Decepção na 1ª rodada, a favorita Espanha ainda pode ganhar a Copa do Mundo?
Quatro modelos estatísticos diferentes, com metodologias distintas e desenvolvidos em três continentes, chegaram à mesma conclusão antes do início da Copa do Mundo de 2026: a Espanha era a seleção mais provável de erguer a taça.
O consenso reúne desde um banco de investimentos global até um projeto acadêmico brasileiro — um raro alinhamento entre fontes que normalmente discordam entre si.
O modelo da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp) projetava a Espanha com 15,57% de chance de título antes da bola rolar, à frente de Argentina (13,62%) e Inglaterra (9,24%).
O levantamento usa dados de 2.997 partidas entre 187 seleções nos últimos quatro anos, com peso maior para jogos recentes e para confrontos oficiais — eliminatórias e torneios continentais — em detrimento de amistosos.
Quatro modelos, uma resposta
A convergência não se limitou ao Brasil.
A Opta, empresa britânica de análise esportiva, projetava 16,1% de chance para a Espanha, seguida por França (13%) e Inglaterra (11,2%).
Já o banco americano Goldman Sachs foi ainda mais otimista com os espanhóis: em relatório assinado pelo economista-chefe Jan Hatzius, a instituição deu à seleção 26% de chance de título — o dobro da segunda colocada, França, com 19%.
O banco francês Natixis também colocou a Espanha no topo, com 25%, praticamente empatada com a própria França, que apareceu com 26% no modelo do banco.
A Argentina, atual campeã mundial, oscilou entre 8,7% e 14% dependendo da fonte, penalizada em alguns modelos pelo chamado "winner's slump" — um padrão estatístico de queda de desempenho de campeões em título na edição seguinte do torneio.
Por que a Espanha?
Os modelos também concordam nos motivos.
A Espanha chegou ao Mundial como atual campeã da Eurocopa de 2024 e da Liga das Nações da Uefa, com elenco jovem e um sistema de jogo coletivo consistente.
No modelo do Goldman Sachs, que usa o sistema de rating Elo — criado originalmente para o xadrez —, a seleção espanhola tinha a melhor classificação entre todas as participantes, mesmo aparecendo apenas em terceiro lugar no ranking oficial da Fifa.
"Nossa previsão está alinhada com o padrão histórico de que a Copa do Mundo quase sempre volta para a Europa depois de ter sido vencida por uma seleção sul-americana", escreveram os economistas do Goldman Sachs no relatório, referência à vitória da Argentina em 2022. A simulação do banco chegava a prever a final entre Espanha e Argentina, com vitória espanhola.
Onde o Brasil aparece
Posição final no Grupo C definirá se o Brasil enfrenta Japão, Holanda, Suécia ou Tunísia nos 32 avos de final (JEWEL SAMAD/AFP)
Nenhum dos quatro modelos colocou o Brasil entre os três favoritos.
A Opta projetava 6,78% de chance de hexa para a seleção brasileira; o Goldman Sachs, 8%; e o Natixis, o mais otimista entre os quatro, 9,3%.
No modelo da FGV EMAp, o Brasil aparecia apenas na nona posição do ranking, com 4,68% — atrás de Colômbia, Marrocos e Portugal, seleções que nunca venceram o torneio, mas vinham de resultados recentes melhores.
Os próprios responsáveis pelos modelos pedem cautela na leitura desses números.
O Goldman Sachs já errou de forma notória antes: em 2014, apontou o Brasil como favorito com quase 50% de chance de título, pouco antes da derrota histórica por 7 a 1 para a Alemanha na semifinal.
O que mudou desde o início do torneio
As probabilidades não são estáticas — e a Copa já provou isso.
Segundo o ranking mais recente da FGV EMAp, atualizado após o começo da segunda rodada da fase de grupos, a Argentina assumiu a liderança das projeções, com 17,23% de chance de título, depois de golear a Argélia.
A Espanha caiu para a segunda posição, com 11,29%, seguida por Inglaterra (9,45%) e França (8,75%). O Brasil subiu para a oitava colocação, com 4,14%, atrás de Colômbia (6,23%) e Marrocos (4,74%).
Messi: jogador mudou a previsão para a Argentina (ROBERTO SCHMIDT / AFP/AFP)
O modelo é atualizado a cada nova rodada, incorporando os resultados reais das partidas por meio de inferência bayesiana — um método estatístico que ajusta continuamente as probabilidades conforme novos dados entram no sistema.
Segundo o professor Moacyr Alvim Silva, um dos coordenadores do projeto na FGV, o modelo já bateu grupos de estatísticos com ferramentas mais sofisticadas em edições anteriores da Copa — mas, como todo modelo probabilístico, mede chances, não certezas, em um torneio de 48 seleções e mais de 100 jogos que segue produzindo surpresas a cada rodada.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: