Ela abriu uma empresa grávida para criar produtos para a filha — e agora mira R$ 200 milhões
Quando estava grávida da primeira filha, a nutricionista Marcela Castilho começou a olhar para os produtos do dia a dia de uma forma diferente. Cosméticos, maquiagem, sabonetes e itens de higiene passaram a ser analisados sob uma nova perspectiva: o que realmente entrava em contato com o corpo de um bebê em desenvolvimento?
A busca pessoal acabou revelando uma oportunidade de negócio. Ao pesquisar produtos infantis com fórmulas mais naturais, Marcela percebeu que havia poucas opções disponíveis no mercado brasileiro. A inquietação durante a maternidade virou uma empresa: em 2021, ela fundou a Booma ao lado do marido, Wagner Araújo, com a proposta de criar produtos de cuidados para bebês com ingredientes naturais e foco em segurança.
Noi ritmo atual de crescimento, a marca projeta fechar 2026 com R$ 50 milhões em faturamento e mira chegar a R$ 200 milhões até 2028. A empresa começou com um investimento próprio de R$ 900 mil, lançou seu primeiro lote com cerca de 5 mil unidades e atualmente produz aproximadamente 30 mil produtos por mês.
Em três anos, o portfólio cresceu de dois para 16 produtos, enquanto o faturamento avançou 120% no segundo ano de operação e 200% no terceiro. O ticket médio no e-commerce gira em torno de R$ 280.
“Quando eu engravidei, minha cabeça virou de cabeça para baixo em relação ao mundo infantil. Eu só conseguia pensar na minha filha e em tudo que eu ia fazer com ela”, afirma Marcela. “Eu comecei a ficar muito cuidadosa com tudo que eu usava e comecei a pesquisar cosméticos mais limpos.”
Uma nutricionista que virou empreendedora
Antes da Booma, Marcela construiu uma carreira de uma década como nutricionista, com atuação clínica e duas pós-graduações na área. Ela trabalhava com nutrição funcional e atendia principalmente adultos, mas buscava ampliar o impacto do seu trabalho.
A mudança aconteceu durante a gestação. Aos seis meses de gravidez, ela começou a pesquisar quais produtos usaria na rotina da filha e percebeu que encontrar cosméticos infantis naturais não era uma tarefa simples.
“Eu pensei: não é possível que no Brasil, um país tão rico, com tanta diversidade e tanta riqueza de natureza, a gente não consiga ter produtos que respeitem o desenvolvimento e a infância da criança”, diz.
A ideia chegou ao marido, que já tinha experiência empreendedora. Depois de estudar o mercado, o casal decidiu avançar. A empresa foi aberta quando a filha de Marcela tinha apenas um mês de vida.
“Se você viesse do futuro e me contasse que quando minha filha tivesse um mês eu abriria uma empresa, eu ia falar que você estava maluco”, afirma.
A aposta em um mercado dominado por grandes marcas
A Booma passou cerca de um ano desenvolvendo a marca e os primeiros produtos. A porta de entrada escolhida foram as pomadas para bebês — uma categoria tradicional, mas considerada estratégica pela fundadora por estar ligada a uma região sensível da rotina infantil.
O primeiro lançamento veio com duas pomadas. A empresa apostou em uma formulação diferente das opções mais tradicionais do mercado, com óleos e ceras vegetais e sem ingredientes como derivados de petróleo, parabenos e corantes artificiais.
“Eu acho que o grande diferencial da Booma é a nossa preocupação com composição, eficácia e segurança. Não adianta ter um produto super natural que não faz o efeito que você deseja”, afirma Marcela.
A empresa trabalha hoje com produtos como pomadas, shampoos, condicionadores, protetor solar, limpadores e itens de cuidados diários. A estratégia é acompanhar o crescimento da criança e aumentar a recorrência de consumo.
“Quem começa com a gente nas pomadas vai crescendo. A criança vai deixando de usar pomada diariamente e começa a ter outras necessidades”, diz.
Operação terceirizada e expansão do portfólio
A Booma não possui fábrica própria. A produção é feita por indústrias terceirizadas, enquanto Marcela participa diretamente do desenvolvimento das fórmulas junto às equipes técnicas.
Hoje, a operação conta com seis indústrias parceiras e sete funcionários diretos, além de fornecedores e prestadores envolvidos na cadeia.
“Eu fico à frente desse desenvolvimento de produtos junto com os times. Eu 'brifo' exatamente o que eu quero, a consistência, o que eu quero que tenha e o que eu quero que não tenha”, explica.
A empresa também acelerou o lançamento de produtos. Depois de passar o primeiro ano concentrada nas pomadas, dobrou o número de SKUs e passou a ampliar a linha.
O mercado de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos voltado para o público infantil no Brasil vive um período de amadurecimento e forte expansão financeira. Segundo dados consolidados pela consultoria global Euromonitor International, o faturamento deste segmento no país alcançou a marca de R$ 5,5 bilhões, registrando um crescimento de 25,2% em um intervalo de cinco anos.
Longe de mostrar estagnação, projeções mais recentes da mesma entidade apontam que o mercado de cuidados pessoais e higiene infantil deve passar por um salto expressivo de consolidação e valor agregado, com estimativa de movimentar R$ 46,9 bilhões até 2028 no cenário nacional.
Essa aceleração robusta reflete uma mudança geracional profunda nos critérios de compra das famílias urbanas. Conforme aponta a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), o Brasil já se posiciona como o terceiro maior mercado global de produtos infantis nesse setor.
Quais serão os próximos passos da Boom
A estratégia da Booma agora está concentrada na expansão da distribuição. Nascida com forte presença digital, a marca quer aumentar a participação no varejo físico, especialmente no canal de farmácias.
Atualmente, os produtos são vendidos pelo site próprio, na Drogaria Iguatemi e em cerca de 50 lojas revendedoras de produtos naturais. A entrada no varejo físico começou no ano passado e abriu uma nova frente de crescimento.
Segundo Marcela, o canal de farmácias deve ser um dos principais motores para alcançar a meta de faturamento.
“O canal farma ganha muito em volume. Isso vai dar um salto grande na empresa”, afirma.
A companhia também recebeu sua primeira rodada de investimento em 2025, usada para ampliar o portfólio, estruturar estoque e preparar a expansão comercial.
Com a internacionalização no radar a partir de 2027, Marcela acredita que a marca brasileira tem uma vantagem: entender melhor as necessidades das famílias locais.
“Existe uma questão cultural também. O Brasil tem uma diversidade muito grande. A gente entende como a gente é e consegue criar produtos pensando nessa realidade”, afirma.
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