Ela comprou uma casa de pescador por WhatsApp — e criou um negócio milionário no Ceará
A ideia era simples: comprar uma casa barata de pescador no litoral do Ceará, reformar e colocar para alugar no Airbnb — aproveitando, como atrativo, a aproximação com o mar. Carina Moura Ranzolin já tinha visto funcionar com uma amiga e decidiu testar.
Sem sequer ter pisado na cidade, a empresária gaúcha, hoje radicada em São Paulo, fechou o negócio à distância, confiando em fotos, contas feitas no papel e na intuição de que havia algo ali.
“Eu pensei: pode não dar rendimento de 4% ao mês como deu para minha amiga, mas se der 1%, 2%, já está ótimo”, lembra Carina.
Quando finalmente foi conhecer o imóvel em Icapuí, em setembro de 2019, encontrou um cenário contraditório: um mar quente, calmo e praticamente deserto — e uma rua tomada por lixo, casas simples de pescadores e um problema estrutural que não aparecia nas fotos. A maré, que estava avançando.
“Na hora eu pensei: ‘o que eu fui fazer aqui?’”.
O que parecia um erro virou o início de um negócio imobiliário e de hospitalidade que lhe rende R$ 600 mil ao ano — e ultrapassará o milhão na próxima temporada. Chamado de Casas na Areia Icapuí, o projeto conta hoje com cinco casas já reformadas e planos para expansão.
Como surgiu a oportunidade
A amiga de Carina havia comprado outra casa de pescador na mesma região, que fica a 200 quilômetros de Fortaleza, capital do Ceará. Ela reformou o imóvel e o colou para alugar no Airbnb. Durante o processo, ela contou com a ajuda de Carina. Os números chamaram atenção, pois a ocupação era alta e o retorno, acima do esperado.
“Eu ajudei a montar o anúncio, definir preço. Comecei a ver aquilo acontecendo de perto. Olhava e pensava: gente, isso está funcionando. Eu quero uma dessas", diz Carina.
A oportunidade apareceu na metade de 2019: um vizinho da amiga cogitou vender a casa por R$ 70 mil. A negociação não avançou na época, mas um ano depois a oferta voltou — por R$ 100 mil. Carina não hesitou.
“Eu pensei: antes que ele desista de novo, vou comprar logo.”
A transação foi resolvida por procuração. Dois meses depois, ela embarcou para conhecer o investimento que já era seu. A chegada foi impactante. Vendo ao vivo, notou que a casa precisava de muito mais do que uma reforma estética. Havia danos estruturais, risco real de erosão e um entorno desorganizado.
“Não era uma arrumadinha. Precisaria de uma obra pesada mesmo.”
Antes mesmo de iniciar a obra, o pior aconteceu: uma maré forte derrubou parte do imóvel recém-comprado.
Foi o momento de decisão. Em vez de recuar, Carina e o marido, o advogado Luciano Ranzolin, escolheram investir mais. Começando por uma obra essencial para a saúde do negócios: um muro de contenção para segurar o avanço do mar.
“Ali eu entendi que não era só reformar casa. Era resolver um problema muito maior.”
A primeira casa e o padrão que viria depois
Enquanto a contenção avançava, o casal decidiu comprar outro imóvel da região, mais protegido, para colocar o projeto de pé. Nascia a "Casa Castanhola", a primeira do grupo Casas na Areia Icapuí. O conceito buscava manter a essência local, mas elevar o padrão de conforto.
Carina mergulhou no projeto com olhar de curadoria. Usou materiais da região, trabalhou com artesãos locais e misturou elementos rústicos com enxoval premium.
“Eu queria que fosse simples, mas muito bem feito. Confortável de verdade.”
Ela mesma treinou a equipe, organizou operação e preparou a casa como se fosse uma inauguração de loja.
Mais uma das casas do portfólio: casal ainda tem terrenos para construir ao menos mais dez unidades (Carina Moura Ranzolin/Divulgação)
Como a pandemia acelerou o negócio
A primeira casa ficou pronta em fevereiro de 2020, semanas antes da pandemia. O timing, por acaso, foi perfeito. Com o isolamento, famílias passaram a buscar destinos mais reservados, longe de hotéis cheios. Casas inteiras, em lugares pouco explorados, viraram tendência. Icapuí se encaixava exatamente nesse perfil. A demanda explodiu.
“No começo, a diária era R$ 400. Depois chegou a R$ 1.400”, diz Carina.
Em pouco tempo, o casal passou a comprar novos imóveis na região e acelerou as reformas. Sempre que surgia uma oportunidade, muitas vezes trazida pelos próprios moradores, eles avaliavam e, se fizesse sentido, compravam.
O movimento ganhou escala. Ao longo dos anos, Carina e Luciano foram adquirindo casas e terrenos, principalmente na faixa de frente para o mar. Hoje, somam cerca de 230 metros lineares de área beira-mar, além de lotes na parte de trás.
O investimento apenas em imóveis já gira em torno de R$ 3 milhões. Considerando reformas, obras e estrutura, o valor quase dobra. A valorização acompanhou o movimento.
“Eu paguei R$ 100 mil na primeira casa. A última já foi quase R$ 1 milhão.”
Hoje, o portfólio inclui cinco casas operando, uma em reforma e terrenos com potencial para pelo menos mais 10 unidades.
Carina Moura Ranzolin e o marido, Luciano Ranzolin: casal transformou casas de pescadores no Ceará em um negócio de locação que fatura cerca de R$ 600 mil por ano (Carina Moura Ranzolin/Divulgação)
A rua que precisava mudar
Mas não bastava reformar as casas. O entorno continuava sendo um problema — e afetava diretamente a experiência dos hóspedes. Foi então que Carina decidiu investir na rua. Ela organizou um mutirão com moradores, comprou equipamentos, pagou pequenas diárias e liderou a limpeza. O resultado: 11 caçambas de lixo retiradas.
“Era lixo acumulado há muito tempo. Mudou completamente a percepção do lugar.”
A ação ajudou a transformar a área e, aos poucos, elevar o padrão da região. Paralelo a isso, o negócio começou a funcionar de forma mais organizada. Carina mantém uma estrutura enxuta, com duas responsáveis diretas pela operação local — uma focada em atendimento ao hóspede e outra na gestão da casa — além de cerca de 20 profissionais indiretos.
A comercialização acontece por meio do Airbnb e canais próprios. Até 2025, o faturamento anual foi de R$ 600 mil, com forte sazonalidade: períodos como réveillon podem gerar até R$ 100 mil em poucos dias. Ainda assim, segundo Carina, há espaço claro para crescimento.
“Eu nunca fiz marketing de verdade. Agora é o próximo passo.”
Qual é o próximo passo
Com a operação mais estruturada, Carina quer profissionalizar a estratégia comercial e ampliar a ocupação ao longo do ano, reduzindo a dependência de finais de semana e alta temporada.
A meta é ambiciosa: chegar a R$ 1 milhão de faturamento anual a partir 2027. Além disso, há um banco de terrenos prontos para expansão — o que pode multiplicar a capacidade do negócio.
“Hoje eu já sei fazer. Já errei, já aprendi, já testei.”
O projeto que começou por impulso virou um ativo relevante — financeiro e pessoal.
“Eu comecei sem essa intenção toda. Era para ser uma experiência. E acabou virando um negócio.”
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