Ele venceu a depressão, aprendeu a fazer pizza napolitana com o YouTube e vai faturar R$ 20 milhões
Quando o gaúcho Igor Henrique abriu sua pizzaria, há quatro anos, tinha a meta de vender 10 pizzas por dia. Se fosse atingida, ele e a esposa, Aline, conseguiriam pagar as contas.
O objetivo mudou rápido. Nas primeiras semanas, a pequena pizzaria Grani montada em uma garagem no bairro Rio Branco, em Porto Alegre, já vendia 80 pizzas napolitanas por dia. Hoje, em dias de pico, chega a 640 unidades vendidas, com faturamento diário próximo de R$ 50 mil.
No ano passado, a Grani faturou R$ 7 milhões. Para 2026, a projeção é chegar a R$ 20 milhões, impulsionada pela operação atual, por uma cozinha central construída para abastecer o delivery e pela abertura da Grani Trattoria, novo restaurante italiano em construção no mesmo bairro.
A trajetória até aqui, no entanto, começou longe dos fornos italianos e da massa de longa fermentação.
"Tudo começou em um momento em que eu estava sem rumo, saindo de uma depressão e tentando me reconstruir do zero", lembra o empresário.
Um começo difícil
Aos 24 anos, Igor decidiu empreender pela primeira vez. Com apoio financeiro da sogra, abriu uma loja de presentes e decoração em um shopping de Porto Alegre. A experiência no varejo vinha de uma passagem por uma rede do setor, onde trabalhou por cinco anos. O negócio começou bem, porém cresceu mais rápido do que a estrutura permitia. Vieram novas lojas, problemas de gestão, dificuldade financeira e, no fim de 2017, o fechamento das operações.
“Eu fiquei deprimido dentro de casa. Não sabia mais o que fazer da vida”, lembra Igor.
Sem emprego e sem capital para recomeçar, Igor começou a fazer pão em casa. O ponto de virada veio de um ex-cliente, que lhe deu de presente um fermento natural como presente — o mesmo usado para fazer as pizzas napolitanas, variação do alimento criada na cidade de Nápoles, na Itália.
A ascensão da pizza napolitana no Brasil acompanha um movimento mais amplo de valorização da origem e da técnica na gastronomia. Inspiradas no rigor da Associazione Verace Pizza Napoletana, casas especializadas começaram a ganhar espaço sobretudo em São Paulo a partir da última década, apostando em fermentação longa, bordas altas e ingredientes importados. Nomes como a Bráz Elettrica, a Leggera Pizza Napoletana e a La Braciera ajudaram a popularizar o estilo, que depois se espalhou por outras capitais.
Aulas de pizza napolitana no YouTube
A partir do pão, Igor chegou à pizza. Primeiro, fazia versões tradicionais para a família comer. Depois, descobriu a pizza napolitana assistindo a vídeos no YouTube. Na época, o estilo ainda não era tão difundido em Porto Alegre. Farinha italiana tipo 00 era difícil de encontrar.
"Eu ficava assistindo aos vídeos, testando em casa, errando muito. Cheguei a pedalar mais de uma hora para comprar farinha porque nem tinha em Porto Alegre. Era uma obsessão. Foi isso que mudou a minha vida.”
Quando o produto começou a melhorar, veio a primeira tentativa de venda: pizzas congeladas feitas em casa. Depois, Igor decidiu mandar currículos para pizzarias napolitanas da cidade. Foi contratado e passou quase quatro anos entre a cozinha e a gestão de uma operação do segmento.
Quando Igor ainda vendia presentes e objetos de decoração, seu pai insistia que le deveria vender comida — "algo essencial", segundo ele. A frase voltou a fazer sentido durante a pandemia, quando Igor viu a força da pizza no delivery. Segundo ele, pizza e massa são produtos de boa margem quando há controle de custo e capacidade de agregar valor ao tíquete médio.
De onde veio a coragem para abrir o negócio
Depois do fracasso das lojas, Igor achava que nunca mais abriria um negócio. Quem empurrou a ideia adiante foi a esposa, Aline.
“Sem ela, com certeza eu não teria aberto nada. A coragem maior não foi minha, foi dela”, diz.
Foi ela quem assumiu o risco pelo primeiro ponto: uma garagem pequena, de aluguel barato, onde antes ficava uma Kombi estacionada. O casal tinha menos de R$ 20 mil para começar. Desse montante, Igor afirma que tinha R$ 3,5 mil em sua conta, o restante vinha de Aline e do saldo no cartão de crédito.
O plano era enxuto, com equipamentos usados e comprados de forma parcelada. A Grani abriu em 2022 desta forma. O boca a boca fez o resto.
Igor Henrique e a esposa Aline: casal saiu do zero e projeta faturamento de R$ 20 milhões em 2026 (Grani/Divulgação)
O que começou como uma ocupação para sair da depressão virou uma empresa em expansão. A pizza, segundo Igor, curou também o medo de empreender de novo.
“Eu vivo em busca da minha obsessão. A pizza me tirou do trauma de empreender".
De três garagens a 118 lugares
Desde então, a Grani cresceu ocupando espaços vizinhos e tornou-se uma referência em pizza napolitana em Porto Alegre. Hoje, o negócio tem capacidade para 118 clientes, mas a área construída original ainda é pequena: cerca de 45 metros quadrados, divididos entre cozinha, bar e salão interno. A operação emprega 33 pessoas.
A capacidade aumentou com a compra de fornos melhores. Um dos maiores marcos foi a chegada de um forno de alta tecnologia para pizza napolitana, capaz de atingir 500 ºC e assar de cinco a seis pizzas por vez. Antes, o forno comportava apenas duas. A mudança dobrou a capacidade produtiva e ajudou a destravar o crescimento.
Um dos diferenciais da Grani é o almoço. Desde o início, Igor decidiu abrir a pizzaria também durante o dia, diferente de outros negócios do mesmo segmento, que só funcionam à noite. Pizza costuma ser mais associada ao jantar e ao delivery, mas a necessidade de faturar mais fez o casal insistir no horário.
"Hoje, a Grani vende, em média, 160 pizzas por dia no almoço. Em sextas, sábados e domingos, o número passa de 200", diz Igor.
Quais os próximos planos
Em 2026, a Grani entra em uma nova fase. Igor está investindo R$ 1 milhão no restaurante Grani Trattoria, que tem previsão de abertura para o final de junho.
O novo espaço terá massas frescas produzidas na casa, extrusora italiana, forno a lenha, diferentes variações de pizzas, insumos importados e bar de coquetéis. A carta de drinques será assinada por Fred Müller, nome conhecido da coquetelaria gaúcha. Com a nova operação, a projeção é chegar a 75 funcionários até o fim de 2026.
Além disso, a empresa está construindo uma cozinha central para abastecer o delivery e as operações com massas, queijos, embutidos e embutidos naturais.
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