Elas estudam mais, se formam mais — e ainda ganham menos
Por Rodrigo Dib*
Ao longo da minha trajetória acompanhando jovens que estão entrando no mercado de trabalho, uma constatação sempre me chamou atenção: poucas figuras são tão subestimadas pelas empresas quanto as jovens mulheres brasileiras.
Elas chegam mais preparadas, mais escolarizadas e, muitas vezes, mais maduras para lidar com responsabilidade.
Ainda assim, continuam encontrando um mercado que remunera menos, promove menos e, em muitos casos, exige mais.
Minha conclusão, depois de anos observando essa geração de perto, é simples: o país tem um problema de arquitetura das empresas, que ainda operam com modelos de carreira desenhados para uma realidade que já não existe.
Os dados ajudam a entender essa mudança. Hoje as mulheres representam cerca de 59% das matrículas no ensino superior brasileiro, segundo o Ministério da Educação.
Também são maioria entre ingressantes e concluintes das universidades.
Em outras palavras, o pipeline de formação profissional do país já é majoritariamente feminino.
E essa tendência começa muito antes da universidade.
Dados do IBGE mostram que meninas apresentam uma trajetória educacional mais consistente, com maior permanência na escola e maior presença nos estudos em diferentes fases da vida.
Entre jovens de 18 a 24 anos, por exemplo, 32,6% das mulheres estavam estudando, contra 28,1% dos homens.
Quando olhamos para a população adulta, o padrão se mantém.
Em 2024, a escolaridade média das mulheres brasileiras com 25 anos ou mais chegou a 10,3 anos de estudo, enquanto entre os homens o indicador ficou em 9,9 anos.
O percentual de mulheres com diploma universitário também já supera o masculino.
Isso não significa que meninas tenham melhor desempenho em todas as áreas.
Avaliações internacionais como o PISA, da OCDE, mostram que meninas se destacam em leitura, enquanto os meninos ainda apresentam vantagem em matemática em muitos países, incluindo o Brasil.
Mas o ponto central não está nessa disputa.
O fato é que as mulheres permanecem mais tempo no sistema educacional e chegam cada vez mais qualificadas ao mercado de trabalho. E mesmo assim continuam ganhando menos.
Segundo o Relatório de Transparência Salarial divulgado pelo Ministério do Trabalho em 2025, mulheres que trabalham em empresas brasileiras com mais de 100 empregados recebem, em média, cerca de 21% menos que os homens.
A desigualdade aparece inclusive entre profissionais altamente qualificadas.
Levantamentos do IBGE mostram que, em cargos de direção e gerência, o rendimento médio feminino segue inferior ao masculino.
Em outras palavras: o Brasil conseguiu ampliar o acesso feminino à educação, mas ainda não conseguiu transformar esse avanço em igualdade econômica dentro das empresas.
Parte dessa distância se explica por fatores estruturais.
Um deles é a divisão desigual do trabalho de cuidado.
'Se eu não fizer, ninguém faz'
No Brasil, as mulheres dedicam 21,3 horas semanais a tarefas domésticas e cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas, segundo o IBGE.
Quem lidera equipes ou acompanha jovens profissionais no dia a dia sabe bem o que esses números significam na prática.
Há algum tempo, em uma conversa com uma jovem que participava de um programa de formação profissional, ouvi uma história que nunca esqueci.
Ela tinha 20 anos.
Trabalhava durante o dia, estudava à noite e ainda cuidava do irmão mais novo enquanto a mãe fazia plantões noturnos no hospital.
Durante a jornada do cuidado ao irmão, ainda arrumava tempo para estudar para as provas e organizar a casa.
Quando perguntei como conseguia dar conta de tudo aquilo, ela respondeu com naturalidade: “Se eu não fizer, ninguém faz”.
Essa frase ficou na minha cabeça e representa a realidade de muitas e não apenas daquela menina.
Porque ela revela algo que muitas estatísticas não conseguem mostrar sozinhas: por trás dos números existe uma geração de mulheres que aprendeu muito cedo a lidar com responsabilidade, pressão e resiliência. Não por escolha, mas por necessidade.
Outro fator importante para entender esse paradoxo está na distribuição entre áreas de formação.
Embora sejam maioria nas universidades, as mulheres ainda são minoria em cursos ligados à tecnologia e engenharia — setores que concentram parte significativa dos empregos mais bem remunerados da economia digital.
Segundo o IBGE, as mulheres representavam cerca de 22% dos concluintes em cursos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, e apenas 15% nas formações ligadas à tecnologia da informação.
Geração mais informada e consciente
Isso não é uma questão de capacidade.
É reflexo de escolhas profissionais influenciadas por expectativas culturais que começam muito cedo.
Mas há uma transformação silenciosa acontecendo.
Nas conversas que tenho com jovens em palestras, mentorias e nos encontros que surgem a partir do meu livro “O mundo é seu, mas calma lá!”, vejo cada vez mais meninas que cresceram entendendo algo que gerações anteriores precisaram aprender ao longo da vida: construir carreira exige preparo, consistência e resiliência — mas também exige questionar estruturas que já não fazem mais sentido.
Essa nova geração chega ao mercado mais informada, mais consciente e menos disposta a aceitar certos limites como algo natural.
E isso inevitavelmente pressiona as organizações a mudar.
Se o século passado foi marcado pela luta das mulheres por acesso à educação e ao mercado de trabalho, o desafio do nosso tempo parece ser: transformar qualificação em igualdade real de oportunidades dentro das empresas.
E isso também é uma questão econômica.
Quando um país forma milhões de mulheres qualificadas, mas não consegue aproveitar plenamente esse talento, ele não perde apenas em justiça. Perde em produtividade, inovação e crescimento.
Durante décadas discutimos como levar mais mulheres à universidade.
Hoje o Brasil precisa discutir algo ainda mais importante: como modernizar o mercado de trabalho para que ele esteja à altura da geração feminina mais preparada da nossa história.
* Rodrigo Dib é especialista em carreira, mercado de trabalho e educação profissional, superintendente do CIEE e autor do livro “O mundo é seu, mas calma lá!”.
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