Ele saiu da infância sem luz em SC para transformar a engenharia digital

Por Rafael Martini 10 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ele saiu da infância sem luz em SC para transformar a engenharia digital

Antes de falar em transformação digital, Rui Gonçalves viveu a transformação mais básica: a chegada da energia elétrica. Ele nasceu em Barranco Alto, no interior de Ilhota (SC), em uma casa sem luz, sem água encanada e com banheiro do lado de fora. Para ir à escola, atravessava o rio em uma bateira (espécie de bote de madeira. Os tênis iam dentro de um saco plástico para não sujar.

Do outro lado, lavava os pés, calçava a conga e caminhava cerca de três quilômetros. Décadas depois, aquele menino do interior catarinense se tornaria um dos empreendedores mais influentes da tecnologia aplicada à engenharia no Brasil.

Fundada há 36 anos em Florianópolis, a AltoQi soma hoje mais de 67 mil clientes em mais de 15 países, conta com mais de 300 colaboradores — grande parte engenheiros — e recentemente recebeu investimento estratégico da ArcelorMittal por meio do fundo Açolab Ventures. A empresa registrou R$ 80 milhões de faturamento em 2025, crescimento de 30%, e projeta alcançar R$ 110 milhões em receita em 2026.

A comunidade onde Rui cresceu ficou ainda mais isolada quando um canal de drenagem interrompeu o acesso por terra. Até que militares instalaram um acampamento próximo dali. Montaram um hospital de campanha, atenderam os moradores e, principalmente, construíram uma ponte. Rui tinha pouco mais de 10 anos quando viu aquilo acontecer. Um tenente engenheiro explicou que, para fazer uma ponte, era preciso estudar matemática. A frase ficou.

Ele passou a tirar nota 10 na disciplina durante toda a vida escolar. Mas a família enfrentava dificuldades. Os pais venderam as terras — receberam meses depois, já corroídos pela inflação de quase 30% ao mês — e se mudaram para Itajaí. O dinheiro mal deu para comprar um terreno e levantar uma casa simples de madeira. A mãe costurava para sustentar a família. Rui começou a trabalhar aos 13 anos, como office boy e garçom, enquanto estudava em escola pública.

O desempenho escolar e no futebol abriram outra oportunidade. Depois de uma goleada em um campeonato estudantil contra um colégio tradicional da cidade, surgiu a possibilidade de uma bolsa de estudos. A exigência era apresentar um atestado de miserabilidade emitido pela prefeitura. Ele entrou no colégio como bolsista — e como exceção social. “Você não é chamado para as festas, não é convidado para estudar em grupo. O preconceito não é explícito, ele acontece nos olhares”, lembra.

A resposta foi desempenho. Tornou-se um dos melhores alunos da turma. Inclusive em inglês, disciplina que nunca havia estudado formalmente. Sem base, decorava o livro inteiro. Sabia a página, a linha, o conteúdo. Tirou nota 10 sem conseguir conversar no idioma.

Turma do ônibus

O sonho seguia sendo engenharia. Mas, ao prestar vestibular, fez uma escolha pragmática: optou por Ciência da Computação. O curso durava quatro anos, não cinco, e tinha apenas meio período de aula. Precisava trabalhar para se sustentar em Florianópolis. Passou. Foi o único do ônibus da turma que conseguiu vaga.

Dividiu apartamento com seis estudantes. Trabalhou desde o primeiro semestre. Deu aulas de informática em escolas e no SENAC, ensinando inclusive profissionais experientes. Estagiou na antiga TELESC, onde aprofundou o contato com as tecnologias emergentes da microinformática.

No penúltimo semestre, ao ver um colega de engenharia calcular estruturas manualmente, voltou a inquietação da infância. “Não existe um programa para fazer isso?” Existia, mas era caro e inacessível. A alternativa foi criar. Nascia ali o embrião da AltoQi.

A empresa começou longe de qualquer glamour de startup. Funcionava em um apartamento apertado no centro de Florianópolis e, por um período, em um sótão improvisado sobre uma loja de informática, com 1,70 metro de altura, onde os sócios batiam a cabeça ao levantar-se.

Em 1990, Rui formalizou sociedade com dois colegas da universidade: José Carlos Pereira e Ricardo Eberhardt. Pereira entrou por uma razão prática: tinha uma Chevy 500. Mobilidade era essencial para quem vendia tecnologia de porta em porta pelo interior de Santa Catarina.

Ricardo entrou por genialidade. Era considerado o melhor aluno da turma — o “alto QI”. Foi dele a sugestão do nome AltoQi e também o desenvolvimento central do primeiro software da empresa, o ProViga. O plano era simples e arriscado: Rui e Pereira trabalhariam para financiar a empresa, enquanto Ricardo se dedicaria integralmente ao desenvolvimento do software.

Antes mesmo de lançar o ProViga, Rui já vivia da informática. Viajando pelo interior com um vendedor experiente chamado seu Pires, antigo representante de calculadoras Sharp, vendia computadores como solução para problemas específicos.

Rui escutava o cliente, entendia a necessidade e desenvolvia softwares sob medida em poucos dias. Informatizou rádios, lojas de material de construção, videolocadoras e até funerárias.

Em uma delas, criou um sistema para organizar registros de óbitos e controle de cheques pré-datados. Ao testar o sistema, o dono digitou o próprio nome e leu na tela: “óbito não realizado”.

Levantou assustado: “Como é que o computador sabe que eu não morri?” Era esse o nível de compreensão tecnológica do Brasil naquele momento. A AltoQi nasceu nesse ambiente: inflação em dólar, tecnologia vista como algo quase místico, capital escasso e nenhuma previsibilidade econômica.

Apostas pessoais

Para lançar o ProViga nacionalmente, os sócios fizeram apostas pessoais. Rui vendeu o Fusca. Pereira vendeu um telefone, ativo extremamente valorizado na época. Jano d’Araujo Coelho, engenheiro calculista que depois se tornaria sócio, deixou a Eletrosul.

Com o dinheiro, compraram um estande na Fenasoft 1990, em São Paulo, principal feira de tecnologia do país. O ProViga teve boa recepção. A decisão foi abandonar os sistemas sob medida e focar exclusivamente na construção civil. Vieram então novos softwares especializados: Propilar, ProLaje e ProInfra. Cada parte do edifício era calculada separadamente.

Em 1993, a empresa quase acabou. Ricardo Eberhardt morreu de câncer, aos 27 anos. Era o principal desenvolvedor e arquiteto tecnológico da companhia.

Rui decidiu fazer o oposto do que muitos fariam naquele momento. Em vez de reduzir a operação, apostou em um salto tecnológico: integrar todos os softwares em um único sistema. Era o momento em que o Windows se consolidava como plataforma dominante.

Ele escreveu um projeto para o programa Softex 2000 e conseguiu quatro bolsas da Finep e do CNPq. Foram quatro anos de desenvolvimento. O primeiro teste real foi um prédio de quatro pavimentos em Tubarão (SC). O cálculo levou 11 horas em um computador Pentium 100.Era lento. Mas era revolucionário. Quando o sistema ficou pronto, surgiu a discussão sobre o nome. Rui  insistiu que o produto carregasse a memória do amigo.

Nasceu o Eberick, inspirado no apelido e no sobrenome de Ricardo Eberhardt. O “K” foi acrescentado por sugestão de um numerólogo amigo, mantendo a numerologia da marca. Lançado em 1996, o Eberick se tornou um dos softwares de cálculo estrutural em concreto armado mais conhecidos do país — e completa três décadas como referência técnica.

Em 2006, ao investir na construção de um prédio, Rui percebeu algo que mudaria novamente a empresa. A estrutura estava bem calculada. O problema estava no restante. Instalações elétricas, hidráulicas, gás, incêndio e ar-condicionado eram resolvidas diretamente no canteiro, com improvisos e retrabalho. “Isso é uma bagunça”, pensou.

Nascia o Builder, voltado às instalações prediais e já alinhado ao conceito de BIM (Building Information Modeling), que permite construir virtualmente antes de executar fisicamente. Para o menino que queria ser engenheiro depois de ver uma ponte ser construída no interior de Ilhota, a trajetória tomou outro rumo.

Ele não se tornou engenheiro civil. Mas influencia diretamente a engenharia brasileira. “Eu construo pontes até hoje”, costuma dizer. Agora, pontes invisíveis — entre projeto e execução, entre improviso e previsibilidade, entre obra artesanal e industrialização.

Felipe Althoff, CEO da AltoQi

Hoje a AltoQi vive uma nova fase estratégica. A empresa passou a se posicionar como um ecossistema digital da construção civil, integrando toda a cadeia de valor da engenharia. Esse novo ciclo ganhou força a partir de 2020, com a chegada do CEO Felipe Althoff, responsável por estruturar a próxima etapa de crescimento.

Segundo ele, a companhia deixou de focar apenas em ferramentas estruturais e passou a integrar projeto, orçamento, planejamento, compras e gestão da obra em um ambiente digital conectado.

Entre os clientes estão grandes construtoras brasileiras, além de instituições públicas como Exército, Aeronáutica e universidades de engenharia. Nesse contexto surgiu o Visus, plataforma lançada há menos de três anos que já reúne cerca de mil clientes.

“O que entregamos é construção virtual. Tudo o que será executado no canteiro pode — e deve — ser resolvido antes no ambiente digital. Errar no computador é infinitamente mais barato do que errar na obra”, afirma Althoff.

A nova fase inclui também a aproximação com a indústria de materiais. Em dezembro, a ArcelorMittal anunciou investimento estratégico na AltoQi por meio do fundo Açolab Ventures, seu braço de Corporate Venture Capital. A operação fortalece a integração entre modelagem BIM e cadeia industrial. O valor do aporte não foi divulgado.

“Quando o engenheiro especifica no projeto qual aço será utilizado, isso influencia toda a cadeia de suprimentos. O projeto passa a ser o ponto de origem da demanda industrial”, explica o CEO.

Após a pandemia, a empresa concentrou suas operações em uma sede própria em Florianópolis, totalmente reformada com uso das próprias soluções da companhia — uma vitrine prática da proposta de construir virtualmente antes de executar fisicamente. Com mais de 300 colaboradores, a maioria engenheiros, a AltoQi se define como uma empresa de engenharia antes de ser uma empresa de software.

“Não é um código que qualquer startup replica. Existe conhecimento embarcado de engenharia civil. Estamos falando de softwares que fazem prédios de 100 andares ficarem em pé”, diz Althoff.

Apesar do avanço tecnológico, o principal desafio ainda é cultural. A construção civil historicamente investiu pouco em digitalização. “Hoje, 90% do mercado ainda não opera com níveis adequados de eficiência. As margens encolheram, o custo de capital subiu e a complexidade aumentou. A única forma de manter competitividade é por meio de tecnologia.”

Com três décadas de trajetória e um novo posicionamento estratégico, a AltoQi aposta na digitalização como resposta à crise de eficiência do setor.“O futuro da construção passa pela construção virtual. Quem não se posicionar agora corre o risco de se tornar inviável nos próximos anos”, conclui o CEO.

Décadas depois de criar a AltoQi, Rui Gonçalves atua hoje como cofundador e presidente do Conselho da empresa. Graduado em Ciência da Computação pela UFSC e pós-graduado em Gestão Empresarial (EGC-UFSC), tornou-se também uma das lideranças do ecossistema de inovação catarinense.

Foi duas vezes presidente da ACATE, onde idealizou o modelo das Verticais de Negócio, estrutura que se tornou referência nacional. Também liderou a Rede Catarinense de Inovação (Recepeti) e participou da criação do Geração-TEC, programa voltado à formação de profissionais de tecnologia. Hoje dedica-se a fortalecer empreendedorismo, educação e inovação como instrumentos de mobilidade social e desenvolvimento sustentável.

Em outras palavras: continua construindo pontes.

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