DNA antigo revela que seleção natural acelerou nos últimos 10 mil anos
Durante muito tempo, cientistas acreditaram que a seleção natural havia desempenhado um papel relativamente limitado na evolução humana recente. Agora, uma das maiores análises de DNA antigo já realizadas sugere exatamente o contrário.
Pesquisadores da Universidade de Harvard analisaram quase 16 mil genomas humanos antigos e modernos da Eurásia Ocidental e concluíram que a seleção natural atuou sobre centenas de variantes genéticas ao longo dos últimos 10 mil anos. Os resultados, publicados na revista Nature, indicam que esse processo se intensificou após a adoção da agricultura.
Com quase 16 mil genomas analisados, o trabalho está entre os maiores já realizados com DNA humano antigo e permite acompanhar mudanças genéticas ao longo de milhares de anos, revelando como populações humanas se adaptaram a novos ambientes, hábitos e formas de vida.
O que o DNA antigo revelou
Até recentemente, estudos de DNA antigo haviam identificado pouco mais de 20 exemplos claros de seleção natural recente em humanos. Utilizando novos métodos computacionais e um banco de dados sem precedentes, os pesquisadores conseguiram detectar um sinal muito mais amplo da ação evolutiva.
A análise identificou 479 variantes genéticas que aumentaram ou diminuíram significativamente de frequência ao longo do tempo, um indicativo de que foram favorecidas — ou desfavorecidas — pela seleção natural.
Os cientistas também observaram que a velocidade dessas mudanças aumentou após a transição de sociedades caçadoras-coletoras para comunidades agrícolas.
Agricultura alterou as pressões evolutivas
Segundo a equipe, a introdução da agricultura transformou profundamente o ambiente em que as populações humanas viviam. Mudanças na alimentação, no contato com animais domesticados, na densidade populacional e na exposição a novos patógenos criaram pressões seletivas diferentes das enfrentadas pelos grupos de caçadores-coletores.
Como consequência, determinadas características passaram a oferecer vantagens ou desvantagens para sobrevivência e reprodução, alterando gradualmente a composição genética das populações.
Os autores afirmam que essa aceleração da seleção natural coincide com um dos períodos de maior transformação social da história humana.
Genes ligados à saúde estão entre os mais afetados
Mais de 60% das variantes identificadas possuem associações conhecidas com características observadas atualmente em seres humanos.
Entre elas estão genes relacionados a:
Também surgiram sinais de seleção em grupos de genes associados a características complexas, como metabolismo, composição corporal e suscetibilidade a determinadas doenças.
Em alguns casos, os pesquisadores observaram que determinadas variantes aumentaram de frequência durante um período e diminuíram posteriormente, sugerindo mudanças nas pressões ambientais ao longo dos milênios.
Nem toda evolução significa vantagem
No entanto, os autores ressaltam que os resultados exigem cautela na interpretação. Algumas variantes aparecem atualmente associadas a características como escolaridade, renda familiar ou desempenho cognitivo. Isso, porém, não significa que a seleção natural estivesse favorecendo diretamente esses atributos há milhares de anos.
Segundo os pesquisadores, muitas dessas associações refletem correlações observadas nas populações modernas e podem ter representado características completamente diferentes em contextos pré-históricos.
Além disso, um mesmo gene pode influenciar diversos aspectos da biologia humana, dificultando a identificação exata da vantagem evolutiva que foi selecionada no passado.
Uma nova janela para entender a evolução humana
Para os cientistas, o estudo demonstra o potencial do DNA antigo para investigar questões que antes pareciam impossíveis de responder.
Ao acompanhar diretamente como variantes genéticas surgiram, se espalharam ou desapareceram ao longo do tempo, os pesquisadores conseguem reconstruir aspectos da adaptação humana com uma precisão inédita.
A equipe pretende agora aplicar os mesmos métodos a populações de outras regiões do planeta para verificar se padrões semelhantes ocorreram na Ásia, África e Américas.
Além de reconstruir capítulos importantes da história evolutiva da espécie, os resultados podem ajudar cientistas a compreender melhor a origem genética de doenças modernas e identificar variantes que continuam influenciando a saúde humana até os dias atuais.
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