Diplomacia do Irã é profissional, e enviados dos EUA vendiam imóveis, diz analista
As equipes diplomáticas do Irã e dos Estados Unidos, que negociam uma resolução da guerra, possuem perfis bastante diferentes. Enquanto os iranianos são diplomatas profissionais, com anos de experiência, a equipe americana é liderada por aliados do presidente Donald Trump com mais experiência no mundo empresarial.
"No lado dos EUA, não há ninguém nos níveis mais altos que tenha a negociação como um meio de vida. Negociações interpessoais, e não de acordos imobiliários", disse Alan Eyre, ex-diplomata americano, que atuou em rodadas de conversas com o Irã sobre o programa nuclear, durante debate no think tank Middle East Institute.
Trump fez fortuna com negócios no mercado imobiliário, e trouxe para os governos outros empresários do setor. Seu genro, Jared Kushner, é um dos chefes da delegação americana para negociar a paz com o Irã. O enviado especial de Trump para o Oriente Médio é Steve Witkoff, que foi advogado e enriqueceu com uma empresa de gestão e construção de imóveis.
Eyre ressaltou que, do outro lado, os diplomatas do Irã são muito experientes.
"Há uma mitologia de que os iranianos são diferentes das outras pessoas, que seriam horríveis, brutais, que vivem em um regime corrupto. Temos sérias diferenças estratégicas, mas as pessoas que negociam são profissionais", disse.
"Eles conhecem seu portfólio de trás para frente. Conhece a história das negoiações, o histórico dos temas, a lei internacional, fizeram as contas. Eles estão muito preparados", afirmou.
Falta de embaixadores
Daniel Benaim, ex-vice-secretário de Estado dos EUA para a Península Arábica, no mesmo debate, comentou que outro problema da diplomacia americana é a falta de embaixadores no Oriente Médio.
"É impressionante que, durante esta guerra, os principais países atingidos pelo Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, assim como o Iraque e outros, não tenham embaixadores americanos lá", disse.
O governo Trump, embora esteja há mais de um ano no cargo, não avançou as nomeações de embaixadores para diversos países, incluindo o Brasil. Nesses casos, as embaixadas são chefiadas por encarregados de negócios, que não têm o mesmo peso na hora de negociar com os governos e obter informações.
"É a diferença entre conseguir uma reunião com o Conselheiro de Segurança Nacional ou o chefe de inteligência de um país naquela noite, ou conseguir uma reunião com seus respectivos vices dois dias depois, e ter as discussões realmente difíceis e importantes", afirmou Benaim.
Os EUA iniciaram uma guerra contra o Irã em 28 de fevereiro, pela acusação de que o país estaria perseguindo uma bomba nuclear e matando manifestantes que faziam protestos contra o governo. Os ataques iniciais mataram o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e várias outras autoridades, mas o país conseguiu reagir e bloqueou o acesso ao Estreito de Ormuz, o que gerou uma alta forte no preço global do petróleo.
Em 8 de abril, os dois países concordaram com um cessar-fogo de duas semanas, para que houvesse negociações de paz. Uma rodada de conversas no fim de semana terminou sem acordo, e o futuro das tratativas é incerto, embora ambos os lados tenham sinalizado disposição para negociar.
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