Dólar, ouro ou títulos: qual ativo protege melhor em tempos de crise?
A nova escalada de tensões no Oriente Médio reacendeu um debate recorrente no mercado financeiro sobre quais ativos realmente funcionam como proteção em momentos de instabilidade global. Em meio à guerra no Irã, investidores voltaram a recorrer a instrumentos tradicionalmente considerados como seguros, como dólar, ouro e títulos soberanos.
Nesta semana, o movimento mais claro foi a busca por liquidez em dólar. A moeda americana registrou valorização, mesmo frente a um cenário incerto.
O índice do dólar (DXY), que mede o desempenho da moeda dos Estados Unidos (EUA) frente a uma cesta de seis divisas globais, subiu cerca de 1,5%.
O chefe de estratégia cambial do Morgan Stanley, James Lord, afirmou à Reuters dólar ainda mantém características de porto seguro, mas que o papel dependa do contexto econômico e político.
Títulos soberanos perdem atratividade
Se em crises passadas os títulos de governos eram um destino quase automático para investidores avessos ao risco, o cenário atual mostra uma dinâmica diferente.
Também de acordo com fontes ouvidas pela agência, os títulos soberanos têm sido negociados mais em função das perspectivas de inflação e das condições fiscais dos países do que por seu papel defensivo.
Na Europa, por exemplo, o rendimento dos títulos de dez anos da Alemanha, considerado referência para a zona do euro, subiu cerca de 14 pontos-base na semana.
Como os rendimentos se movem na direção oposta aos preços, o movimento indica menor demanda por esses ativos.
A atratividade desses papéis também é influenciada pelo aumento do endividamento público, na visão do chefe de renda fixa da Rathbones, Bryn Jones.
"A Alemanha é um tipo de investimento que busca segurança, mas você não quer ficar apostando no longo prazo em um mercado em alta se eles estiverem aumentando a emissão de dívida", pontuou.
Ouro mantém credibilidade histórica
Mesmo diante de oscilações recentes, o ouro continua sendo visto por muitos investidores como um dos refúgios mais confiáveis do sistema financeiro global.
O preço spot do metal acumula valorização de cerca de 2,50% em um mês, refletindo as preocupações com inflação elevada, tensões geopolíticas e níveis de endividamento público.
Analistas observam, no entanto, que episódios pontuais de queda podem ocorrer em momentos de estresse mais agudo nos mercados.
Nessas situações, investidores costumam vender ativos que tiveram forte valorização para compensar perdas em outras posições, mas a avaliação é de que o papel do metal precioso como proteção permanece intacto.
Para a gestora State Street Investment Management, os investidores ainda têm pouco ouro em suas carteiras de investimento.
Os fundos negociados em bolsa (ETFs, em inglês) lastreados no metal representam menos de 1% dos ativos globais de fundos, abaixo da faixa estratégica entre 5% e 10% mencionada pela instituição.
O chefe de estratégia de ouro da gestora, Aakash Doshi, vê um potencial de valorização ainda significativo, em que um preço de US$ 6 mil por onça parece mais provável do que US$ 4 mil ao longo do ano.
Moedas tradicionais de refúgio sob pressão
O franco suíço e o iene japonês registraram desvalorização na semana, caindo cerca de 1,2% e 0,8%, respectivamente. O desempenho surpreendeu parte do mercado, já que essas moedas costumam se fortalecer em crises.
Ainda assim, alguns gestores veem valor relativo no iene, como o diretor de investimentos da St. James's Place, Justin Onuekwusi, o qual indicou que a moeda japonesa pode, ainda, oferecer proteção.
Relatos de que a primeira-ministra Sanae Takaichi teria demonstrado reservas em relação a novos aumentos de juros geraram dúvidas sobre a trajetória da política monetária no país.
Já no caso do franco suíço, os especialistas apontaram à agência que o potencial de valorização pode ser limitado pela postura do banco central do país.
Estrategistas do Goldman Sachs alertaram que o Swiss National Bank estaria disposto a intervir no mercado cambial para evitar uma valorização excessiva da moeda, o que poderia reduzir seu papel como refúgio.
Ações defensivas também decepcionam
Nem mesmo setores defensivos do mercado acionário têm conseguido desempenhar o papel de proteção em meio à fase de volatilidade, de acordo com as fontes ouvidas pela Reuters. Os setores de utilidades e de bens de consumo básico do S&P 500 recuaram cerca de 1% e 2,8%, respectivamente, na semana, enquanto o índice amplo permaneceu praticamente estável.
Na Europa, o movimento foi semelhante: as empresas de utilidades caíram cerca de 3% e o setor de bens essenciais recuou 4,5%, superando a queda de aproximadamente 3% do Stoxx Europe 600.
O gestor da Templeton Global Investments, James Bristow, explicou que parte desse desempenho se explica pelo fato de muitos desses papéis já terem acumulado valorização significativa antes da crise.
Para investidores, a busca por proteção tem se concentrado em ativos líquidos, especialmente em dólar e em ouro, enquanto títulos soberanos e ações defensivas não têm desempenhado esse papel tradicional.
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