Ela trouxe o live commerce da China — e já movimenta mais de R$ 100 milhões no Brasil
Descrição de produtos, interação em tempo real e ofertas relâmpago definem o live commerce, modelo de vendas que cresce em plataformas como TikTok e Kwai. O formato tem atraído grandes marcas e revendedores em busca de conversão rápida.
Mas o avanço do modelo também impulsiona um novo tipo de negócio: agências especializadas na produção e estratégia de lives para marcas. É o caso da StarLive, que vendeu R$ 100 milhões em 2025.
“A StarLive nasceu da demanda. Primeiro a gente vendia, depois passou a ensinar, e aí virou uma operação completa para marcas”, conta a fundadora Evelyn Marques.
No fim de 2025, a empresa inaugurou um espaço de estúdios na Vila Madalena, em São Paulo (SP), onde quem passa na rua consegue assistir às transmissões ao vivo. Com o novo local e o início da prospecção ativa, a empresa já movimentou R$ 40 milhões no primeiro trimestre de 2026 — quase metade de todo o volume registrado no ano anterior.
Da China ao live commerce
Formada em Negócios da Moda, Evelyn Marques se mudou para a China em 2015 para acompanhar o marido, que recebeu uma proposta de trabalho no país.
Ela chegou sem falar inglês, aprendeu o idioma em poucos meses, virou professora e passou a frequentar eventos de moda. Com isso, conseguiu uma vaga como trainee em uma marca canadense, em 2018, onde foi direcionada para as transmissões ao vivo.
“Eu já tinha acompanhado algumas lives e até comprado, mas entender a dinâmica por trás foi completamente diferente.”
Ela vendia peças de roupa, apresentava os produtos, destacava características e direcionava os consumidores para os links de compra. Em alguns dias, chegava a fazer até oito horas de transmissão.
Em 2023, o live commerce movimentou cerca de 4,9 trilhões de yuans (R$ 3,5 trilhões) na China, segundo a Science Direct. Foi nesse mercado trilionário que a carreira de Evelyn se desenvolveu.
Mesmo depois de sair da empresa canadense, passou a fazer lives para marcas como Guerlain, MAC e Yves Saint Laurent — sempre intermediada por empresas chinesas.
“Era um mercado democrático e libertador. Foi ali que eu entendi que podia trabalhar de qualquer lugar, de forma independente”, diz.
Em 2020, começou a trabalhar com o AliExpress. No ano seguinte, ingressou no Kwai, chegando ao recorde de R$ 25 milhões em vendas na plataforma.
Mas foi em 2023 que apostou pela primeira vez em um negócio próprio no Brasil.
“Era uma marca de acessórios que já nasceu via live shop. Não abrimos site nem loja física. Lançamos tudo dentro do Kwai, aproveitando a abertura que já tínhamos com a plataforma”, afirma.
Ela continuava atuando com agências, mas, a partir do lançamento da marca, as demandas no Brasil começaram a surgir: os próprios clientes queriam aprender a vender via transmissões.
“Comecei a ensinar, de graça, como vender nossa marca como afiliado — e aí percebemos que aquilo podia virar um negócio”, diz.
O nascimento da StarLive
A StarLive nasceu, em 2024, como uma agência de capacitação de criadores de conteúdo voltados para vendas em transmissões ao vivo. Desde então, já formou mais de 3 mil pessoas e mantém cerca de 1,5 mil afiliados ativos.
Ainda naquele ano, de forma orgânica, surgiu uma nova demanda: empresas interessadas em terceirizar a produção das transmissões. Foi quando Evelyn apostou no primeiro espaço físico, um pequeno escritório com estúdio.
Com a demanda crescendo rapidamente, não houve tempo para estruturar um modelo de negócio antes de escalar a operação.
O avanço foi puxado por contratos com grandes marcas, que passaram a demandar transmissões frequentes — em alguns casos, diárias. Para dar conta da operação, a empresa reforçou a equipe e antecipou decisões estratégicas, como a mudança definitiva da fundadora para o Brasil.
Segundo ela, os clientes passaram a chegar de forma orgânica, atraídos pelos resultados já entregues nas plataformas.
Outro pilar em expansão é o braço de educação, criado para formar profissionais e estruturar o mercado de live commerce no Brasil. A iniciativa inclui cursos, mentorias e parcerias com instituições de ensino, com foco em capacitar desde iniciantes até vendedores já ativos.
Estrutura e crescimento
Nivea, Insider, Payot e Avon estão entre as marcas atendidas pela empresa. “A marca manda a amostra e a gente faz tudo: estratégia, roteiro, cenário e apresentação da live”, afirma Evelyn.
Para acompanhar a demanda, a estrutura também cresceu. Em 2025, a empresa se mudou para uma casa com cinco estúdios. No fim do ano, deu mais um passo e inaugurou um espaço conceito com dez estúdios na Vila Madalena.
“A ideia foi trazer a operação para a rua, em um lugar movimentado, para que as pessoas pudessem ver o live commerce acontecendo, como uma forma de dar mais visibilidade ao nosso trabalho”, diz.
Além da visibilidade, a empresa passou a investir, em 2026, pela primeira vez, na prospecção ativa de clientes. Agora conta com uma equipe comercial dedicada à expansão da base.
A captação, no entanto, ainda exige esforço. Cada reunião funciona quase como uma consultoria, já que o modelo ainda precisa ser explicado para muitas empresas.
Segundo a fundadora, o mercado brasileiro ainda passa por um processo de educação, o que demanda apresentação de cases, dados e alinhamento de expectativas — já que o formato exige consistência e nem sempre gera resultados imediatos.
“O modelo ganha relevância por unir conteúdo, interação e venda em tempo real, aumentando a confiança do consumidor. É um formato que cria comunidade”, afirma.
O alcance também é um diferencial. Uma única transmissão pode reunir milhares de espectadores.
“Mesmo uma live com 60 pessoas já é relevante em comparação com uma loja física. É um modelo que vai até o cliente, e não o contrário”, diz.
Planos de expansão
A StarLive entra em 2026 com um plano mais estruturado de crescimento. A empresa prevê a abertura de novos espaços em São Paulo, incluindo a região da 25 de Março, e avalia a expansão para outras cidades.
A expansão deve começar pelo interior paulista ainda neste ano e, em seguida, avançar para estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Ceará. “A longo prazo, a ideia é abrir pelo menos uma StarLive em cada capital do Brasil”, diz.
Ainda em 2026, a empresa também planeja dar um passo além no modelo digital e abrir uma frente de vendas físicas no espaço da Vila Madalena. A ideia é permitir que consumidores comprem produtos presencialmente enquanto acompanham as transmissões, transformando o estúdio em uma extensão da experiência online.
Com crescimento marcado por prospecção e expansão de unidade, a expectativa é alcançar, até 2027, R$ 1 bilhão em vendas, somando a operação de afiliados e os contratos com marcas.
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