É o fim do Spotify? Especialistas acreditam que modelo de negócios está ameaçado
O Spotify tem 751 milhões de usuários, cresce dois dígitos ao ano e ainda assim pode estar construindo sobre areia. O modelo de negócios que transformou a forma como o mundo ouve música carrega uma contradição estrutural: quanto mais a plataforma cresce, mais ela gasta — e a conta não fecha da mesma forma para todo mundo.
A lógica, para especialistas, gira em torno de usuários que pagam uma assinatura mensal, ou consomem música gratuitamente em troca de publicidade. Mas, por trás dos números, cerca de 70% de toda a receita é repassada a gravadoras, editoras e detentores de direitos, de acordo com Joel Gouveia, supervisor musical e empresário artístico.
Cada reprodução gera um novo custo, o que impede que as margens se expandam com o volume. Ao contrário de empresas de tecnologia tradicionais, nas quais o aumento de usuários dilui custos fixos, o streaming de música opera com custos variáveis.
"Depois que a Netflix investe US$ 20 milhões para produzir um filme original, esse custo não muda. Seja assistido por 1 milhão ou 100 milhões de pessoas, o gasto é o mesmo", escreveu em publicação no Substack. "O streaming de música funciona inversamente. Os custos crescem de forma linear com a base de usuários."
O resultado, de acordo com o executivo, é um modelo que se parece com tecnologia por fora, mas funciona como varejo por dentro, sem economia de escala real e sem margem que se expanda com o crescimento.
Todo mundo oferece a mesma coisa
O problema financeiro se agrava por outro fator: a ausência de diferenciação.
Spotify, Apple Music, Amazon Music e Tidal oferecem essencialmente o mesmo catálogo e não há um conteúdo exclusivo que justifique a escolha de uma plataforma em detrimento de outra.
Isso, para Gouveia, mostra o contraste com o streaming de vídeo. Netflix, HBO Max e Disney+ disputam assinantes com séries e filmes que só existem em uma plataforma. Quem quiser assistir a Stranger Things precisa da Netflix. Quem quiser The Last of Us precisa da HBO. Na música, essa lógica não existe: quem quiser ouvir o novo álbum da Sabrina Carpenter pode fazer isso em qualquer serviço, pelo mesmo preço.
Sem diferenciação de conteúdo, a única alavanca competitiva real passa a ser o preço — e reduzir preço em um modelo de custos variáveis pressiona ainda mais as margens.
Quem aguenta a pressão — e quem não aguenta
Nem todas as plataformas sentem esse peso da mesma forma. Para Amazon, Apple e Google, o streaming de música é peça de um ecossistema maior, não o negócio central. A Amazon utiliza o serviço para reter usuários do Prime.
A Apple, para impulsionar a venda de dispositivos. Nesse caso, de acordo com Gouveia, a divisão de música não precisa ser lucrativa por si só — ela cumpre sua função ao manter o usuário dentro do ecossistema.
Os números mostram a diferença de fôlego. O YouTube Music ajudou a Alphabet a superar US$ 60 bilhões em receita total em 2025, alta de 17% na comparação anual, com mais de 325 milhões de usuários pagos em assinaturas.
Na Apple, o segmento de serviços — que inclui o Apple Music — atingiu recorde de receita no trimestre, crescendo 14% em relação ao ano anterior. A Amazon registrou US$ 13,1 bilhões em receita de assinaturas no quarto trimestre, crescimento de 14%.
O Spotify não tem esse colchão. Como plataforma independente, depende diretamente das margens do próprio serviço de música. "Quando as margens da plataforma são estruturalmente pressionadas, quem é impactado primeiro são os artistas", afirma Gouveia.
A aposta para sobreviver
Consciente dessa fragilidade, o Spotify tenta mudar o jogo.
A estratégia passa por reduzir a dependência da música — justamente o produto que mais pesa no custo. Os co-CEOs Alex Norström e Gustav Söderström classificaram 2026 como o "ano de elevar a ambição", com foco em inteligência artificial e tecnologia de áudio.
O fundador Daniel Ek quer consolidar a plataforma como hub de música, podcasts, livros e vídeo, áreas onde o Spotify retém margens maiores, sem o repasse obrigatório à indústria fonográfica.
A projeção para o primeiro trimestre de 2026 é de 759 milhões de usuários ativos mensais e 293 milhões de assinantes Premium.
Mas há quem veja o problema como mais profundo do que uma questão de mix de receita. Jimmy Iovine, cofundador da Beats, afirmou em entrevista ao podcast Founders que os serviços de streaming estão "a minutos de se tornarem obsoletos" por conta de uma falta de sintonia entre o que os artistas precisam e o que as plataformas entregam.
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