Ele encontrou um mercado de R$ 1,1 trilhão e aposta na IA para dominá-lo

Por Guilherme Gonçalves 10 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ele encontrou um mercado de R$ 1,1 trilhão e aposta na IA para dominá-lo

Planilhas, sistemas diferentes e horas de conferência manual. Assim ainda funciona boa parte das áreas financeiras das empresas brasileiras — uma combinação desgastante e pouco eficiente para gerenciar operações que movimentam trilhões de reais por ano.

Diante desse cenário, o empresário Guilherme Pessoa enxergou uma oportunidade. Natural de Pernambuco, mudou-se para São Paulo na adolescência e formou-se em ciências da computação. Hoje, é CEO da Dattos, empresa de tecnologia que ele criou para automatizar processos financeiros, contábeis e fiscais.

Pessoa acredita que a inteligência artificial pode mudar a forma como grandes companhias lidam com seus dados.

Criada para resolver um desafio que nasceu dentro de bancos, a Dattos hoje atende grandes empresas e quer avançar sobre um mercado que soma cerca de R$ 1,1 trilhão em faturamento entre seus clientes.

A plataforma conecta informações espalhadas por diferentes sistemas, identifica divergências e automatiza tarefas que antes dependiam de equipes inteiras fazendo conferências e análises manuais.

Hoje, a companhia processa mais de 30 bilhões de dados por mês, tem mais de 1.000 CNPJs na carteira de clientes, atua em mais de 25 países e reúne clientes dos setores de indústria, varejo e instituições financeiras.

Em 2025, a empresa cresceu 43%, depois de avançar 40% no ano anterior. A Dattos encerrou o último ano com faturamento de R$ 30 milhões e projeta chegar a R$ 150 milhões de receita em três anos.

“A gente percebeu que o nosso propósito, que é empoderar o financista para ele se tornar mais estratégico, seria acelerado pela inteligência artificial”, afirma Pessoa.

Como surgiu a Dattos

A história da Dattos começou antes da onda de inteligência artificial e antes mesmo do termo startup se popularizar no Brasil.

O CEO da Dattos passou toda a sua carreira trabalhando próximo do mercado financeiro e de tecnologia. Atuou em empresas que prestavam serviços para bancos e também passou por instituições como o JPMorgan e a B3.

A vontade de empreender veio cedo. O primeiro passo aconteceu quando recebeu uma oportunidade inesperada: criar um software para uma instituição financeira em seis meses. O desafio era grande — ele tinha uma equipe pequena e precisava entregar uma solução com o nível de robustez exigido por um banco.

O projeto funcionou e abriu caminho para uma empresa de desenvolvimento de software voltada ao setor financeiro. Entre os primeiros clientes estava o banco Carrefour.

Foi nesse período que Pessoa percebeu uma dor recorrente: grandes instituições tinham dificuldade para garantir que suas informações estavam corretas. A chamada conciliação financeira — processo de conferir se dados de diferentes sistemas batem entre si — parecia simples, mas era um problema complexo para empresas com milhares de transações.

“Você precisa garantir que as suas bases estão corretas. Saber se o que está na conta-corrente está de acordo com o que foi transacionado, por exemplo. O banco tinha várias checagens desse tipo e não existia uma solução que atendesse todas essas áreas”, conta.

A demanda virou produto. Em vez de apenas criar softwares sob encomenda, Pessoa decidiu transformar aquela ferramenta em uma plataforma própria. Nascia a Dattos.

De software para resultado

A empresa cresceu acompanhando uma mudança na forma como grandes companhias passaram a olhar para tecnologia.

No início, a proposta era automatizar processos específicos. Com o tempo, a Dattos ampliou sua atuação para análises financeiras, operações fiscais e outros fluxos críticos dentro das empresas.

A nova fase veio com a inteligência artificial. Desde 2023, a companhia passou a incorporar IA ao produto e agora trabalha para transformar a plataforma em uma espécie de camada inteligente dentro das operações financeiras.

A tecnologia consegue analisar documentos, como notas fiscais e extratos bancários, identificar inconsistências, sugerir conciliações e automatizar fluxos.

Recentemente, a empresa também lançou uma camada de agentes de IA para operações como contas a pagar e tesouraria, com a proposta de executar etapas completas dos processos. O movimento também mudou a forma como a Dattos enxerga seu próprio modelo de negócio.

“A gente parou de vender software e começou a vender resultado”, diz Pessoa.

Na prática, a empresa quer participar mais diretamente da operação dos clientes, compartilhando parte do ganho gerado pela automação.

“Queremos coparticipar da operação. Se a gente não entregar resultado, não tem ganhos substanciais ali dentro desses clientes”, afirma.

Uma disputa global pelo financeiro do futuro

O mercado global de automação financeira foi estimado em US$ 7,3 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 19,5 bilhões em 2032, segundo levantamento da Research and Markets.

A transformação das áreas financeiras não é uma aposta exclusiva da Dattos. Fora do Brasil, empresas de tecnologia também disputam esse mercado criando plataformas para automatizar processos como conciliação, fechamento contábil, contas a pagar e análise de dados.

Um dos exemplos é a americana BlackLine, que desenvolve uma plataforma voltada à automação das operações financeiras de grandes empresas, incluindo processos como reconciliações, fechamento financeiro e gestão de contas a receber. A companhia afirma atender milhares de empresas globalmente com soluções baseadas em automação e inteligência artificial.

Outro nome relevante é a HighRadius, empresa sediada nos Estados Unidos que criou uma plataforma de “finanças autônomas”, usando inteligência artificial para automatizar áreas como contas a receber, tesouraria, fechamento financeiro e contas a pagar.

O futuro do profissional financeiro

Para Pessoa, a expansão da inteligência artificial dentro das empresas levanta uma discussão sobre o futuro das funções tradicionais. Segundo ele, a tecnologia não deve substituir o profissional financeiro, mas mudar o papel dele.

Hoje, equipes dedicam boa parte do tempo a tarefas repetitivas: conferir documentos, cruzar dados e validar informações. A aposta da Dattos é que essas atividades sejam assumidas por sistemas inteligentes, enquanto as pessoas passam a atuar em decisões mais estratégicas.

“As pessoas acabam sendo auxiliares, ajudando e copilotos dos agentes na camada operacional. Isso permite que elas exerçam funções mais estratégicas dentro das empresas”, afirma.

A companhia também criou programas de capacitação para ensinar profissionais financeiros a trabalhar com automação e análise de dados.

A visão de Pessoa é que o profissional financeiro do futuro precisará entender menos de tarefas operacionais e mais de tecnologia, dados e tomada de decisão.

Quais os próximos passos da Dattos

Com 100 funcionários, a Dattos tem hoje uma base de clientes formada por grandes empresas. Entre elas, estão bancos e montadoras de carros.

A companhia mantém atuação em mais de 25 países e vê a América Latina como um dos principais caminhos de expansão. A tese é que outros mercados enfrentam desafios semelhantes ao brasileiro: alto volume de dados, sistemas fragmentados e processos financeiros complexos.

Para os próximos anos, a Dattos pretende crescer ampliando contratos existentes, conquistando novos clientes e avançando internacionalmente.

A aposta é que a combinação entre automação e inteligência artificial transforme uma das áreas mais tradicionais das empresas.

“O financeiro ainda tem muito espaço para evoluir. A nossa visão é ajudar esse profissional a deixar de ser visto como alguém operacional e passar a ser cada vez mais estratégico para o negócio”, afirma Pessoa.

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