Elas não fazem “bico”: quem são as nanoempreendedoras no Brasil
Durante muito tempo, elas foram tratadas como trabalhadoras informais, mulheres que “fazem um extra” ou ajudam a complementar a renda da casa. Mas uma nova pesquisa do Consulado da Mulher propõe outro olhar: o nanoempreendedorismo feminino é, na prática, uma engrenagem de sobrevivência econômica, cuidado e sustentação familiar no Brasil.
O estudo, intitulado “Nanoempreendedora em Foco: Identidade, Sobrevivência e o Paradoxo da Autonomia”, ouviu 371 mulheres de todo o país na etapa quantitativa, após uma fase qualitativa com 120 participantes distribuídas por todas as regiões brasileiras. A conclusão é clara: essas mulheres não estão empreendendo por modismo ou vocação romantizada. Estão empreendendo porque, para muitas, esta é a única forma possível de conciliar renda e cuidado.
“Você não faz bico, você não ajuda a renda da família. Você é a renda da família e o seu negócio tem muito valor”, diz Adriana Carvalho, diretora executiva do Consulado da Mulher.
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O que é nanoempreendedorismo
A pesquisa ajuda a dar contorno a um grupo que costuma aparecer diluído dentro das estatísticas mais amplas de microempreendedorismo. Segundo Carvalho, a nanoempreendedora é, em geral, uma mulher que trabalha sozinha, de casa, em um negócio de baixa escala, com pouco capital e muitas vezes fora da formalização.
Na legislação recente, o nanoempreendedor foi associado a negócios com faturamento de até R$ 40 mil por ano. Mas, na prática, o conceito envolve mais do que receita: inclui vulnerabilidade social, baixa margem financeira e sobrecarga doméstica.
“Ela normalmente empreende em casa, cerca de 80% empreendem sozinha e normalmente está na informalidade, porque está num faturamento muito baixo. Pagar o MEI faz diferença na conta dela”, afirma Carvalho.
A própria pesquisa reforça esse retrato. Quase metade das entrevistadas, 47,7%, ainda está na informalidade, enquanto 44,2% estão formalizadas e 8,1% têm CNPJ, mas com pendências. Entre as razões para não formalizar, aparecem principalmente a falta de dinheiro para arcar com os custos e a insegurança sobre a continuidade do negócio.
Entre os setores que mais possuem nanoempreendedoras estão alimentação e costura, aponta o estudo (Yoss Sabalet/Getty Images)
Um retrato de mulheres negras, mães e sobrecarregadas
O perfil das nanoempreendedoras brasileiras é marcado pela sobreposição entre trabalho produtivo e trabalho de cuidado. Segundo a pesquisa, 61% têm entre 30 e 49 anos, faixa etária identificada como a da chamada “geração sanduíche”, em que muitas mulheres cuidam ao mesmo tempo de filhos e de pais idosos. Além disso, 71% se autodeclaram negras e 85% têm filhos.
A maternidade, aliás, não aparece como um detalhe, mas como uma peça central da equação. Mais da metade das entrevistadas têm filhos em idade escolar ou pré-escolar, e 29% têm três filhos ou mais.
A sobrecarga é um dos principais achados do levantamento. Quase 7 em cada 10 mulheres são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico. Ao mesmo tempo, 62,27% dedicam mais de cinco horas por dia ao negócio, e 37% gastam mais de cinco horas diárias com o trabalho de cuidado. Na prática, isso significa jornadas combinadas de 10 a 12 horas diárias de trabalho ativo.
“O negócio, portanto, não é apenas uma fonte de renda. É também uma estratégia para tornar a rotina administrável em um país onde creches, escolas em período integral e políticas de apoio ao cuidado ainda são insuficientes”, afirma Carvalho.
Empreender por necessidade, não por oportunidade
O dado mais emblemático da pesquisa talvez seja este: 75% começaram a empreender por necessidade, seja para complementar a renda familiar, enfrentar o desemprego ou cuidar dos filhos e familiares. Além disso, 49% têm no próprio negócio a principal fonte de sustento da casa.
A renda das nanoempreendedoras também é baixa: 83% vivem com renda familiar de até três salários-mínimos e 78% faturam até R$ 3 mil por mês. O estudo ainda chama atenção para um ponto importante: faturamento não é lucro.
“Como as finanças da casa e do negócio frequentemente se misturam, muitas mulheres têm dificuldade de calcular quanto realmente ganham depois dos custos operacionais”, afirma Carvalho.
Ao contrário do estereótipo de improviso, essas empreendedoras demonstram resiliência. 78% estão no negócio há mais de três anos, 41,5% há mais de seis anos e cerca de 20% já passaram da marca de uma década.
“Não são aventureiras. essas mulheres sustentam famílias”, diz a executiva.
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Escolaridade alta, renda baixa
Outro dado relevante do estudo é o paradoxo entre qualificação e remuneração. A pesquisa mostra que 40% das respondentes têm ensino superior completo ou pós-graduação, embora metade da amostra ainda esteja concentrada na educação básica.
O dado desmonta a ideia de que esse empreendedorismo decorre apenas de baixa escolaridade. Em muitos casos, trata-se de mulheres com formação que não encontram, no mercado formal, empregos compatíveis com a necessidade de flexibilidade imposta pela rotina de cuidado.
“Os anos de estudo não naturalmente se traduzem em mais renda”, diz Carvalho. “Não é porque eu estou com mais educação que vou conseguir destravar essa renda, porque continuo precisando conciliar trabalho e cuidado.”
A pesquisa mostra que 40% das nanoempreendedoras respondentes têm ensino superior completo ou pós-graduação (Marco VDM/Getty Images)
Por que tantas não querem voltar ao regime CLT
Mesmo com jornadas exaustivas, 6 em cada 10 mulheres nunca ou raramente pensam em voltar para a CLT. O dado ajuda a entender uma mudança importante no debate sobre trabalho no Brasil: a rejeição ao emprego formal não nasce necessariamente de um espírito empreendedor clássico, mas da incompatibilidade entre o modelo tradicional de trabalho e a vida real dessas mulheres.
“Quando você pensa num CLT, não é só as oito horas por dia. É o ir e voltar do trabalho, a falta de escola integral, a falta de rede para cuidar de filhos ou idosos”, afirma Carvalho.
Nesse contexto, a flexibilidade do negócio próprio aparece menos como privilégio e mais como condição de sobrevivência.
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Alimentação lidera e o corpo paga a conta
Mais da metade das nanoempreendedoras, 51,21%, atua no setor de alimentação. Quando se somam alimentação, manufatura, artesanato e costura, chega-se a 70% da amostra concentrada em atividades físicas, manuais e de baixa barreira de entrada, geralmente realizadas dentro de casa.
Principais setores das nanoempreendedoras:
🍲 Alimentação: 51,2%É o principal segmento disparado. Inclui marmitas, bolos, doces, salgados e refeições sob encomenda.
🧵 Artesanato, costura e manufatura: cerca de 20%Produção de peças manuais, roupas, itens personalizados e pequenos produtos.
💄 Beleza e estética: cerca de 12%Serviços como cabelo, unhas, maquiagem e cuidados pessoais.
👗 Moda (revenda e produção): cerca de 10%Venda de roupas, acessórios e itens de vestuário.
🧹 Outros serviçosPequenos serviços diversos realizados de forma autônoma.
Esse perfil ajuda a explicar outro achado importante da pesquisa: o adoecimento físico. 46% das empreendedoras convivem com dores crônicas ou limitações físicas, e as queixas mais comuns estão em coluna/pescoço, pernas/pés e braços/mãos. Somadas, essas dores atingem 61% das entrevistadas.
Além disso, 59% convivem com desafios de saúde mental na gestão do negócio, e 44% desenvolveram problemas como ansiedade, depressão ou estresse intenso somente depois de começar a empreender.
A fé e as redes como apoio - e também como mercado
Um dado pouco usual em pesquisas sobre trabalho chama atenção: 92% afirmam que a fé é fundamental para enfrentar as dificuldades do empreendedorismo, e 55% dizem que igreja, templo ou centro religioso são espaços importantes de relacionamento e apoio. Para 53%, esses locais também funcionam como ambiente de divulgação do trabalho.
A rede entre outras mulheres também se mostra decisiva: 71% reconhecem impacto profundo e direto da conexão com outras empreendedoras na rotina e nos negócios.
Esse ponto ajuda a explicar o papel dos programas de apoio. Segundo a pesquisa:
Uma das participantes resume assim o efeito da formação.
“O ponto mais impactante na minha formação foi me enxergar nas dificuldades de outras mulheres, entender que não sou incompetente e sim sobrecarregada.”
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Um debate de carreira que também é de política pública
Embora trate de empreendedorismo, a pesquisa dialoga diretamente com temas centrais da agenda de carreira: flexibilidade, desigualdade de gênero, formalização, saúde mental, infraestrutura de cuidado e acesso a renda.
Para Carvalho, o avanço da legislação sobre nanoempreendedorismo é um passo importante, mas ainda insuficiente. O desafio agora é transformar esse retrato em política pública mais aderente à realidade dessas mulheres.
“A gente tem que pensar em políticas públicas para esse segmento das nanoempreendedoras”, diz. “Fico feliz que exista uma legislação em implementação, mas espero que a gente consiga entender bem esse perfil para criar soluções que atendam essas mulheres.”
Adriana Carvalho, diretora executiva do Consulado da Mulher: “A gente tem que pensar em políticas públicas para esse segmento das nanoempreendedoras” (Consulado da Mulher/Divulgação)
Sobre o Consulado da Mulher
O Consulado da Mulher é uma organização social criada em 2002 pela Whirlpool, dona da Brastemp e da Consul, com o objetivo de promover a autonomia financeira, emocional e de conhecimento de mulheres em situação de vulnerabilidade por meio do empreendedorismo. A iniciativa atua principalmente com nanoempreendedoras, oferecendo capacitação, mentoria, equipamentos e apoio financeiro para impulsionar seus negócios.
Ao longo de mais de duas décadas, o Consulado já alcançou mais de 43 mil mulheres em mais de 350 municípios brasileiros, com uma média de cerca de 1.700 beneficiadas por ano nos últimos ciclos. Seu impacto vai além da geração de renda: os programas contribuem para o aumento da autoconfiança, organização financeira e desenvolvimento dos negócios, além de fortalecer redes de apoio entre as participantes, um fator considerado essencial para a sustentabilidade dessas empreendedoras.
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