Eficiência repetitiva

Por Sofia Esteves 23 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Eficiência repetitiva

Ter um negócio eficiente não é uma questão de capricho. Para ser sustentável no aspecto financeiro, uma empresa precisa saber otimizar recursos, estruturar processos, garantir produtividade e fazer uma boa gestão do tempo, do capital e das pessoas. Também precisa inovar e usar bem as tecnologias disponíveis. Portanto, a busca por eficiência é legítima, mas ela não pode ser usada como uma desculpa para que você e eu, sem perceber, passemos a abrir mão de certos ativos intangíveis, como o próprio pensamento original.

Há algum tempo, especialistas têm alertado para o risco de estarmos automatizando a originalidade por causa do uso indevido de ferramentas de inteligência artificial. Pressionadas por prazos curtos, produtividade constante e entregas em escala, as pessoas têm recorrido aos agentes de IA não só para apoiar a execução de tarefas, mas para pensar por elas.

Um estudo publicado no ano passado pelo MIT, por exemplo, mostrou alguns efeitos disso. Ao comparar um grupo que usou IA para escrever um artigo com outro que só pôde contar com o próprio pensamento, foi descoberto que quem delegou totalmente a tarefa para a máquina apresentou menor atividade cerebral, com redução de conexões ligadas à criatividade e à memória de trabalho e menor senso de autoria sobre o que produziu. Durante o experimento, estudantes usaram uma espécie de capacete com eletrodos para medir a atividade cerebral. Na mesma linha, uma pesquisa da Universidade Cornell indicou certa homogeneização das respostas e dos estilos de escrita, tornando os conteúdos de pessoas diferentes mais parecidos entre si e mais alinhados a padrões dominantes.

Como sempre, a crítica não é à tecnologia, mas ao uso que fazemos dela. É também um alerta sobre o que acontece quando delegamos completamente determinadas atividades a uma ferramenta que deveria cumprir uma função auxiliar, não substitutiva. Nosso pensamento e, consequentemente, nossas entregas começam a ficar todas com a mesma cara, sem personalidade. Aquilo que nos torna indivíduos únicos vai desaparecendo. Provavelmente, você já deve ter visto esse efeito na prática. Sabe quando passamos pelo feed no LinkedIn e as publicações parecem as mesmas? Ou quando um artigo de opinião, insights de um relatório e apresentações corporativas são genéricos?

É como uma sensação de “homogeneização do déjà vu”: não se trata apenas de um estranhamento pontual de algo que parece familiar, mas de um incômodo com a repetição constante de ideias, estruturas e argumentos que mudam apenas na superfície. Você lê, reconhece o padrão imediatamente e, no fundo, já sabe exatamente como aquele texto vai terminar. Por mais que as pessoas tenham pontos de similaridade, que elas compartilhem de opiniões e referências, não é normal que a forma de se expressar, os pontos de vista, os insights, enfim, os pensamentos sejam tão parecidos assim. E, quando tudo fica com a mesma cara, corremos o risco de que aquilo que nos tornava tão únicos enquanto seres humanos esteja, paulatina e discretamente, sumindo.

Diante desse cenário, pode ser que alguém argumente que existe uma alta demanda por eficiência e que passar toda essa carga para a IA é a única (ou a melhor) saída. E eu entendo. Não é fácil realmente lidar com as pressões por performance, velocidade de resposta e ritmo intenso nas entregas. Porém, o alerta que faço é tanto para profissionais quanto para empresas: o efeito de longo prazo do uso equivocado da IA pode ser, justamente, a perda da tão almejada eficiência.

Isso porque, quando terceirizamos todo o processo de construção do pensamento e aceitamos a entrega sem nenhum senso crítico, deixamos de exercitar nosso senso crítico, nossa criatividade e capacidade de análise. Brainstorms, discussões aprofundadas e processos de cocriação a partir de opiniões variadas deixam de acontecer. Não recorremos mais a outras pessoas para trocar ideias, escutar opiniões diferentes e tensionar nosso próprio raciocínio.

Em vez disso, ficamos apenas diante de uma tela de forma passiva. Não dá nem para chamar a ferramenta de uma parceira de trabalho quando ela é usada dessa forma porque, no fim das contas, ela faz tudo e nós só validamos sem questionar. Nesse cenário em que o potencial da IA é mal explorado, também não existe mais tempo para reflexão. Com um prompt e um clique, temos acesso a “opiniões” instantâneas e genéricas. Opiniões que não necessariamente são nossas, mas que incorporamos na pressa de entregar, decidir e seguir para a próxima tarefa.

Nos acostumamos a respostas prontas e estruturas previsíveis, e quando precisamos fazer diferente a dificuldade é enorme. Só que, veja bem, não há eficiência real quando as entregas são feitas sem pensamento crítico, porque esse modo de operar não sustenta resultados no longo prazo. Quando paramos no automático, não criamos nada novo, não geramos impacto.

Afinal, se tudo passa a ser mais padronizado e mais previsível, o que exatamente ainda diferencia uma ideia da outra? O que ainda diferencia uma pessoa colaboradora da outra? Um negócio do outro? Quando abrimos mão do exercício difícil, mas também fundamental, de pensar de forma crítica, estamos abrindo mão de algo muito maior: perdemos um pouco da nossa essência, da nossa individualidade e também da produtividade.

A tendência é que o trabalho com IA esteja cada vez mais presente no nosso dia a dia e que o uso da ferramenta seja cada vez maior. Esse não é o problema. A questão é quando, em nome da eficiência, abrimos mão de pensar, questionar e elaborar nossas próprias ideias. Isso não gera nem produtividade nem inovação: apenas repetição do que já existe.

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