Do vento ao etanol: as táticas da Vale para driblar a distância e seguir rumo à China
Talvez você tenha visto a notícia de que a Vale vai ter o primeiro navio transoceânico movido a etanol do mundo. O projeto, previsto para 2029, é apenas uma das frentes de uma estratégia mais ampla, de preparar a logística marítima para um futuro cada vez mais descarbonizado.
E a discussão vai além de inovação pontual. Afinal, o transporte marítimo responde por uma fatia relevante das emissões da cadeia da mineradora, além de representar uma parcela importante dos custos presentes no balanço.
No primeiro trimestre de 2026, o custo de frete marítimo da mineradora foi de US$ 18,1 por tonelada, um dos principais fatores por trás da alta do custo all-in da companhia no período. Chama-se all-in o gasto total para produzir e entregar minério de ferro, que somou US$ 55,4 por tonelada para o mix de finos e pelotas entregues na China.
Na prática, o frete internacional representou cerca de um terço desse custo total, ou aproximadamente 32,7%. A relevância do transporte marítimo é ainda maior porque 89% das vendas de finos de minério de ferro da Vale no trimestre foram feitas na modalidade CFR, em que a companhia é responsável pelo transporte até o cliente.
Apesar da pressão, a Vale afirma ter uma vantagem em relação ao mercado. O custo de frete da companhia ficou US$ 6,7 por tonelada abaixo da rota Brasil–China, conhecida como C3. Segundo a empresa, esse desempenho reflete sua estratégia de afretamento de longo prazo, que ajuda a reduzir custos e a volatilidade do transporte.
Ainda assim, o frete segue sensível à variação do petróleo, especialmente ao preço do óleo bunker, combustível usado nos navios. Pelas estimativas da Vale, cada oscilação de US$ 10 por barril no Brent pode afetar os custos de frete em cerca de US$ 1 por tonelada.
Para reduzir esse risco, a mineradora mantém cerca de 70% do consumo projetado de óleo bunker para 2026 protegido por instrumentos de hedge, com cobertura para preços do Brent acima de US$ 80 por barril.
O vento como aliado
A Vale não possui navios próprios, mas opera uma frota afretada de 200 navios que precisa acompanhar a transição energética global e, de quebra, depender cada vez menos do óleo bunker. Algo extremamente necessário no atual contexto de guerra no Oriente Médio, onde o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, permanece bloqueado.
Além disso, a distância do Brasil de seu principal mercado, a China, também é um desafio que vem sendo driblado pela Vale com um conjunto de artimanhas. No primeiro trimestre de 2026, as vendas de minério de ferro para o gigante asiático totalizaram 40,8 milhões de toneladas. Em 2025, a China respondeu por 63% dos embarques de minério de ferro e pelotas da Vale, totalizando cerca de 198 milhões de toneladas.
"Temos uma desvantagem geográfica comparado aos nossos competidores. Então a gente traz aqui a inovação como uma alavanca para mitigar esse efeito da distância maior com relação aos os competidores", afirma Rodrigo Vasconcelos, diretor do Porto de Tubarão, localizado no Espírito Santo.
No porto, esse movimento de depender cada vez mais dos derivados do petróleo já começa a aparecer na prática. Antes mesmo da chegada dos navios a etanol, a empresa vem testando soluções para depender menos do óleo pesado.
Uma delas são as velas rotativas, que podem reduzir em até 10% o consumo de combustível, aproveitando a força do vento para impulsionar os navios. A tecnologia começou a ser implementada em 2021 e já está presente em oito embarcações a serviço da Vale.
As velas utilizadas pela Vale são estruturas cilíndricas metálicas instaladas no convés dos navios, que funcionam como um sistema de propulsão assistida pelo vento. Cada uma delas tem 35 metros de altura e 5 metros de diâmetro. Elas aproveitam a força do vento para auxiliar a propulsão dos motores, permitindo que a embarcação mantenha a mesma velocidade de navegação gastando menos combustível.
Essa, justamente, é a estratégia preferida da Vale: usar o vento para diminuir o consumo, e não necessariamente para aumentar a velocidade dos navios.
Além da economia de combustível, a tecnologia contribui para a redução de emissões. Navios de grande porte da Vale, como os das classes Valemax e Guaibamax, que incorporam soluções de eficiência energética, podem ser até 41% mais eficientes e emitir menos gases de efeito estufa do que graneleiros padrão de mercado.
Com essa aposta, a Vale reforça sua posição na vanguarda da inovação marítima. Atualmente, a companhia opera cerca de 40% da frota mundial de navios graneleiros equipados com velas rotativas.
"É uma estratégia de eficiência combinada à flexibilidade. A eficiência das velas reduz o consumo de combustível e as emissões de gases de efeito estufa”, afirma Rafael Fischer, gerente-geral de engenharia naval da Vale. A próxima etapa é ainda mais ambiciosa. A Vale fechou contratos para navios que poderão operar com mais de um tipo de combustível — incluindo etanol, metanol e o tradicional bunker.
A lógica é clara: em vez de apostar em um único combustível, a empresa quer manter flexibilidade para se adaptar à tecnologia que prevalecer.
Os primeiros navios triple fuel começam a operar a partir de 2029. Além disso, eles já serão projetados para possíveis conversões futuras para gás natural liquefeito (GNL) ou amônia, alternativas que ainda estão em desenvolvimento na indústria.
A aposta no etanol, porém, chama atenção. O combustível pode reduzir entre 70% e 90% das emissões no ciclo completo, em comparação com o bunker tradicional, mas ainda não é uma solução consolidada no transporte marítimo de longa distância.
A estratégia da Vale combina diferentes frentes. Além dos novos combustíveis, os navios da próxima geração — como os Guaibamax — virão equipados com motores mais eficientes, melhorias hidrodinâmicas e tecnologias para reduzir consumo energético. Esse conjunto pode cortar cerca de 15% das emissões em relação à geração atual.
Ao mesmo tempo, a empresa mantém um programa de pesquisa e desenvolvimento voltado à navegação, o Ecoshipping, que busca acelerar a adoção dessas soluções em parceria com armadores.
1/25 Porto de Tubarão -Terminal graneleiro do Porto de Vitória. - navio cargueiro - minerio - mineradora - vale Foto: Leandro Fonseca Data: 28/04/2026 (Porto de Tubarão em Vitória ES)
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7/25 Porto de Tubarão -Terminal graneleiro do Porto de Vitória. - navio cargueiro - minerio - mineradora - vale Foto: Leandro Fonseca Data: 28/04/2026 (Navio mineraleiro com velas rotativas no Porto de Tubarão em Vitória ES)
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19/25 Porto de Tubarão -Terminal graneleiro do Porto de Vitória. - navio cargueiro - minerio - mineradora - vale Foto: Leandro Fonseca Data: 28/04/2026 (Unidade Tubarão da empresa Vale)
20/25 Porto de Tubarão -Terminal graneleiro do Porto de Vitória. - navio cargueiro - minerio - mineradora - vale Foto: Leandro Fonseca Data: 28/04/2026 (Centro de controle operacional do Porto de Tubarão em Vitória ES)
21/25 Porto de Tubarão -Terminal graneleiro do Porto de Vitória. - navio cargueiro - minerio - mineradora - vale Foto: Leandro Fonseca Data: 28/04/2026 (Centro de controle operacional do Porto de Tubarão em Vitória ES)
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23/25 Porto de Tubarão -Terminal graneleiro do Porto de Vitória. - navio cargueiro - minerio - mineradora - vale Foto: Leandro Fonseca Data: 28/04/2026 (Operador de drone da Vale no Porto de Tubarão em Vitória ES)
24/25 Porto de Tubarão -Terminal graneleiro do Porto de Vitória. - navio cargueiro - minerio - mineradora - vale Foto: Leandro Fonseca Data: 28/04/2026 (Porto de Tubarão em Vitória ES)
25/25 Porto tubarão - navio cargueiro - minerio - mineradora Foto: Leandro Fonseca Data: 28/04/2026 (Navio mineraleiro com velas rotativas no Porto de Tubarão em Vitória ES)
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