Do lixo à matéria-prima: Bradesco Seguros transforma sinistros em mil toneladas recicladas
Chegar à marca de mil toneladas de resíduos destinados corretamente não foi resultado de uma grande virada estratégica. Foi, nas palavras de Marcio Jordão, Superintendente Sênior de Sinistros do Bradesco Seguros, a soma de uma ideia simples, muito trabalho de logística e a parceria certa.
"Tudo começou com uma pergunta: já que precisamos substituir equipamentos danificados em sinistros residenciais, por que não recolher esse material e dar uma destinação consciente?", conta Jordão, que tem 28 anos de carreira na seguradora. Ele conversou com exclusividade com a EXAME e contou mais detalhes sobre a estratégia da companhia.
A resposta se materializou em 2020, com o início da parceria entre o Bradesco Seguros e a Ecoassist, empresa especializada em logística reversa. Desde então, o programa evoluiu de uma iniciativa voltada a sinistros residenciais para um ecossistema com três frentes: o Descarte Ecológico (dentro da Assistência Residencial), o Sinistro Sustentável Residencial e a Oficina Sustentável.
Juntas, elas somam mais de 8 mil coletas realizadas e, em 2025, geraram uma estimativa de 356 novos postos de trabalho.
Como funciona?
A lógica dos programas parte de uma premissa básica: reparar sempre que possível e, quando não for possível, descartar de forma responsável.
O Sinistro Sustentável Residencial entra em cena após a regulação de um sinistro. Quando um eletrodoméstico ou móvel é substituído ou indenizado, a Ecoassist faz a retirada do bem danificado diretamente na residência do segurado. O item é desmontado e descaracterizado: metais, plásticos e fiações são separados e retornam à cadeia produtiva como matéria-prima. O segurado recebe um certificado de destinação ecologicamente correta.
No caso do Descarte Ecológico, o segurado que queira se desfazer de móveis, eletrodomésticos ou eletrônicos — mesmo sem ter tido nenhum sinistro — pode acionar a Central de Atendimento ou o aplicativo da Bradesco Seguros para agendar a retirada do item em casa. O material é triado: o que pode ser reciclado vai para cooperativas; o restante recebe destinação ambientalmente adequada, longe de aterros sanitários e lixões, com materiais sendo separados e retornando à cadeia produtiva.
Seguradora já reciclou mil toneladas de resíduos residenciais e de automóveis (Bradesco/Divulgação)
O programa começa com um diagnóstico: a equipe identifica os pontos que precisam de adequação e entrega um plano de trabalho detalhando como fazer a separação dos materiais para que a coleta seja eficiente. "Dentro de uma oficina, além dos resíduos plásticos e metálicos, há resíduos perigosos, muito agressivos ao meio ambiente e às pessoas. Ter a destinação correta nesse contexto é fundamental", explica Jordão.
As oficinas também recebem suporte documental para operar dentro da legislação ambiental — um ganho tanto para o empresário quanto para a seguradora. "Quando a oficina é fiscalizada, ela tem a documentação que comprova que está adequada às normas. Isso nos protege e protege o parceiro", diz ele.
O desafio da logística reversa
Se a ideia parece simples, a execução é tudo menos isso. Coordenar agenda de segurados, momentos de sinistro, tipos variados de materiais e uma rede que hoje conta com 75 oficinas participantes exige uma operação altamente estruturada.
"Logística reversa requer esforço. Conseguir colocar a ideia em prática e ter alguém que execute com perfeição não é fácil", resume Jordão. "Não dá para fazer volume da noite para o dia. Começa com um piloto, expande para um tipo de situação, depois para outro. Se constrói tudo ao longo do tempo."
A escolha da Ecoassist como parceira levou em conta justamente essa capacidade operacional. Além de fazer a coleta, a empresa tem certificações e processos para garantir que cada tipo de resíduo tenha o direcionamento correto.
Um sofá retirado de uma residência, por exemplo, pode passar por reforma e ser revendido. Em um carro, as peças de borracha podem ser picada e virar insumo para outra finalidade. A tudo isso é recebido um valor, que volta para financiar o trabalho. "O ganho gerado pelo reaproveitamento ajuda a custear o próprio processo", explica Jordão. "Não é uma iniciativa com fim lucrativo, mas precisa ser eficiente — e o reaproveitamento inteligente dos materiais é o que mantém a cadeia funcionando."
Marcio Jordão, Superintendente Sênior de Sinistros do Bradesco Seguros: "A ideia é ligar ao máximo o processo sustentável: reparar sempre que possível e, quando não der, fazer o descarte correto" (Bradesco/Divulgação)
Das mil toneladas acumuladas desde 2020, quase 100 correspondem a resíduos perigosos — categoria que exige tratamento especialmente cuidadoso. Isso inclui tintas, óleo e outros materiais que podem gerar contaminação ao meio ambiente.
Em 2025, foram 375,84 toneladas de recicláveis encaminhadas para reciclagem e 96,61 toneladas de resíduos perigosos enviados para coprocessamento.
O ganho social inesperado
Um dos resultados mais significativos do programa não estava no plano original. Ao criar uma demanda crescente por triagem, coleta e reaproveitamento de materiais, a iniciativa acabou absorvendo trabalhadores que antes atuavam na informalidade — muitos deles catadores de lixões.
"Conseguimos colocar essas pessoas em um programa onde começam a ser vistas de outra forma, com renda formal e dentro da economia", diz Jordão. "Esse impacto social surgiu, não foi pensado inicialmente, mas está totalmente alinhado com o que buscamos em ESG — e virou um dos grandes ganhos do projeto", explica.
Produtos alinhados às mudanças do clima
Para além dos programas de descarte, Jordão chama atenção para outro desafio crescente: a intensificação dos eventos climáticos e o impacto direto que isso tem sobre os segurados. "Vemos não só no Brasil, mas no mundo inteiro, que as mudanças do clima estão se tornando cada vez mais visíveis e se agravando", afirma. "Buscamos sempre trazer produtos alinhados a essa necessidade."
No seguro de automóvel, coberturas para chuva, alagamento e queda de árvore já estão embarcadas no produto base.
No residencial, o caminho é orientar o cliente — com apoio de corretores especializados — a buscar coberturas adequadas à sua região e aos eventos climáticos mais comuns ali. "É preciso adaptar os produtos para ter amplitude de acordo com a necessidade de cada cliente", diz ele.
Na visão da seguradora, a sustentabilidade opera em duas frentes complementares: mitigação, ao reduzir o impacto ambiental das operações, e adaptação, ao oferecer soluções que protejam os clientes diante de eventos que ocorrem com mais frequência e intensidade.
O que vem pela frente
A Oficina Sustentável, que nasceu em São Paulo, chegou ao Rio de Janeiro no fim de 2025 e deve continuar se expandindo para outras capitais — embora Jordão reconheça que a complexidade logística é maior fora dos dois grandes centros.
No seguro residencial, a meta é aumentar a penetração — hoje em 17% do mercado, enquanto o automóvel já chega a 30-35%. Mais clientes significam mais proteção e, consequentemente, mais resíduos recolhidos com responsabilidade ambiental.
Para Jordão, o projeto é, acima de tudo, uma prova de que sustentabilidade e negócios podem andar juntos. "A ideia é ligar ao máximo o processo sustentável: reparar sempre que possível e, quando não der, fazer o descarte correto. Contribuir para evitar o descarte desnecessário está totalmente alinhado com o princípio de afetar o mínimo possível nossa natureza e nosso ecossistema", conta.
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