Ele transforma frutas amazônicas em ingredientes premium para 'gringos' e vai faturar US$ 14 milhões

Por Guilherme Gonçalves 13 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ele transforma frutas amazônicas em ingredientes premium para 'gringos' e vai faturar US$ 14 milhões

Durante a terceira edição do Bioeconomy Amazon Summit (BAS) 2026 em Belém, no Pará, um homem de terno branco tira um frasco com pó roxo de dentro da maleta e oferece a frequentadores. Após desfilar pelos pavilhões da Estação das Docas, se apresentou para a reportagem da EXAME: Felipe Franzina, paulistano que se aventurou pela Europa antes de criar uma empresa que exporta a cultura amazônica para o mundo.

“Isso aqui é 100% açaí”, disse, antes de explicar como uma fruta amazônica virou ingrediente premium exportado para indústrias de suplementos, cosméticos e alimentos em mais de 30 países.

A cena resume o negócio que Franzina construiu nos últimos anos. Fundada em 2018, a Amazonia Bio Group nasceu para conectar produtores amazônicos à indústria global de ingredientes funcionais. Hoje, a companhia processa frutas como açaí, cupuaçu, acerola, guaraná, banana e camu-camu em formatos como purês, concentrados e pós liofilizados vendidos para empresas da indústria alimentícia, nutracêutica e cosmética.

Em 2025, a empresa faturou mais de US$ 7 milhões — cerca de R$ 35 milhões na cotação atual. Franzina divulga o dado na moeda norte-americana pois seu produto é todo exportado para fora do país. Neste ano, a projeção é dobrar a receita impulsionada pela compra da primeira fábrica própria no Amapá, realizada no ano passado.

“Em 2026 começamos a produzir 100% com uma planta própria. A empresa nasceu para organizar pessoas que não tinham acesso a capital e transformar frutas selvagens em ingredientes premium para o mercado global”, afirma Franzina.

Hoje, o grupo mantém escritório em Portugal e na Bélgica, além da operação industrial no Brasil. Ao todo, emprega 50 funcionários fixos e exporta para mercados como Alemanha, Estados Unidos e outros países europeus.

Como a Amazonia Bio surgiu

Antes de entrar no mercado de bioeconomia, Franzina construiu carreira no setor financeiro. Formado em comércio exterior e economia, ele passou pelo programa de trainee do BV (antigo Banco Votorantim), onde trabalhou na mesa internacional do banco aprendendo sobre captação de recursos no exterior.

Mas a ideia da Amazonia Bio começou a tomar forma ainda antes disso, quando ele morou na Austrália durante um intercâmbio. Lá, organizou brasileiros que não falavam inglês para conseguir trabalhos temporários distribuindo panfletos.

“Foi minha primeira experiência com empreendedorismo social”, afirma.

Mais tarde, durante um mestrado em uma universidade francesa, ele começou a conectar os conhecimentos que acumulava sobre comércio internacional, captação de recursos e cadeias alimentares. O raciocínio era encontrar um produto com demanda global crescente e difícil de ser replicado por outros mercados.

“Eu queria entender quem precisaria de capital barato e o que a China não conseguiria copiar nos próximos 30 anos. Cheguei no açaí”, diz.

O negócio por trás do açaí em pó

A principal aposta tecnológica da empresa foi a liofilização — processo de desidratação que retira a água do alimento sem usar altas temperaturas, preservando sabor e propriedades nutricionais.

Na prática, frutas amazônicas viram pós concentrados utilizados por marcas em produtos como suplementos alimentares, shakes proteicos, cosméticos e produtos clean label.

“O cliente não compra um saborizante artificial de banana. Ele compra banana de verdade, preservando os bioativos da fruta”, afirma Franzina.

O açaí virou um dos principais produtos da companhia. Segundo o executivo, toda a produção atual já está vendida para clientes internacionais. Os ingredientes são utilizados principalmente pela indústria nutracêutica, que busca compostos naturais associados a benefícios funcionais.

A operação funciona como uma cadeia verticalizada. A empresa compra frutas de cooperativas e pequenos produtores, principalmente do Amapá, processa os ingredientes e exporta os produtos acabados para clientes internacionais.

A principal cooperativa parceira da empresa hoje é a Coop Maracá, no Amapá, responsável principalmente pelo fornecimento de açaí e banana.

“A nossa ideia agora é fortalecer sistemas de agrofloresta e agricultura regenerativa. Somos totalmente contra o desmatamento ligado à expansão do açaí”, afirma.

Como a empresa quer crescer

Até 2025, toda a produção da Amazonia Bio era terceirizada, tanto no Brasil quanto no exterior. Isso mudou no ano passado, quando a companhia comprou e reformou uma indústria no Amapá que estava desativada.

A planta tem capacidade para processar 2 milhões de quilos de açaí por ano e pode produzir até 4 mil latas de polpa por dia. Atualmente, a unidade opera com 10 funcionários fixos, número que sobe para 25 durante a época de safra.

“A compra da fábrica nos dá outra capacidade de crescimento”, afirma.

Os escritórios da empresa em Portugal e Bélgica são responsáveis pela gestão logística, financeira, documental e comercial das exportações.

Segundo o executivo, os produtos da companhia já chegaram a 37 países desde a fundação da empresa.

A aposta em produtos prontos para consumo

Além da venda de ingredientes industriais, Franzina também criou uma operação voltada ao consumidor final. A marca Authentic Fruits produz smoothies feitos com frutas brasileiras e vendidos atualmente apenas fora do país, principalmente na Alemanha.

Os produtos têm cinco versões diferentes, cada uma associada a um benefício funcional, como imunidade, digestão ou energia. Segundo a empresa, os smoothies não levam açúcar adicionado, não precisam de refrigeração e têm validade de até dois anos graças à tecnologia de processamento e envase.

“Nosso maior objetivo agora é trazer o máximo possível dessa verticalização para dentro da Amazônia”, afirma Franzina.

A expectativa é que os produtos da Authentic Fruits também cheguem ao Brasil. A empresa negocia a entrada em grandes redes de supermercados e a compra de uma outra fábrica no Nordeste para ter controle próprio da produção desses produtos.

Para Franzina, o crescimento da empresa acompanha uma mudança estrutural no consumo global.

“As pessoas estão cada vez mais preocupadas com o que ingerem. Hoje, acreditar em clean label e longevidade também é um negócio lucrativo”, afirma.

Sobre o BAS 2026

O Bioeconomy Amazon Summit ocorre nesta semana no Parque da Bioeconomia (Porto Futuro 2) e no Armazém 3 da Estação das Docas, em Belém.

O evento é uma realização do BAS Convergence Hub em parceria com o Jornada Amazônia, com a co-realização da Fundação Amazônia Sustentável e do projeto Sustenta e Inova, coordenado pelo Sebrae Pará, com parceria do CIRAD, EMBRAPA e IPAM, e financiamento da União Europeia. E o BAS conta com o patrocínio do Governo do Pará, Fundo Vale, Amabio e Instituto Itaúsa, e é apoiado por ABDI, Amazon Investor Coalition, Athias Soriano Advogados, BID, Carrefour, Cesupa, DIBB, ERM, FIEPA, IPAM Amazônia, Itaipu Binacional, Jundu, KFM, KPTL, Kyvo, MCQ Law, Natura e Viga.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: