Eficiência em pauta

Por Nivaldo Souza 27 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Eficiência em pauta

Especialistas em tecnologia e energia reuniram-se em 29 de abril, em Brasília, no fórum Redes do Amanhã, organizado pela EXAME e pela consultoria PSR, para debater algumas das principais urgências do setor elétrico brasileiro: da redução de subsídios que pesam na conta do consumidor à abertura do mercado livre de energia e à atração de investimentos em data centers.

Entre os temas, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), proposto pelo governo no final de 2025, chegou ao fórum parado no Senado. Encaminhado inicialmente por medida provisória e, após demora na apreciação pelo Congresso, via projeto de lei (PL 278/2026), foi aprovado pela Câmara em fevereiro, mas não avançou. Um dos motivos foi a disputa pela vaga no STF — que culminou, justamente no dia do fórum, com a rejeição de Jorge Messias por 42 senadores.

Presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) queria o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) como ministro da Suprema Corte, enquanto o presidente Lula optou pelo advogado-geral da União, Jorge Messias. No meio da crise política, o Redata foi deixado de lado. Isso trouxe incerteza para investimentos que começavam a mirar o Brasil em razão da oferta de energia 90% renovável. Atualmente, o país ocupa o 11o lugar no ranking global, com 204 data centers, segundo a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), com 60% da demanda de processamento de dados sendo realizada no exterior.

Transmissão de energia: Angela Gomes, da PSR, debateu perspectivas para o setor com Sandoval Feitosa, da Aneel; Arnaldo Jardim, da Comissão de Transição Energética; e João Cascalho, do Ministério de Minas e Energia (Augusto Costa/Exame)

“Não podemos deixar de ter os data centers aqui. É uma questão de soberania nacional”, afirmou Fábio Nugnezi, vice-presidente de marketing e vendas da Hitachi Energy. “A decisão que precisa ser  tomada é de Estado. Nós queremos ser protagonistas [em tecnologia] ou não?”, questionou Pedro Fonseca e Silva, gerente de expansão da Odata.

O executivo da Hitachi observou que há um aumento em nível global de projetos sobrecarregando a cadeia produtiva de suprimentos. E que o Brasil precisa correr para não ficar de fora do planejamento desses investimentos. “Data centers surgem no meio do nada. Não dá para comprar equipamentos em 18 meses. O planejamento do setor precisa ser muito bom equiparado aos demais”, explicou.

Sustentabilidade como diferencial

Para Thiago Ivanoski Teixeira, diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o país tem condições de atender à demanda. “Temos competitividade do ponto de vista prático. É óbvio que há uma série de elementos e sinais econômicos que precisam melhorar. Mas, do nosso ponto de vista, o setor de data center no país e o sistema elétrico brasileiro têm um match total”, disse.

Soluções energéticas: Amanda Fernandes, da PSR; Carlos Adolfo Pereira, da ABDIB; Glauco Freitas, da Hitachi; e Thiago Dourado Martins, da EPE, discutiram os próximos passos na energia brasileira (Augusto Costa/Exame)

Um estudo da Associação Brasileira de Data Center (ABDC) mostra que o Brasil reduz a pegada de carbono em pelo menos sete vezes a cada megawatt consumido por data center, em comparação com o mesmo consumo nos Estados Unidos. Essa geração renovável pode compensar as emissões de países como os EUA, líder global em data centers.

O Brasil já tem 1,3 gigawatt (GW) de energia para projetos com contratos firmados. Trata-se de energia capaz de abastecer uma cidade com 3 milhões de habitantes, como as capitais Belo Horizonte, Brasília ou Salvador. O consumo dos centros de processamento de dados pode triplicar até 2031, com investimento do setor atingindo 92 bilhões de dólares (cerca de 495 bilhões de reais), conforme a Brasscom.

A perspectiva movimenta o setor de infraestrutura de bateria para armazenamento de energia, transformadores e outros periféricos. Como a Hitachi, empresa japonesa dedicada ao desenvolvimento de tecnologia para energia, cuja fábrica de transformadores em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, opera com total capacidade. “É a maior [fábrica] em entrega e faturamento da Hitachi do mundo”, disse Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head of South LATAM.

A companhia agora investe 270 milhões de reais em uma nova unidade em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, para ampliar a capacidade de produção em 120%, visando atender à demanda futura dos centros de dados de empresas como Google, Meta e Nvidia. “O volume de compras que esse pessoal tem para fazer é nababesco, algo nunca antes visto”, apontou Freitas.

Carlos Adolfo Pereira, coordenador do Comitê de Transmissão da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), afirmou que os novos contratos devem partir da manutenção da segurança regulatória e da confiabilidade para o investidor. “Vamos ter de construir uma nova distribuição, além dessa que está aí. O que vem nos próximos 30 anos é investir em tecnologia”, sugeriu.

Data centers no Brasil: Mateus Cavaliere, da PSR; Fábio Nignezi, da Hitachi Energy; Pedro Fonseca, da Brasscom; e Thiago Teixeira, da EPE, debateram como destravar investimentos (Augusto Costa/Exame)

Redução de subsídios

O Redes do Amanhã discutiu também o peso dos subsídios na conta de energia paga pelo brasileiro sob a perspectiva da Justiça Tributária. Dados da EPE mostram que a população mais pobre é penalizada, pois a conta de luz consome cerca de 10% da renda de um quarto dos brasileiros. Diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Sandoval Feitosa, reportou aumento de 25% nos subsídios entre 2024 e 2025. Ele apontou o impacto sobre o consumidor como uma das falhas do setor elétrico que precisam ser corrigidas. “Quem está penando para pagar a conta de energia são os mais pobres, os mais vulneráveis”, afirmou.

O excesso vai na contramão da chamada modicidade tarifária, regra que define a ideia de valores mais acessíveis ao consumidor, prevista na nova lei do setor elétrico (no 15.269, de 2025). “A tarifa é uma preocupação e continuará sendo. Precisamos reavaliá-la de uma forma organizada no país para que o consumidor tenha sua modicidade. Modicidade tarifária não é um luxo no país, ela é necessária”, disse.

Feitosa criticou o impacto de subsídios, que apenas na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) representará 52,7 bilhões de reais em 2026. Isso representa entre 12% e 20% do valor final pago pelo consumidor. Além desse custo, há cerca de 23% de impostos. “Energia cara não é bom para a população, para o setor produtivo, e não é bom também para os governos, apesar de, em algum momento, acharem que podem arrecadar mais”, disse.

Outro tema importante do fórum foi a abertura do mercado livre para consumidores de baixa tensão (residencial, comercial e industrial). O novo marco regulatório, representado pela Lei no 15.269/2025, vai garantir a esses consumidores o direito de escolher qual empresa de distribuição de energia desejam contratar.

O secretário-executivo-adjunto do MME, Fernando Colli Munhoz, antecipou alguns pontos centrais do decreto. “A lei fixa que a partir de novembro do ano que vem o mercado já pode ser aberto para os consumidores de baixa tensão industrial e comercial, e um ano depois para o residencial. Então, temos um tempo curto. Nós, ainda assim, precisamos publicar um decreto e, depois, há uma série de regulações que a Aneel precisa fazer”, explicou.

“O plano de comunicação é essencial para mitigar riscos e para explicar ao consumidor o que é o mercado livre de energia, o que são os benefícios que ele tem ao escolher entre suprimentos regulados [fornecimento tradicional] e ir para um suprimento livre [escolha da distribuidora], no qual ele pode decidir livremente quem o supre”, destacou.

“Temos que incentivar o consumidor a ficar lá [no suprimento temporário] pouco tempo e procurar um novo supridor [permanente], ou voltar para um ambiente regulado [tradicional]”, completou o secretário.

Para Wilson Ferreira Jr., CEO da Matrix Energia, o consumidor brasileiro já está familiarizado com a livre escolha em outros mercados. “O consumidor brasileiro hoje tem a opção de escolha. Ele está acostumado a escolher”, disse. Hoje, o executivo defende a competitividade como elemento central do novo marco. “Estamos na era da eficiência. A competição gera eficiência. A figura que estamos criando é a do cliente, não a do consumidor. O consumidor vem até nós. O cliente você tem que buscar, e precisa apresentar alguma coisa diferente”, comparou.

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