'Duna' da vida real? Fóssil de 'gigante das areias' é descoberto
Em "Duna", o clássico de ficção científica de Frank Herbert, criaturas colossais chamadas vermes da areia dominam o planeta Arrakis. Tão temidas quanto reverenciadas pelos Fremen, elas são cultuadas como agentes de Deus.
Na vida real, um fóssil descoberto na Austrália guarda uma semelhança curiosa com os grandes organismos de Arrakis. Trata-se de um anfíbio pré-histórico de grandes dimensões, preservado na areia, que acaba de ganhar um nome à altura: Arenaerpeton supinatus, ou "a coisa que rasteja na areia".
O que foi encontrado
O espécime foi descoberto em meados dos anos 1990 em uma pedreira em Kincumber, no litoral central de Nova Gales do Sul, a cerca de 90 km ao norte de Sydney.
As rochas que continham o fóssil estavam destinadas à construção de um muro de contenção em uma propriedade particular. Só por acaso elas chegaram aos cientistas, quando foram doadas ao Museu Australiano, em Sydney, onde ficaram guardadas até receberem uma descrição formal.
O que os pesquisadores encontraram é raro: um esqueleto praticamente completo e articulado, com crânio, coluna vertebral, membros anteriores e, excepcionalmente, o contorno de tecidos moles preservados ao redor de quase todo o corpo. Essa combinação de preservação é incomum entre os brachyopoides, o grupo ao qual o animal pertence.
Um anfíbio gigante do Triássico
O Arenaerpeton supinatus viveu há cerca de 247 a 249 milhões de anos, durante o período Triássico, e pertence a uma família de anfíbios extintos chamada Chigutisauridae.
O espécime media aproximadamente 94 centímetros de comprimento, sem contar a cauda, que não foi preservada, e tinha um crânio com 23,6 centímetros de largura. Isso pode não parecer tão impressionante, sobretudo em comparação aos vermes da areia de "Duna", mas é necessário colocar essas medidas em relação ao tamanho da maioria dos anfíbios atuais, que raramente passam dos 30 centímetros. Além disso, esse porte o coloca em tamanho intermediário entre espécies menores e as que vieram depois, como o Koolasuchus cleelandi, que chegava a cerca de 3 metros de comprimento.
Reconstrução do Arenaerpeton supinatus feita por José Vitor Silva. (Journal of Vertebrate Paleontology)
O nome do gênero combina o latim arena ("areia") com erpeton ("coisa que rasteja"), em referência à matriz de arenito em que o fóssil foi encontrado. Já o nome da espécie, supinatus, significa "de costas", porque o esqueleto foi preservado com a face ventral voltada para cima.
A análise do fóssil indica que o animal provavelmente morreu e afundou em um ambiente aquático tranquilo, como um lago ou estuário, possivelmente com águas frias ou com baixo teor de oxigênio no fundo, condições que teriam impedido que o corpo fosse perturbado por predadores.
O contorno de tecido mole mais largo do que o esqueleto na região abdominal sugere que o cadáver pode ter passado por um processo de decomposição com acúmulo de gases antes de ser soterrado, fenômeno observado também em crocodilos modernos que morrem na água.
A presença de fragmentos de vegetação carbonizada em camadas alternadas ao redor do espécime aponta para um ambiente com sazonalidade marcada, consistente com a posição polar da Austrália no Triássico Inferior e seu clima mais frio na época.
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