Ela trocou uma multinacional e criou uma fábrica de cosméticos que fatura R$ 5 milhões na Amazonia
Entre manteigas de cupuaçu, sementes de murumuru e óleos vindos de comunidades espalhadas entre Acre e Amapá, a Bielus está construindo um negócio em torno da ideia de que a biodiversidade não precisa ser apenas matéria-prima, e sim indústria.
A empresa fundada pela paulistana Marianna Cyrillo nasceu há apenas três anos, mas já opera uma fábrica própria na Amazônia, exporta a maior parte da produção e quer avançar para novas categorias além dos cosméticos.
Antes de criar a Bielus, Marianna passou 15 anos trabalhando com ingredientes amazônicos para a indústria cosmética. Quando a empresa em que atuava foi vendida para uma multinacional, decidiu mudar de rumo.
“Eu sou uma apaixonada pelos ingredientes, mas mais ainda pelas histórias das pessoas que fazem a colheita. Você entende que aquele óleo é muito mais do que uma cadeia graxa; ele ajuda a mudar a realidade das pessoas”, diz a executiva.
A Bielus encerrou 2025 com faturamento superior a R$ 5 milhões, crescimento de 260% sobre o ano anterior. Para 2026, a expectativa é avançar mais 25%.
Entre 2023 e maio de 2026, a empresa investiu R$ 7,5 milhões na compra de insumos amazônicos e outros R$ 1 milhão em estrutura industrial e equipe.
Hoje a companhia trabalha com 20 cooperativas, associações e núcleos comunitários espalhados pela Amazônia e mantém uma carteira de 240 clientes ativos.
Da semente à fábrica
A Bielus não começou produzindo. No início, a empresa terceirizava a prensagem dos óleos e manteigas vegetais que vendia ao mercado cosmético. O ponto de virada veio em 2024, quando surgiu um grande pedido da Europa.
Crescer exigiria investimentos que o parceiro industrial da empresa não pretendia fazer. A resposta foi construir a própria operação. A fábrica foi instalada em Ananindeua, no Pará, próximo a Belém, permitindo processar as sementes mais perto de sua origem.
“Um óleo bom, uma manteiga boa, um produto de qualidade começa com uma semente de qualidade”, afirma Marianna.
A decisão não foi apenas operacional. Havia uma lógica econômica por trás. Sementes frescas possuem uma janela curta para processamento. Estar próximo da origem ajuda a preservar características dos ingredientes e mantém mais valor agregado na região.
Hoje a estrutura possui capacidade instalada de 20 toneladas mensais e reúne uma operação que vai além da prensagem tradicional: a empresa também instalou uma refinaria própria para atender exigências do mercado internacional.
A demanda vem especialmente da Ásia. Segundo Marianna, consumidores e fabricantes querem manter os benefícios dos ingredientes amazônicos, mas com menos cheiro e coloração.
“Eles querem uma manteiga de cupuaçu extremamente hidratante, mas branca e sem aroma.”
Uma Amazônia que exporta
Embora seja uma empresa brasileira, a Bielus nasceu olhando para fora. Hoje, 85% do faturamento vem das exportações, principalmente para Europa e Estados Unidos. A empresa também já estruturou uma rede de dez distribuidores internacionais.
Neste ano, a expansão mira um novo mercado: a Ásia. A companhia participou de feiras em Amsterdã, Paris e Nova York e já reservou presença em eventos na Tailândia.
Por trás desse movimento está uma mudança maior na indústria de beleza. Consumidores passaram a pressionar marcas por ingredientes naturais, rastreáveis e associados a impacto ambiental e social.
“Antigamente um produto sustentável era muito mais caro do que a alternativa convencional. Hoje isso mudou. O consumidor coloca isso na balança”, diz a CEO.
Quais serão os próximos passos da empresa
Apesar de ter nascido focada em cosméticos, a Bielus prepara uma nova frente de crescimento. A empresa quer adaptar sua fábrica para atender exigências regulatórias da indústria alimentícia e entrar em categorias ligadas a alimentos funcionais e wellness.
A estratégia surgiu por demanda dos próprios clientes. Segundo Marianna, empresas que conheciam a Bielus em feiras de cosméticos passaram a perguntar se a companhia poderia oferecer ingredientes para outras aplicações.
A ideia, porém, não altera o modelo do negócio. A Bielus pretende continuar operando apenas no mercado B2B, fornecendo ingredientes para outras empresas.
“Um ingrediente só é bom quando é bom para todo mundo”, afirma Marianna. “Desde quem está coletando a semente até quem vai passar o produto no rosto.”
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