Ela deu a volta ao mundo de bicicleta em tempo recorde — e quer mais

Por Marina Semensato 7 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ela deu a volta ao mundo de bicicleta em tempo recorde — e quer mais

Pouco mais de três meses se passam em 108 dias. O que cabe nesse intervalo? Para a americana Lael Wilcox, coube dar a volta ao mundo de bicicleta. A ultraciclista concluiu, em setembro de 2024, um percurso de cerca de 29 mil quilômetros, cruzou mais de 20 países e estabeleceu o recorde feminino da modalidade.

O tempo foi mais de duas semanas abaixo do recorde feminino anterior, que pertencia à escocesa Jenny Graham. Mas, para Wilcox, ter o nome no Guinness só pela categoria feminina não parecia suficiente.

O novo objetivo é disputar a melhor marca geral da prova — hoje nas mãos do britânico Mark Beaumont — e encurtar em cerca de um mês o tempo necessário para completar o percurso. "Este é o projeto mais ambicioso da minha vida", disse ao The Guardian.

De onde veio Wilcox?

Nascida em Anchorage, no Alasca, Lael Wilcox não teve sua vida toda ligada ao ciclismo. Na verdade, quando criança, se interessava mais por outras práticas como futebol e basquete.

A intimidade com a bicicleta só surgiu quando ela saiu de sua cidade natal para estudar em Washington. "Naquela época, eu trabalhava como garçonete e precisava de um meio de transporte para ir ao trabalho. Nunca tinha tido um carro, então era apenas um meio de transporte", contou em entrevista ao Expedition Portal.

Com o passar do tempo, pedalar virou mais do que um meio de locomoção — um novo horizonte de possibilidades. "Eu podia pedalar pela cidade, mas também atravessar o país ou até mesmo de um país para outro. Isso deu início a uma transição de "deslocamento diário" para "viagem". Percebi que podia levar coisas na minha bicicleta, continuar pedalando dia após dia e conhecer muitos lugares incríveis gastando pouco", completou.

"As coisas evoluíram rapidamente e passei os sete anos seguintes explorando o mundo de bicicleta. Trabalhava metade do ano em restaurantes e empregos temporários e a outra metade viajando de bicicleta", disse.

"A bicicleta virou parte de mim"

O vínculo com a bicicleta não foi imediato. Antes de pedalar, Wilcox era corredora e demorou a se adaptar ao novo ritmo. "Mas você percebe que pode ir mais longe, carregar mais coisas e viver mais experiências", prosseguiu.

A relação naturalmente mudou de patamar. "Com o tempo, senti que a bicicleta era parte de mim. Pedalar virou como respirar", afirmou. "Tornou-se meu refúgio."

A adaptação também teve um lado prático. Diferentemente da corrida, que costuma exigir pausas mais longas por causa de lesões, o ciclismo permitiu aumentar volume e frequência. "É incrível poder pedalar 300 quilômetros por dia e se recuperar em uma semana", disse.

Foi então aos 20 anos que a paixão gerou um objetivo específico: dar a volta ao mundo de bicicleta. A viagem, feita ao lado do então parceiro Nicholas Carman, passou por mais de 30 países e somou mais de 160 mil quilômetros.

Registro de corrida no Quênia (Reprodução/Site Lael Wilcox)

Foi ali que o ciclismo virou o projeto de vida da atleta. Desde então, Wilcox construiu carreira em provas de ultrarresistência, muitas delas no formato autossuficiente, em que o atleta precisa carregar tudo o que vai usar e resolver sozinho qualquer imprevisto ao longo do percurso.

"Pedalo muito. As corridas que participo geralmente têm pelo menos 1.000 km e são todas autossuficientes", disse em entrevista ao WhereNext Live. "Todos largam juntos, é um cronômetro contínuo, e quem chegar primeiro vence."

Projetos e conquistas

Ao longo dos anos, Wilcox acumulou vitórias e recordes no mundo do ciclismo. Em 2016, venceu a Trans Am Bike Race no geral, quando atravessou os Estados Unidos de costa a costa. No Tour Divide, uma das provas mais exigentes do calendário, bateu o recorde feminino. Também quebrou marcas na Baja Divide — inclusive acima de recordes masculinos.

Fora das competições, ela também se envolve em iniciativas para ampliar o acesso ao ciclismo, com projetos voltados à formação de jovens e ao incentivo à participação feminina no esporte. Ela divide boa parte desses projetos com a esposa, a fotojornalista Rugile "Rue" Kaladyte, que documenta as expedições. No seu site oficial, Wilcox tem seus "diários" de corrida, com trajetos e fotos dos bastidores.

Um dos mais recentes foi desenvolvido na Colômbia, em parceria com a Conservation International. A proposta foi criar uma rota de cicloturismo que conecta áreas de conservação ambiental próximas a Bogotá, incluindo regiões responsáveis pelo abastecimento de água da cidade.

O percurso tem cerca de 430 quilômetros e foi pensado para ser feito em vários dias, com trechos fora das rotas tradicionais e passagem por áreas pouco visitadas por turistas — algumas delas, até recentemente, de difícil acesso. A ideia é incentivar tanto moradores locais quanto visitantes a explorar esses territórios de bicicleta.

"Uma das grandes vantagens do cicloturismo é aprender sobre o lugar por onde você pedala. É uma experiência sensorial incrível", disse Wilcox ao WhereNext Live. "Vivenciar o local faz com que você realmente se importe."

Ser autossuficiente é uma exigência nas provas favoritas de Wilcox, e essa característica moldou grande parte de sua história no ciclismo. Agora, porém, o projeto de bater o recorde mundial do ultraciclismo vai contra essa ideia.

Para disputar o recorde absoluto, a ciclista decidiu, pela primeira vez, montar uma equipe de apoio. São pessoas contratadas para cuidar da alimentação e da saúde da ciclista, da logística e da manutenção da bicicleta. Para ela, fica apenas a preocupação em pedalar.

O foco é delegar tarefas para reduzir qualquer tempo perdido fora do movimento. Parte disso veio da sua primeira volta ao mundo, em que ela resolvia problemas conforme surgiam e, ao rever a experiência, percebeu o quanto essas pautas drenaram seus resultados. "Era divertido, mas eu poderia ter pedalado muito mais", disse ao The Guardian.

O peso dos detalhes

A tentativa de encurtar o tempo em cerca de um mês depende de ajustes pequenos, explicou Wilcox ao jornal britânico. A ideia, de início, é pedalar 16 horas por dia e manter uma média superior a 24 km/h.

Para isso, o percurso foi redesenhado para priorizar velocidade, com trechos mais planos e sem muita elevação acumulada.

Equipamentos e rotina também contam na estratégia. Wilcox terá bicicleta reserva, peças sobressalentes e suporte mecânico contínuo. Até a alimentação deixa de ser improvisada e a dieta passa a ser definida pela equipe, para manter energia ao longo do dia.

Busca por eficiência

A busca por eficiência muda a própria natureza do desafio, disse Wilcox. Isso porque dar a volta ao mundo de bicicleta envolve contratempos, encontros, desvios, improviso. Ao reduzir as pausas, ela abre mão de parte da experiência.

O percurso segue regras rígidas. É preciso percorrer pelo menos 29 mil quilômetros, cruzar todos os meridianos e passar por pontos opostos do planeta, começando e terminando no mesmo local. O tempo corre sem interrupção, inclusive nos deslocamentos de avião entre continentes.

Lael Wilcox após uma corrida no Arizona em 2022 (Reprodução/Site Lael Wilcox)

Nem tudo é previsível, mesmo com uma margem de erro mínima. Ao longo do percurso, Wilcox ainda terá de lidar com trechos remotos, mudanças de clima e limitações de infraestrutura. A diferença é que agora os gargalos deixam de recair só sobre ela e passam a ser absorvidos pela equipe.

Wilcox, porém, não trata o recorde como um limite definitivo. "Se eu não bater o recorde, tudo bem", disse ao The Guardian. "Ainda é um privilégio poder tentar."

A paixão continua

Mesmo com o foco em desempenho e planejamento, Wilcox vê sua relação com a bicicleta para muito além de cronômetros e troféus.

"É sobre estar ao ar livre, ver lugares reais, sem saber o que me espera na próxima esquina", disse. "Começo imaginando como será o percurso, e isso já é emocionante antes mesmo de sair."

A rotina ajuda a reforçar esse vínculo. Para a atleta, já é natural acordar pensando no próximo percurso.

"Assim que acordo, quero sair e pedalar. A bicicleta tem muitas funções na minha vida. Nunca há um motivo para não pedalar; o motivo só muda", concluiu.

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