Dieta com ChatGPT? Até que ponto é seguro pedir um plano alimentar à IA

Por Marina Semensato 17 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Dieta com ChatGPT? Até que ponto é seguro pedir um plano alimentar à IA

Mais da metade dos brasileiros (54%) já recorreu à inteligência artificial (IA) para tirar dúvidas sobre nutrição e alimentação no último ano. O dado é de um estudo divulgado em 2026 pela plataforma Olá Doutor, com 500 adultos de todas as regiões, que aponta o tema como o segundo mais buscado em ferramentas como ChatGPT e Gemini na seara da saúde, atrás apenas de sintomas gerais.

O levantamento identifica um perfil: mulheres (74,5% contra 66,2% dos homens), de até 30 anos e estudantes. Entre os que usaram IA para questões de saúde, 45,4% disseram ter mudado hábitos de alimentação ou rotina física depois das "consultas".

"Mais do que gênero, o padrão que percebo é comportamental", diz Giovanna Hirata, nutricionista do Alta Diagnósticos, à EXAME. "São pessoas muito engajadas com autocuidado, que consomem bastante conteúdo sobre saúde e querem chegar à consulta já munidas de informação."

Nas clínicas, a IA já virou uma acompanhante esperada nas consultas. "Cada vez mais pacientes chegam trazendo cálculos de calorias, sugestões de cardápios e até hipóteses sobre o que deveriam comer, baseados nessas ferramentas", afirma Hirata. Segundo ela, o assunto costuma aparecer logo no início da consulta, quando o paciente fala sobre tentativas anteriores, ou na hora em que ela apresenta a estratégia e ele compara com algo que já pesquisou.

Thays Pomini, também nutricionista, observa algo parecido. "Alguns pacientes relatam que consultam IA para que monte uma dieta ou interprete resultados de exames. É como alguém que estudou um pouco antes da consulta, o que pode ser positivo, mas também traz riscos se a informação não for bem interpretada", relata à reportagem.

O que os planos da IA erram?

As duas profissionais apontam erros que aparecem nos planos gerados por IA.

Hirata destaca o que chama de falsa sensação de personalização, em que a resposta parece individualizada, mas a ferramenta trabalha com padrões generalistas e não capta nuances clínicas e comportamentais. "Vejo muitos planos com calorias muito abaixo do necessário, estratégias extremamente restritivas ou recomendações incompatíveis com a rotina do paciente. Também é comum que patologias importantes sejam ignoradas ou simplificadas", diz.

Um exemplo recorrente, segundo ela, são pacientes com doenças inflamatórias ou alterações hormonais que chegam seguindo dietas anti-inflamatórias extremamente restritivas,  que retiram alimentos sem necessidade. O resultado, que se desdobra em ansiedade, acaba sendo o oposto do esperado.

Pomini cita um caso parecido, em que pacientes que aparecem com dietas hipocalóricas porque a IA priorizou emagrecimento rápido sem considerar sustentabilidade ou saúde metabólica. "Também vejo orientações conflitantes, como sugerir alimentos proibidos sem base científica. Percebo que o maior risco não é usar a tecnologia, mas confiar nela sem senso crítico", pontua.

Um estudo publicado na revista Frontiers in Nutrition concluiu que planos alimentares gerados por IA para adolescentes com sobrepeso ou obesidade têm, em média, 700 calorias a menos por dia do que o recomendado por nutricionistas humanos, com proteínas e gorduras acima do indicado e carboidratos muito abaixo.

Para chegar ao resultado, os pesquisadores criaram quatro perfis hipotéticos de adolescentes de 15 anos e pediram a cinco modelos de IA um plano alimentar de três dias para perda de peso.

O recorte é específico de adolescentes, mas o padrão de erro identificado, sobretudo quanto aos macronutrientes, é o mesmo que Hirata e Pomini descrevem entre adultos no Brasil.

Quando a IA ajuda

Para as duas nutricionistas, a ferramenta tem usos benéficos quando não substitui o acompanhamento profissional. Ela se encaixa, por exemplo, na organização de listas de compras, ideias de receitas, planejamento semanal e dúvidas pontuais sobre alimentos ou modos de preparo.

"Tudo isso pode facilitar bastante a rotina e incentivar hábitos mais saudáveis", diz Hirata. "O problema começa quando ela passa de ferramenta de apoio para ferramenta de diagnóstico ou prescrição, porque aí entra em um campo que exige avaliação técnica e individualizada."

Uma possibilidade

Cientistas do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), sediado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, desenvolveram uma ferramenta computacional baseada em IA para gerar planos alimentares personalizados.

Segundo reportagem da Veja, o sistema foi testado por 18 nutricionistas, que aprovaram 89% das características dos planos gerados. A metodologia foi publicada no Journal of Food Composition and Analysis.

A ferramenta usa a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos e considera composição química, formas de preparo, sazonalidade e características sensoriais, além das preferências e restrições do paciente inseridas pelo nutricionista.

"A ferramenta representa um grande auxílio no processo de tomada de decisão do nutricionista, pois possibilitará otimizar o trabalho da consulta. No entanto, a decisão final sobre a prescrição dietética sempre caberá a ele", afirmou à Veja Kristy Soraya Coelho, pesquisadora do FoRC e coordenadora do projeto.

O caminho da IA na nutrição

Como tem acontecido em outras áreas, o tema já circula entre os profissionais da nutrição. Hirata diz que a percepção compartilhada é de que a IA já está na rotina dos pacientes, e que tentar combatê-la não funciona. "O mais produtivo é acolher esse paciente, entender o que ele buscou e usar isso como ponto de partida para educação nutricional", diz.

Pomini segue a mesma linha. Ela diz que existe um consenso entre profissionais de que é preciso educar o paciente para diferenciar informação de prescrição, "sem desqualificar sua iniciativa". Para ela, é uma situação que "reposiciona o papel do nutricionista como responsável pela individualização do cuidado".

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