É a vez da IA na carta de vinhos?
Para quem não entende muito de vinho, encarar a carta no restaurante pode gerar um certo desconforto. São dezenas de opções e nomes pouco intuitivos que, quando combinados com a pouca clareza sobre por onde começar, são capazes de tornar a experiência quase constrangedora. Ou assim funcionava, até a IA estar instalada no smartphone.
Assim como tem feito em diversas outras áreas, a inteligência artificial (IA) chegou ao mundo dos vinhos com o aparente intuito de facilitar essa escolha. Chatbots como ChatGPT, Claude e Gemini viraram consultores rápidos de cartas para evitar o desconforto, mostra uma reportagem do New York Times.
O movimento tem sido observado, sobretudo, dentro dos restaurantes: em vez de decidir na hora, alguns consumidores chegam mais preparados para a conversa com o sommelier. Uma maneira de balancear a conversa, que funciona para quem não domina o assunto e tem receio de errar na escolha.
É o caso de Spencer Herbst, profissional de tecnologia que trabalha com IA em Nova York, entrevistado pelo NYT. Para lidar com a carta de vinhos, ele passou a usar o ChatGPT como consultor. Ele manda uma foto da carta para o chatbot e pede sugestões que combinem com o prato e tenham o melhor custo-benefício. "Se você está começando com uma ideia, eles podem te ajudar a explorá-la. Isso provavelmente é melhor do que começar do zero", disse Herbst em entrevista ao jornal.
Equilíbrio na conversa ou substituição do trabalho?
Por enquanto, o uso de IA à mesa ainda não é escancarado. Nem todos os restaurantes veem clientes consultando o celular abertamente durante o jantar, mas, ainda assim, os clientes chegam mais preparados, com interesse por detalhes que antes costumavam ficar restritos a quem entende mais do assunto.
Chase Sinzer, dono do restaurante Claud and Penny, em Nova York, diz que percebe a influência de chatbots como uma oportunidade de adaptar o atendimento dos sommeliers. As equipes já estão simulando interações com ferramentas de IA, como relatado ao NYT.
Em Los Angeles, no restaurante Bavel, a diretora de vinhos Claudia Rosellini tem apostado justamente no contrário do que a IA faz melhor. Para ela, se os algoritmos organizam e sugerem dentro de padrões, o papel do sommelier passa a ser expandir esse ponto de partida.
"O fato de as pessoas se esforçarem conscientemente com a IA significa que são curiosas, e isso me deixa feliz", disse Rosellini ao jornal norte-americano.
Rosellini afirma que a tecnologia até pode encurtar caminhos, mas não substitui o essencial. O vinho, diz, depende de contexto, momento e interpretação, fatores cuja volatilidade os permite fugir da lógica dos algoritmos.
"A IA nunca será capaz de entender o clima em uma mesa, a atmosfera. Mas se isso aumentar a confiança de alguém que não entende de vinho, acho ótimo", afirmou.
Um novo consultor de vinhos?
Os testes com chatbots feitos pela reportagem mostram um padrão. As recomendações costumam ser coerentes, bem justificadas e dentro do esperado, principalmente em critérios como harmonização e custo-benefício.
A questão que pode ser um problema é que elas raramente fogem muito disso. A IA tende a seguir caminhos mais previsíveis, baseados em referências já consolidadas no mundo do vinho, o que dificilmente surpreende quem já tem mais repertório.
Sendo assim, é algo interessante para quem ainda está começando. "Pode não ser a resposta perfeita, mas pode aumentar a confiança", disse Dan Petroski, produtor da Massican Wines, ao New York Times.
Segundo ele, a IA funciona mais como uma receita do que como um chef. Ela organiza o caminho, sugere combinações e evita erros, mas não cria nada fora do que já é esperado.
No mercado de vinhos como um todo, a leitura entre os profissionais é que a tecnologia ajude a atrair novos consumidores — inclusive ao gerar renda em setores como tecnologia, que historicamente têm forte relação com o consumo de vinho.
"De meados da década de 90 até 2017, o número de vinícolas dobrou e a quantidade de vinho produzido quase triplicou", disse Petroski. "Prevejo que nos próximos três a cinco anos [...] o dinheiro voltará a fluir de forma significativa", completa.
No curto prazo, a mudança mais clara aparece dentro dos restaurantes. E, aqui, a leitura é simples: a tecnologia ajuda, mas não substitui a conversa.
A relação com sommeliers, inclusive, já vem mudando há algum tempo. Saiu de algo mais formal e até intimidador para um contato mais próximo e acessível. "A IA é apenas um novo desafio para isso", disse Sinzer. "A IA não é uma sommelière carismática. Não chegou nem perto de fazer as pessoas sorrirem", afirmou.
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