Dívida 'some' depois de cinco anos: verdade ou mito?
A ideia de que uma dívida some depois de cinco anos é um mito que gera muita dúvida entre consumidores. Em entrevista, Aline Vieira, educadora financeira da Serasa, explica como funciona a caducidade de dívidas, o impacto no nome do consumidor e os cuidados que devem ser tomados para limpar o nome.
Segundo ela, a parte “verdadeira” é que há a caducidade – mas a dívida não desaparece e pode ainda ter impacto na vida da pessoa. O que acontece é que o banco não pode mais cobrar judicialmente, ela para de impactar a pontuação de crédito e deixa de aparecer como uma dívida negativada.
Porém, ela não desaparece. “Ela pode ainda ser cobrada extrajudicialmente”, diz Vieira. Nos históricos do banco, ela também se faz presente e pode pesar na hora de concessão de crédito – apesar das instituições financeiras não poderem mais usar a dívida como única justificativa para o acesso ao crédito.
O nome também volta a ficar limpo, explica Vieira, mas aquela dívida ainda existe. “É uma falsa sensação que não está mais sujo. Se puxarem no histórico de um banco, ela vai estar lá.” O que acontece, novamente, é que a instituição financeira não pode mais cobrar aquele valor, nem usar como impeditivo para conceder crédito.
A especialista ainda explica que o score pode melhorar, já que não tem mais o impacto negativo da dívida, mas não necessariamente pela caducidade dela: “São vários os fatores que impactam o Serasa Score além da dívida.”
Por que instituições financeiras renegociam dívidas antigas?
Mesmo dívidas com mais de 20 anos ainda podem ser objeto de negociação, e o motivo está na estratégia das instituições financeiras. Como explica a especialista da Serasa:
“Dívidas antigas, às vezes de mais de 20 anos, têm chance quase zero de serem recebidas integralmente. Para as empresas, é mais interessante receber algo, mesmo que menor, do que nada”, afirma.
Ou seja, elas ganham em volume. A renegociação ainda é positiva porque dá a possibilidade de pagar várias dívidas em um único boleto, aumentando chance de regularização e diminuindo necessidade de contato individual da empresa.
Na prática, a renegociação beneficia os dois lados: a empresa consegue recuperar parte do crédito que, de outra forma, estaria perdido, e o consumidor tem uma oportunidade de regularizar pendências de forma simplificada, concentrando diferentes dívidas em uma única negociação.
O que o nome sujo impede?
Ter o nome negativado impõe restrições, principalmente no acesso ao crédito, mas não significa exclusão total do sistema financeiro. Como explica a especialista, “vai depender do tipo de instituição que a pessoa está devendo”.
No caso de bancos e instituições privadas, a principal consequência é a dificuldade maior para conseguir crédito. Ainda assim, há alternativas: “Existem linhas de crédito que estão disponíveis para negativado que ele pode, inclusive, tomar esse crédito para quitar a dívida negativada”.
Essas opções, no entanto, costumam vir com juros maiores, já que a pessoa tem um histórico de inadimplência, ou até com necessidades de garantias – de imóvel ou de renda, por exemplo. Ou seja, o consumidor negativado ainda consegue crédito, mas em condições mais restritivas: “O negativado não está 100% excluído da tomada de crédito, mas é mais restrito”.
Sobre consequências mais graves, há alguns mitos – a pessoa não pode ir presa. Mas pode acontecer o protesto da dívida em cartório: “Não vai dar para resolver diretamente na Serasa, por exemplo, então viram dois problemas.”
O bloqueio de conta também pode ocorrer quando há uma decisão judicial, como em casos de dívidas que evoluíram para processo. Fora disso, o banco não pode bloquear a conta de um cliente apenas por ele estar endividado.
Na teoria, também impede o financiamento imobiliário. “Quando o consumidor possui uma restrição no nome, as instituições financeiras entendem que há maior risco de inadimplência. Isso impacta o score de crédito e faz com que o financiamento seja, na maioria dos casos, negado. Esse cenário é especialmente relevante em linhas de crédito imobiliário, que exigem análises mais rigorosas.”
Por que não deixar a dívida caducar?
A ideia de simplesmente deixar a dívida “caducar” ainda é comum entre os brasileiros, mas a especialista alerta que essa lógica é equivocada e pode trazer consequências no longo prazo.
“Esse pensamento infelizmente acontece muito e têm, inclusive, pessoas se aproveitando dessa mensagem para passar uma ideia errada. Eu acho que é contraeducativo a gente falar isso, porque, como eu falei, a dívida não desaparece.”
Segundo ela, assumir um compromisso financeiro implica responsabilidade de pagamento. “Se você tem um compromisso financeiro, você tem que pagar. Isso é básico: se você pegou algo emprestado, você tem que pagar aquilo.”
Além disso, mesmo após a caducidade, a dívida continua existindo e pode impactar o histórico do consumidor. “Isso fica no seu histórico e muitas pessoas no Brasil valorizam muito o nome. A gente vê pessoas que falam: ‘Eu só quero resolver a minha pendência. Eu não consigo dormir com isso’.”
Passo a passo para limpar o nome
A Serasa orienta o seguinte caminho para regularizar dívidas:
“É importante priorizar dívidas negativadas, como cartão de crédito, que já estão com juros correndo e prejudicam a inadimplência”, diz. Todo o processo é gratuito até fechar o acordo e iniciar o momento de desembolsar os valores para quitar a dívida.
De acordo com a especialista, para pagamentos via Pix, o nome volta a ficar limpo em até 24 horas. No boleto, até 5 dias úteis. “A Serasa é intermediária, então é a empresa credora que precisa tirar dentro desse prazo. Se ela não tirar, a pessoa pode entrar em contato direto com o comprovante de pagamento.”
Quanto à forma de pagamento: “À vista é ideal se houver disponibilidade financeira. Parcelar é positivo se couber no orçamento, evitando comprometer contas básicas como água e luz”, explica Vieira.
Não reconheço minha dívida no Serasa
Se a pessoa acessar a plataforma e não reconhecer a dívida, a orientação é que entre em contato com a empresa credora, levando comprovantes, como print do aplicativo, comprovante da Serasa ou boleto, para mostrar que a dívida existe e questionar a situação.
“Mas muitas vezes tentamos entender o caso mais a fundo: a pessoa pode ter perdido o CPF e não ter feito boletim de ocorrência, alguém pode ter usado o crédito dela, ou ela pode ter emprestado um cartão e esquecido, resultando em uma dívida de anos que nem sabia existir”, comenta Vieira.
Feirão Serasa Limpa Nome
A 35ª edição do Feirão Serasa Limpa Nome começou nesta quarta-feira, 25, e segue até 1º de abril, oferecendo descontos que podem chegar a 99% para consumidores que desejam renegociar dívidas. A iniciativa ocorre em um momento desafiador para o orçamento das famílias: o Brasil soma atualmente 81,7 milhões de inadimplentes, quase a metade da população adulta (49,1%).
O mutirão reúne mais de 2.200 empresas parceiras — entre bancos, varejistas, operadoras de telefonia, universidades, financeiras e concessionárias de serviços essenciais — e permite negociação gratuita por canais digitais, telefone, agências dos Correios e atendimento presencial em São Paulo.
Na capital paulista, a Serasa instalou uma tenda no Vale do Anhangabaú, com funcionamento das 9h às 18h até o final do Feirão.
Além disso, as negociações podem ser feitas em mais de 7 mil agências dos Correios em todo o país, mediante apresentação de documento com CPF.
Segundo a empresa de proteção de crédito, as ofertas e condições são as mesmas em todos os canais, digitais ou presenciais.
Descontos, parcelamento e pagamento via Pix
Durante o Feirão, consumidores podem renegociar débitos com condições consideradas entre as mais favoráveis do ano, incluindo:
Dívidas negativadas — inclusive aquelas com mais de cinco anos — também podem ter condições especiais de negociação durante o Feirão. Após o pagamento, a empresa credora tem prazo de até cinco dias úteis para comunicar a regularização aos cadastros de inadimplência e retirar o registro negativo do CPF.
Em alguns casos, é possível limpar o nome imediatamente após o pagamento via Pix. Segundo a Serasa, a edição anterior do mutirão resultou em mais de 10 milhões de acordos firmados.
Onde negociar as dívidas
As negociações podem ser feitas gratuitamente pelos canais oficiais:
Em São Paulo, também é possível negociar presencialmente:
O que não pode ser negociado no Feirão
Alguns débitos ficam fora do mutirão:
Nessas situações, o consumidor deve procurar diretamente o credor ou a Receita Federal.
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