Direita está mais organizada e esquerda precisa de acertos regionais, diz Zambeli
A janela partidária, que se fechou no início de abril, resultou em um cenário eleitoral em que a direita, especialmente o PL, se posiciona de forma mais organizada e estruturada do que nos ciclos anteriores.
Para Fábio Zambeli, diretor de Public Affairs do Grupo In Press, o PL saiu como o principal beneficiado, consolidando a maior bancada da Câmara, com mais de 100 deputados. Isso fortaleceu a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, ao garantir uma base sólida e com capilaridade nas regiões.
"A direita saiu mais fortalecida do que começou. O PL não só recompôs sua bancada, mas também se tornou a principal força organizacional, enquanto o campo governista ainda enfrenta desafios em estados-chave, como Minas Gerais e Ceará", disse em entrevista à EXAME.
Com o PL dominando a estrutura partidária e o União Brasil encolhendo, a direita se apresenta mais coesa, apesar da instabilidade em algumas regiões.
Zambeli observa que as indefinições em estados como Minas Gerais podem prejudicar a estratégia de Flávio Bolsonaro, que, sem apoio forte no segundo maior colégio eleitoral do país, poderá enfrentar dificuldades significativas.
Hoje, o partido ainda não definiu se apoiará o atual governador, Matheus Simões (PSD), o senador Cleitinho (Republicanos) ou lançará uma candidatura própria.
Além disso, Zambeli destaca que, ao contrário do que muitos previam, a direita não perdeu terreno após a prisão de Jair Bolsonaro, mas conseguiu fortalecer ainda mais sua presença, o que reforça a polarização com o PT.
"Estamos vendo uma eleição em que o alinhamento estadual será crucial, e a direita já se preparou melhor para esse jogo", afirma Zambeli.
Confira os principais trechos da entrevista com Fábio Zambeli:
O que a janela e a desincompatibilização já definiram? Quem venceu?
O PL saiu como principal beneficiado. Atingiu 100 deputados, consolidou a maior bancada da Câmara e reforçou a estrutura que Flávio Bolsonaro precisa para sustentar a candidatura presidencial com capilaridade. O PT se manteve estável, mas não cresceu; e o União Brasil, que era a terceira força, encolheu. E o Podemos, muito pragmático nos Estados, avançou bastante, mostrando que o que vale é a capacidade de barganhar. Foram mais de 120 trocas de legenda entre deputados e 11 governadores que deixaram os cargos. O saldo político é claro: a direita encerrou esse ciclo mais organizada do que começou, enquanto o campo governista ainda depende de acertos estaduais que não estão prontos.
O que ainda está em aberto?
A principal indefinição é Minas Gerais, onde a direita não conseguiu unificar o palanque entre Cleitinho, Mateus Simões e as pretensões presidenciais de Zema. O impasse trava a montagem da campanha de Flávio Bolsonaro no segundo maior colégio eleitoral do país. No Ceará, Ciro Gomes ainda não confirmou oficialmente a candidatura ao governo, mas já aparece à frente nas pesquisas, e um eventual alinhamento dele com o PL transformaria o estado em frente ativa contra Lula. Caiado também segue como variável aberta na corrida presidencial. E há uma indefinição que não é partidária: a delação de Vorcaro, cujo desfecho está nas mãos do STF, deve impactar o calendário eleitoral.
Como os estados redesenham a eleição nacional? E o impacto de Minas?
Apenas nove dos 27 governadores podem disputar a reeleição. Essa rotatividade incomum faz com que a eleição estadual tenha peso direto sobre a corrida presidencial, porque quem controla o palanque estadual controla a mobilização de base. Minas é o caso mais sensível. Lula agiu cedo: trouxe Rodrigo Pacheco para o PSB e posicionou o senador como candidato ao governo. A direita não resolveu até agora quem será seu nome. Cleitinho lidera as pesquisas, mas não tem apoio formal do PL, que condiciona a aliança à desistência de Zema da Presidência. O governador Mateus Simões tende a crescer no transcorrer da campanha, mas larga com baixa intenção de voto, o que causa apreensão no bolsonarismo. É um impasse que pode custar caro: sem palanque forte em Minas, Flávio Bolsonaro disputa a Presidência sem apoio organizado num estado de 16 milhões de eleitores que, historicamente, define quem chega ao segundo turno.
Ceará e Bahia representam risco para Lula?
Representam um tipo de risco que o PT não enfrentava com essa intensidade no Nordeste. No Ceará, o Datafolha de março colocou Ciro Gomes com 47% na estimulada contra 32% de Elmano. Não à toa o ex-ministro Camilo Santana está ali, à espreita, talvez como Plano B. Na Bahia, ACM Neto lidera pesquisas contra Jerônimo há quase um ano e já estruturou chapa completa para governo e Senado. Outro ex-ministro, Rui Costa, fará de tudo para reverter esse quadro. Lula não vai perder o Nordeste como um todo; a região segue como seu principal reservatório de votos. Mas será obrigado a investir tempo, presença e recursos políticos em estados que antes funcionavam como retaguarda tranquila.
A delação de Vorcaro pode alterar a corrida eleitoral?
Pode, e em certa medida já está alterando o ambiente. O caso Banco Master tem uma particularidade que o diferencia dos escândalos anteriores: Vorcaro não é acusado de operar para um lado. Ele transitou por todos os Poderes, financiou políticos de espectros opostos e manteve relações com figuras do Centrão, do Judiciário e do Executivo. Isso significa que a delação funciona como ameaça difusa: ninguém sabe exatamente quem será atingido, e isso alimenta uma instabilidade que já condiciona o comportamento dos atores políticos.
As filiações de celebridades mostram que o foco dos partidos está também na Câmara?
As filiações mostram que a disputa pela Câmara é tão estratégica quanto a presidencial, ainda que receba menos atenção. Quando um partido filia Gracyanne Barbosa, Silvia Abravanel ou Edmundo, o objetivo não é eleger essas figuras individualmente: é usar o capital de visibilidade delas para inflar o quociente eleitoral e puxar cadeiras para candidatos menos conhecidos da mesma legenda. Bancada maior significa mais dinheiro do Fundo Partidário, mais espaço nas comissões e mais poder de negociação com o Executivo. Quem vencer a Presidência em outubro vai governar com a Câmara que sair das urnas. Por isso os caciques partidários tratam a montagem das chapas proporcionais com o mesmo cuidado que dedicam às alianças majoritárias.
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