Do fungo ao milhão: a aposta de uma foodtech para reinventar o setor de proteínas
Em meio à corrida global por novas fontes de proteína, a brasileira Typcal começa a operar com uma meta ambiciosa: faturar R$ 5 milhões no primeiro ano e levar seu produto para mercados como Chile, México e União Europeia.
A startup, nascida no Paraná como spin-off da Fungi Biotecnologia, aposta no micélio — uma estrutura de fungos — como base para um ingrediente que pode chegar à indústria alimentícia em escala.
O micélio é a parte vegetativa dos fungos, formada por uma rede de filamentos finos chamados hifas, que se desenvolve no solo ou sobre outros substratos. Ele funciona como uma espécie de “raiz”, responsável por absorver nutrientes e conectar organismos no ambiente — enquanto o cogumelo é apenas a estrutura reprodutiva visível.
Com capacidade inicial de cerca de cinco toneladas por mês e produção praticamente comprometida, a empresa tenta ganhar espaço em um mercado global que deve ultrapassar US$ 32 bilhões até 2029.
A proposta pode soar provocativa, mas também reflete uma tentativa de reposicionar uma narrativa que perdeu força nos últimos anos.
A Typcal quer se distanciar tanto do rótulo plant-based quanto das promessas exageradas que marcaram a primeira onda de proteínas alternativas. O que ela vende, insiste o CEO Paulo Ibri, é algo mais fundamental: um novo ingrediente.
“Não vou falar que a gente faz carne. Vou falar que a gente faz mais que isso. ‘Nós somos uma empresa de proteína’, diz o executivo.
A distinção não é trivial. Em vez de tentar replicar diretamente cortes bovinos ou hambúrgueres, a empresa transforma o micélio — a parte vegetativa dos fungos — em um insumo versátil, aplicável em produtos que vão de snacks e pães a itens cárneos híbridos e ração animal.
A lógica é mais próxima de fornecedores industriais, como produtores de whey ou soja texturizada, do que de marcas de consumo que disputam espaço nas gôndolas.
Por trás da tecnologia está o engenheiro de bioprocessos Eduardo Sydney, cofundador e CTO da empresa e professor da Universidade Federal do Paraná. Em biorreatores semelhantes aos de cervejarias, o fungo é fermentado por 24 horas até se transformar em uma biomassa de aparência fibrosa — descrita por Ibri como “algodão molhado” — que depois pode ser processada em diferentes formatos, inclusive em pó.
A velocidade é o principal argumento competitivo. “Em um dia a gente consegue ter uma proteína pronta para consumo”, afirma o CEO. “Se você comparar com boi, frango, ovo ou até soja, você está falando de meses.”
Esse ganho de tempo se traduz em eficiência — e em um discurso que combina saúde e sustentabilidade, duas forças que vêm moldando o setor global de alimentos.
Segundo a empresa, o produto final contém cerca de 45% de proteína e 35% de fibra, uma combinação rara em ingredientes convencionais. Ao mesmo tempo, a produção em ambiente controlado reduz drasticamente o uso de terra e as emissões: até 7.000 vezes mais proteína por metro quadrado que a soja e 70 vezes menos CO₂ que o gado.
O contexto de mercado reforça a aposta. A demanda por proteína segue em alta, impulsionada por tendências de bem-estar e nutrição, enquanto a popularização de medicamentos à base de GLP-1 — usados para emagrecimento — amplia a busca por alimentos ricos em fibra.
“Existe uma necessidade clara de aumentar o aporte de fibra, e praticamente ninguém consome o suficiente”, diz Ibri.
Fungos e proteína
Fundada em 2022, a Typcal ainda está nos primeiros passos comerciais. A fábrica, em Pinhais (PR), começou a operar neste ano, mas o mercado brasileiro terá de esperar. Sem a aprovação final da Anvisa para novos ingredientes, a empresa decidiu iniciar as vendas pelo exterior.
A escolha revela uma estratégia cada vez mais comum entre startups latino-americanas de base científica: nascer global desde o início. A Typcal já recebeu 350 mil euros de um investidor belga e abriu uma filial de pesquisa e desenvolvimento em Ghent, um dos principais polos europeus de biotecnologia. A próxima rodada de captação deve ser liderada por investidores do continente.
“A Europa tem um ecossistema muito conectado”, afirma Ibri. “E o câmbio joga a nosso favor — o que para eles não é tão grande, para a gente vira um investimento relevante.”
Apesar do entusiasmo, o mercado de micélio ainda é incipiente — inclusive nos Estados Unidos e na Europa, onde há poucos players relevantes. Na América Latina, a Typcal afirma operar praticamente sem concorrentes diretos.
Para Ibri, a aposta não é substituir a carne, mas ampliar o cardápio da indústria. “A gente quer que as empresas tenham outras fontes de proteína e fibra além de soja e ervilha”, diz. “E que o consumidor possa comer melhor sem mudar completamente o que já consome.”
No fim, talvez essa seja a ambição mais pragmática — e, ao mesmo tempo, mais desafiadora — da nova geração de foodtechs: não reinventar a alimentação, mas se integrar a ela. Como um micélio.
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