Decisão da UE sobre carne brasileira é reversível, dizem analistas
A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países aptos a exportar carne e produtos de origem animal para o bloco é reversível e deve ser resolvida em breve. Segundo analistas ouvidos pela EXAME, a medida é protocolar e documental.
Nesta terça-feira, 12, a UE divulgou uma lista de países autorizados a continuar exportando carne para o bloco, sob as normas europeias de controle do uso de antibióticos na pecuária. O Brasil ficou fora dessa relação, enquanto países como Argentina, Colômbia e México foram incluídos por atenderem às exigências sanitárias europeias.
"Pelo teor do comunicado, é possível que a situação seja reavaliada nas próximas semanas, porque é uma questão documental. O Brasil hoje é referência mundial em termos de biosseguridade fitossanitários e tem plenas condições de atender ao nível de exigência solicitado. A partir daí, vai depender da boa vontade europeia", afirma Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado, consultoria agrícola.
Em 2025, o Brasil exportou US$ 1,8 bilhão em carnes (bovinas e carne branca) para os 27 países da União Europeia. Esse montante coloca o bloco como o segundo maior destino das exportações brasileiras de carne, atrás apenas da China, que importou US$ 9,8 bilhões no mesmo período. Em termos percentuais, apenas 3,6% da carne bovina do Brasil é exportada para a UE.
No acumulado entre janeiro e abril de 2026, o Brasil exportou 1,091 milhão de toneladas de carne bovina, crescimento de 14,6% em relação ao mesmo período de 2025. A UE ocupa o quinto lugar entre os compradores brasileiros deste ano, somando 34,7 mil toneladas e US$ 299,7 milhões em compras, uma alta de 17,7% no volume em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Para Iglesias, a ação do bloco europeu é uma sinalização para os agricultores europeus, que se opõem ao acordo entre a UE e o Mercosul, que entrou em vigor no dia 1º de maio.
Desde o início das negociações entre os blocos, os produtores europeus se posicionaram contra a tratativa. Durante o processo de assinatura, a UE adicionou salvaguardas para tentar diminuir a resistência dos agricultores, mas ainda assim, sem sucesso.
"Eles parecem estar dando uma resposta para os agricultores e pecuaristas europeus. Estamos falando de ovos, pescados, mel, ovinos, carne de frango — produtos que eles compram muito do Brasil. Isso poderia causar um grande problema de abastecimento para a Europa. É uma decisão que traz prejuízos ao consumidor europeu", afirma.
Na leitura de Welber Barral, da BMJ Consultores Associados e ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério da Agricultura (Mapa), a UE deve reverter a decisão assim que o Brasil apresentar os documentos solicitados.
"À medida que o fluxo comercial aumentar, também aumentarão as exigências sanitárias, ambientais e de bem-estar animal. Isso faz parte do jogo, algo usual no comércio internacional, entre acesso a mercados e protecionismo", afirma Barral.
Segundo o diretor do Athenagro, Maurício Nogueira, o setor poderia perder de 5% a 6% do valor de referência de 2025, mas que isso não deve acontecer, uma vez que o setor braileiro é preparado para comprovações regulatórias que estão sendo exigidas pela UE.
“Não estamos vendo isso como algo alarmante. A questão, no fundo, é protocolar e uma pressão normal do mercado. Não vemos razão para que isso cause uma interrupção significativa nas exportações, pois o país tem capacidade plena de atender aos padrões exigidos”, diz.
Ele acrescenta que o Brasil já se adapta aos protocolos exigidos pela União Europeia e que os prazos para ajustes são suficientes para evitar impactos significativos.
Em nota, a Associação Brasileira da Indústria de Proteína Animal (ABPA), entidade que representa os produtores de carne de frango e suína, disse que prestará todos os esclarecimentos ao bloco europeu para que o Brasil retorne à lista de países autorizados.
"Brasil cumpre integralmente todos os requisitos da União Europeia, inclusive no que tange aos regulamentos sobre antimicrobianos", afirmou em comunicado.
Em 2025, o Brasil exportou para o para a comunidade europeia foi de apenas 540 toneladas de carne suína, um valor muito pequeno comparado ao total exportado, que foi de 1,4 milhão de toneladas. No caso do frango, o Brasil exportou 230 mil toneladas para a UE, cerca de 4,5% do total de 5,2 milhões de toneladas exportadas no ano.
Reação do governo
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que recebeu com "surpresa" a notícia sobre a exclusão do Brasil da lista de países habilitados a exportar carnes e produtos de origem animal para a União Europeia.
Em comunicado conjunto, os Ministérios da Agricultura, do Comércio Exterior e das Relações Exteriores informaram que buscarão reverter essa decisão.
"O Governo do Brasil tomará prontamente todas as medidas necessárias para reverter essa decisão, voltar à lista de países autorizados e garantir o fluxo de vendas desses produtos para o mercado europeu, para o qual exporta há 40 anos", diz o texto.
Segundo as pastas, a decisão decorre do resultado da votação realizada hoje no Comitê Permanente para Plantas, Animais, Alimentos e Ração da Comissão Europeia, que aprovou uma atualização dessa listagem. No entanto, os Ministérios reforçaram que, no momento, as exportações brasileiras de produtos de origem animal continuam normalmente.
A Abiec, que representa o setor exportador de carne bovina, afirmou que, apesar da decisão do bloco europeu, o Brasil segue habilitado a exportar carne bovina para o mercado europeu, uma vez que não há qualquer proibição formal das exportações para o bloco.
"O eventual impedimento às exportações somente ocorrerá caso as garantias e adequações requeridas pelas autoridades europeias não sejam apresentadas até a data estabelecida", informou a Abiec.
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