Dólar abaixo de R$ 5? As tendências para a moeda em meio à trégua da Guerra
Quarenta dias após o início da guerra entre Irã e Estados Unidos veio um cessar-fogo temporário por parte de Donald Trump – o suficiente para animar o mercado. As bolsas ao redor do mundo subiram, com o Ibovespa, inclusive, renovando o recorde de fechamento em 192.201 pontos. Já o dólar foi na direção oposta: ele fechou no menor patamar em quase dois anos, a R$ 5,102 nesta quarta-feira, 8.
A tensão ainda parece frágil para sustentar a divisa em um piso ao redor de R$ 5,10, dizem especialistas. “Essas incertezas podem fazer com que o dólar volte a patamares anteriores da noite para o dia, retornando com prêmio de risco de uma maneira bem rápida”, explica Cauê Valim, analista de alocação e inteligência.
Luis Ferreira, CIO do EFG, concorda: a trégua até pode sustentar um rali de alívio no curto prazo, mas ainda é frágil demais para sustentar, sozinha, uma reprecificação mais estrutural de risco. “O mercado reage rápido quando o pior cenário sai da mesa, mas precisa de mais evidência para acreditar em estabilidade.”
Cenário incerto
Hoje, se fala em duas semanas para avançar rumo a uma solução mais definitiva, depois em um mês — e tudo é muito incerto. “O Irã, por exemplo, pode afirmar que não possui minas marítimas, depois surgem informações sobre urânio enriquecido, que são contestadas, e assim por diante. Em algum momento, uma solução tende a ser encontrada”, comenta Dalton Gardimam, economista-chefe da Ágora.
Mas, para ele, supondo que essa solução venha em um mês, com algum nível de estabilização — seja em termos de perdas humanas ou de gastos militares —, ainda assim não dá para afirmar que R$ 5,10 seja o piso do dólar. Isso significa que ele também pode ficar abaixo desse patamar. Em sua visão, ao observar os modelos de longo prazo, é possível encontrar valores abaixo disso.
“Não é uma projeção fechada, porque há outros fatores em jogo — como o relaxamento monetário, que pode deslocar o câmbio —, mas esses modelos indicam espaço para níveis mais baixos”, destaca.
Em relatório, o Banco Pine também observa sob a ótica de valores menores. “Mantemos a visão de que o real brasileiro é estruturalmente beneficiado pelo contexto econômico e geopolítico global e, portanto, tende a se valorizar adicionalmente nos próximos meses”, escrevem os analistas.
Na outra ponta, Ferreira segue cauteloso. Segundo ele, mesmo que a trégua ajude a aliviar parte da pressão externa, os fundamentos domésticos ainda limitam uma apreciação mais consistente da moeda.
O Relatório Focus publicado pelo Banco Central nesta semana continua apontando déficit em conta corrente ao redor de US$ 65 bilhões por ano, deterioração da dívida líquida do setor público, que deve subir de 70% para 79% até 2029, déficit nominal anual de cerca de 8% do PIB nos próximos três anos e uma trajetória de queda da Selic, dos atuais 14,75% para níveis de 9,75% em 2029.
“Quando esse pano de fundo fiscal e externo se combina com maior ruído político e com a aproximação do ciclo eleitoral, o real tende a seguir sensível. Por isso, mesmo que o dólar perca força no exterior, o consenso é que o câmbio brasileiro ainda pode voltar para a região de R$ 5,50”, diz.
Vale a pena comprar dólar?
O momento atual levanta a pergunta: vale a pena comprar dólar? Para Gardimam, economista-chefe da Ágora, a resposta é cautelosa. Ele avalia que não há motivo para comprar a moeda de forma substancial ou apressada, já que o investidor tem sido bem remunerado em reais, com taxas elevadas nos últimos anos. “Não houve ganho relevante em aumentar significativamente a exposição ao dólar nas carteiras”, afirma Gardimam.
Ele ressalta que a diversificação internacional é uma discussão à parte, especialmente para quem vive em países emergentes, mas fora isso o dólar não tem oferecido retorno relevante. As oportunidades continuam mais atraentes no mercado doméstico, tanto na bolsa quanto em renda fixa e títulos bancários, tornando o dólar pouco interessante no curto e médio prazo.
Para Marcos Weigt, diretor de Tesouraria do Banco Travelex, a estratégia depende do objetivo do investidor. Quem precisa de dólar para uma viagem próxima pode aproveitar o patamar atual e garantir a moeda, já que isso traz previsibilidade. Para quem tem um horizonte mais longo, até o fim do ano, a decisão pode ser mais cautelosa. Oscilações ainda podem ocorrer devido a desdobramentos geopolíticos, mas o real tem mostrado resiliência.
O Brasil, com sua matriz energética e papel relevante em commodities como petróleo e etanol, é percebido como relativamente menos exposto a choques externos. Nesse contexto, para necessidades imediatas, a compra pode ser prudente; para prazos maiores, pode ser vantajoso aguardar e manter os recursos aplicados, especialmente em um ambiente de juros domésticos ainda elevados.
O que é preciso para o rali continuar?
Para Ferreira, CIO do EFG, o dólar pode continuar enfraquecendo, mas não de maneira linear. Se a trégua ajudar a reduzir o preço do petróleo, aliviar o risco geopolítico e melhorar as expectativas de inflação, parte da trajetória de queda da moeda pode voltar. Ainda assim, é cedo para afirmar que o movimento anterior será retomado por completo.
Ou seja, o dólar mantém um prêmio importante de liquidez e proteção, que não desaparece apenas com um anúncio. Esse prêmio só diminui de forma consistente quando o mercado acredita que a descompressão geopolítica é real, duradoura e suficiente para reduzir o risco de um novo choque inflacionário. Dessa forma, a moeda pode perder força, mas não devolve automaticamente seu “prêmio de segurança”.
Ainda há dúvidas sobre a implementação efetiva da trégua, a normalização do fluxo no Estreito de Ormuz e a recomposição do transporte marítimo. “O que pode dar continuidade à alta não é apenas o cessar-fogo, mas a combinação entre alívio geopolítico e fundamentos. Se vier uma temporada de resultados forte, com lucros resilientes, margens preservadas, valuations mais atraentes e menor pressão do petróleo sobre inflação e juros, o rali pode ganhar consistência. A trégua ajuda o mercado a subir. Quem sustenta o rali são os fundamentos.”
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