Efeito Netflix: como o streaming gerou US$ 325 bilhões para o PIB global
Houve um tempo, antes de disputas por estúdios centenários e bilhões nas plataformas de anúncios, em que o sucesso da Netflix era medido apenas pelo número de assinantes. Não era de todo mal: o padrão foi o guia que "estilingou" a plataforma frente aos concorrentes no mercado. Beirando os 30 anos de existência, no entanto, o co-CEO da empresa, Ted Sarandos, entende que há outras métricas mais importantes.
Ao completar uma década da histórica expansão para 190 países, a companhia decidiu colocar na ponta do lápis o que chama de "O Efeito Netflix": um rastro de US$ 325 bilhões deixado na economia global nos últimos dez anos. Esse e outros dados macroeconômicos gerados pela empresa estão compilados em uma plataforma pública, lançada nesta terça-feira, 12.
"É um panorama completo do impacto econômico, cultural e social dos nossos filmes e séries, que mostra como isso reverbera na economia, na indústria e na vida cotidiana, dia após dia, semana após semana", disse Sarandos em um artigo enviado com exclusividade à EXAME.
Na última década, a Netflix investiu mais de US$ 135 bilhões em filmes e séries. Só para produções próprias, criou mais de 425 mil empregos. E foi além, mundo afora: inflou passagens de avião, mexeu em turismo (no Brasil, inclusive) e na indústria audiovisual como um todo.
"Fomentamos a indústria do entretenimento através de programas de treinamento que já alcançaram mais de 90 mil pessoas em mais de 75 países", acrescenta Sarandos no artigo. Na última década, a plataforma já trabalhou com mais de 2 mil produtoras.
A economia global da Netflix em números
A primeira etapa da expansão da Netflix veio em 2010, com a chegada ao Canadá. Um ano depois, desembarcou na América Latina, com o Brasil em destaque. Na época, o foco era conteúdo licenciado a partir de desafios de infraestrutura.
Em 2015, o streaming produziu a primeira série original fora dos Estados Unidos, Club De Cuervos, no México. Foi o primeiro passo para uma expansão recorrente em âmbito internacional. Hoje, a Netflix produz as próprias séries e filmes em mais de 4.500 cidades e municípios de mais de 50 países.
“Toda produção da Netflix é local: cria empregos e movimenta negócios onde quer que ela aconteça”, afirma Ted Sarandos, co-CEO da Netflix. “Esse impacto vai muito além das telas. Enquanto outras empresas de entretenimento recuam, nós seguimos em frente, destinando dezenas de bilhões de dólares à criação de conteúdo e investindo em instalações de produção da Espanha a Nova Jersey.”
Evidentemente, alguns títulos se destacam sobre outros quando o assunto é impacto econômico. Nos Estados Unidos, por exemplo, as quatro temporadas de O Poder e a Lei contribuíram com mais de US$ 425 milhões para a economia da Califórnia, empregaram mais de 4.300 membros de elenco e equipe, e foram filmadas em mais de 50 locações diferentes em Los Angeles — incluindo o Dodger Stadium e o Grand Central Market.
As cinco temporadas de Stranger Things geraram mais de 8 mil empregos, incluindo mais de 200 dublês que trabalharam apenas na temporada final. Mais de 3.800 fornecedores de quase todos os estados ajudaram a tornar a série realidade.
Na América Latina, o crescimento foi aumentando aos poucos. Frontera Verde, uma série de suspense colombiana filmada em plena Amazônia, contribuiu com a economia local e com comunidades da floresta. "Antes de iniciarmos as filmagens, Walter Morales, membro da comunidade local, conduziu um ritual para abençoar nossa equipe. A família dele trabalhou na produção como assistentes de maquiagem e de produção. Alguns também participaram do elenco", conta Sarandos.
30 dos 150 integrantes da equipe vieram da comunidade amazônica local.
O Brasil segue nesse mesmo ritmo de expansão e crescimento. Hoje, a Netflix tem entre 100 e 150 títulos brasileiros no catálogo global, incluindo filmes como O Filho de Mil Homens, Homem com H, e séries como Cidade Invisível, Bom Dia, Verônica, entre outros. A tendência, conforme aumenta a demanda, é que esse número cresça mais rápido.
Para Senna, por exemplo, foram contratados mais de 200 atores de 18 países diferentes. Mais de 14 mil figurantes fazem parte da temporada. A produção foi feita pela Gullane, coproduzindo com países como Argentina, Uruguai e Irlanda do Norte.
Fora das Américas
Fora do mercado norte-americano, os destaques foram até mais expressivos. A coreana Round 6 se tornou um dos maiores sucessos do streaming dos últimos tempos, com mais de 300 milhões de visualizações nas três temporadas. A série gerou um impacto estimado em mais de US$ 900 milhões no primeiro ano e impulsionou turismo e exportações culturais. Estudos de mercado estimam que a Netflix tenha contribuído com US$ 1,9 bilhão para a economia da Coreia do Sul em 2021.
Esse destaque no país asiático se renovou com Guerreiras do K-Pop, hoje o filme original mais popular da Netflix de todos os tempos. “Golden” foi a primeira faixa de K-pop da história a ganhar um Grammy, e o filme levou para casa dois Oscars. O Duolingo registrou um aumento de 22% no número de pessoas nos EUA que estudam coreano, e as reservas de voos para a Coreia do Sul cresceram 25%.
Fora do fenômeno sul-coreano, a Europa também teve sua economia beneficiada por produções da Netflix.Strängnäs, uma pequena cidade nos arredores de Estocolmo onde foram gravadas sete versões europeias diferentes de Casamento às Cegas, se tornou um polo audiovisual na Suécia. Durante 40 semanas por ano, o local se transforma em um set movimentado, empregando equipes de iluminação, áudio, cenografia, maquiagem e alimentação. Elas se hospedam em hotéis da cidade, comem nos restaurantes locais e mantêm o transporte da região em plena atividade.
Na Tailândia, por exemplo, o investimento de US$ 200 milhões da Netflix entre 2021 e 2024 impulsionou o turismo e o comércio local. O fenômeno Hunger fez restaurantes de todo o país adotarem o "Crybaby Noodles" em seus menus, por exemplo.
Outras produções que tiveram destaques em seus respectivos países foram Bridgerton (Reino Unido), El Internauta (Argentina), Cem Anos de Solidão (Colômbia), Alice in Boderland (Japão), Lupin (França), Heeramandi (Índia), Die Kaiserin (Alemanha), entre outros.
Vida (e relevância) pós-Warner
O lançamento da plataforma de impacto ocorre em um momento de euforia financeira para a empresa. No primeiro trimestre de 2026, a Netflix reportou um lucro líquido de US$ 5,28 bilhões, um salto de 86% em relação ao ano anterior.
Parte desse fôlego veio de um negócio que não aconteceu. Após a desistência da aquisição da Warner Bros. Discovery (WBD) — que acabou nas mãos da Paramount em uma oferta hostil —, a Netflix embolsou uma taxa de rescisão (termination fee) de US$ 2,8 bilhões. O valor caiu direto no caixa e elevou a previsão de fluxo de caixa livre para US$ 12,5 bilhões no ano.
“A WBD era uma coisa legal de se ter, não necessária. Nosso foco é o DNA da Netflix”, disse Sarandos durante a reunião com acionistas na divulgação do primeiro balanço de 2026. “Historicamente somos construtores, não compradores.”
Ainda assim, a companhia não abriu mão de uma próxima aquisição. Em abril deste ano, passou a negociar a aquisição do Radford Studio Center, ativo retomado por credores após inadimplência. O estúdio havia sido vendido por US$ 1,85 bilhão em 2021. O novo acordo pode sair por menos de um terço desse valor, informaram pessoas com conhecimento das negociações à Bloomberg.
Sarandos, diante das recentes movimentações, parece olhar para a Netflix internacional com mais carinho. E ressalta:
"Hoje em dia, o setor do entretenimento se transforma ainda mais rápido do que quando começamos. Por isso, pensando na próxima década, vamos continuar investindo nas relações que construímos com os nossos parceiros de criação, nas comunidades das quais dependemos e nos fãs que adoram assistir às nossas histórias."
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: