portfólio. "É a redução da exposição a ativos monetários e o aumento da alocação em ativos de oferta limitada, como ouro, prata, commodities, bitcoin e, em alguns casos, moedas de países emergentes".

Na prática, quando cresce o receio de que o dólar perca poder de compra — seja por déficits elevados, juros reais baixos ou tensões geopolíticas — investidores buscam proteção em ativos reais.

Por que emergentes entram na história?

O chamado debasement trade não tem beneficiado apenas ouro e prata. Parte desse movimento também ajuda a explicar o fluxo recente para países emergentes.

Segundo Leal, moedas emergentes ganham espaço quando combinam juros reais mais altos e fundamentos fiscais minimamente sólidos. "Esses fluxos são seletivos e favorecem economias com juros reais positivos, credibilidade macro e exposição ao ciclo de commodities", afirma.

Dentro desse grupo, exportadores de matérias-primas tendem a sair na frente. Para Fabricio Echeverria, CEO da Oby Capital, esses países se beneficiam de preços mais altos e melhora nos termos de troca.

"Mercados emergentes exportadores se beneficiam com termos de troca mais favoráveis e, frequentemente, moedas mais fortes, ao mesmo tempo em que oferecem prêmios de juros superiores aos de economias desenvolvidas", diz.

A alta recente do petróleo — que acumulou ganho superior a 5% na última semana, com investidores embutindo prêmio de risco diante das tensões entre Estados Unidos e Irã — reforça esse apetite por ativos ligados a commodities e ajuda a sustentar o interesse por emergentes.

O dólar está ameaçado?

Mas essa tese do debasement costuma vir acompanhada de uma pergunta maior: o dólar pode perder seu posto de principal reserva global? Para Perri, há um processo estrutural em curso, ligado à expansão monetária do Federal Reserve  (Fed, o banco central dos EUA) e ao aumento da dívida americana ao longo das últimas décadas.

"O debasement é muito mais estrutural, de longo prazo, do que um movimento de uma semana por conta de um ruído, como aumento de tarifa ou algum indicador". Ele próprio, no entanto, alerta para o risco de exagero. "O principal risco é interpretar oscilações de curto prazo como parte de um debasement maior. Muitas vezes, o mercado está especulando um ciclo mais curto de desvalorização do dólar", afirma.

Leal também relativiza a narrativa de perda de hegemonia. "O que existe é uma erosão marginal da hegemonia do dólar como reserva de valor, não uma perda imediata de dominância.”

Segundo o especialista, apesar da valorização do ouro e da diversificação de reservas por alguns bancos centrais, o "dólar ainda concentra liquidez, profundidade de mercado e escala global que nenhuma outra moeda consegue oferecer hoje", diz.

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