Ele virou o 'rei do bolão' com uma lotérica de Fortaleza que já criou 100 milionários
São 13 mil casas lotéricas espalhadas pelo Brasil, e quase todas funcionam do mesmo jeito há décadas: três terminais, um balcão blindado e um cliente que precisa sair de casa, ir até lá e fazer o jogo na unha. O setor mudou pouco nos últimos 20 anos, enquanto o resto do país aprendia a resolver a vida pelo celular.
A Loteria Aldeota, em Fortaleza, resolveu jogar outro jogo.
A operação de Alessandro Montenegro digitalizou as vendas, montou um esquema de bolões por delivery e hoje atende apostador em São Paulo, no Rio, em Minas, no interior do Maranhão — e até gente que mora em Dubai e Nova York. Em 2025, faturou 57 milhões de reais.
A história ganhou audiência nacional no último domingo, quando a Mega-Sena sorteou o concurso especial de 30 anos. A Aldeota vendeu um dos bolões que acertaram as seis dezenas, abocanhou parte dos 336 milhões de reais e fez 100 cotistas milionários de uma vez.
Entre eles, o próprio Montenegro, que tinha comprado uma cota do bolão que ele mesmo vendeu.
"Ninguém se conhece nesse bolão. Nós começamos a campanha no dia 26 de abril e fomos oferecendo aos clientes ao longo das semanas", diz Montenegro. Eram apostadores de Fortaleza, do interior do Ceará e de pelo menos seis estados, cada um com sua fração da aposta guardada no cofre da lotérica, esperando o sorteio.
Agora ele quer transformar a tal sorte recorrente em combustível para crescer mais, num mercado que as apostas online vêm apertando por todos os lados. A casa já distribuiu mais de 155 milhões de reais em prêmios e lidera o ranking nacional de vendas de bolões há mais de seis anos seguidos.
Da escavadeira ao balcão: qual é a história de Alessandro
A Aldeota nasceu em 2005, mas passou quase 15 anos sendo só um negócio de família que não pagava as contas sozinho. Até 2019, o dinheiro de verdade vinha de outro lugar: Montenegro tinha 15 máquinas pesadas — tratores, escavadeiras, caçambas — e tocava obras de estrada Brasil afora.
Naquele ano, pegou um serviço de 14 quilômetros de estrada no sul do Pará, perto da Transamazônica, num fim de mundo onde só pegava WhatsApp. Levou parte dos equipamentos, chamou um sócio e tinha feito uns dois quilômetros quando o céu desabou em chuva.
"O dono disse: é melhor vocês irem embora, porque aqui o inverno é pesado, são três meses para tudo", diz. Montenegro voltou para Fortaleza de mãos vazias, com os equipamentos parados e uma lotérica miúda de três terminais num bairro nobre como único plano B.
Foi ali, meio sem escolha, que ele decidiu apostar tudo no balcão.
A noite dos 22 milhões alheios
A virada veio depressa — e quase do jeito errado. Em fevereiro de 2020, a Mega-Sena acumulou em 200 milhões de reais e a Aldeota vendeu um bolão que acertou tudo, criando 35 milionários. Cada cotista levou cerca de três milhões de reais.
O detalhe é que sete desses ganhadores tinham comprado a cota pelo celular e deixado o bilhete guardado na empresa de Alessandro — clientes de outros estados que Montenegro já atendia à distância. Traduzindo: ele tinha quase 22 milhões de reais em prêmios dos outros trancados no cofre.
Ali, foi uma prova de confiança nos clientes ao próprio Alessandro. Ele guardou, ficou acordado preocupado com os bilhetes, e resolveu. Os ganhadores apareceram, levaram o que era deles e, agradecidos, deixaram presentes que somaram 800 mil reais.
Montenegro não comprou nem uma calça jeans. Enfiou tudo de volta no negócio: notebook, mais motos, telefones, gente, e a loja do vizinho no shopping para dobrar de tamanho.
Aí, semanas depois, a pandemia fechou tudo. Com 35 milionários recém-fabricados, a fama subindo e nenhuma forma de vender no balcão, Montenegro acelerou o modelo que virou a espinha dorsal do negócio: bolão entregue em casa de moto ou guardado no cofre, com nome e CPF do cliente no verso do bilhete — o que o torna intransferível e, na prática, seguro.
"Hoje, 90% da minha empresa eu vendo aqui no celular", diz. A operação começou 2019 com duas pessoas e hoje tem cerca de 100 funcionários, divididos entre o balcão e uma central que só cuida das vendas remotas.
O bolão de alto padrão
O pulo do gato está no tipo de aposta. Enquanto a lotérica comum monta bolão de seis ou sete dezenas, a Aldeota começa em nove e vai até vinte, o teto da Mega-Sena, o que multiplica as chances de quem joga.
O ticket médio mensal gira em torno de 350 reais por cliente e passa de 600 reais em época de Mega da Virada.
Montenegro gosta de comparar o negócio a um restaurante caro: vende um prato que a lotérica do interior não tem no cardápio, sem brigar pelo cliente que aposta 20 reais na esquina.
Mais de 60% da carteira está fora do Ceará — tem prefeito de cidade pequena e gente de fazenda no Maranhão que resolve tudo pelo telefone e às vezes nem vai à cidade.
A confiança virou produto à parte. Ele gravou vídeos pedindo que os clientes ficassem em casa na pandemia, toca um canal no YouTube com 102 mil inscritos e aparece de cara nas próprias propagandas. "O advogado quando resolve o problema fica famoso, o médico quando cura fica famoso, a loteria quando paga prêmio dá um bum", diz.
Quais são os desafios no setor
Todo esse crescimento acontece num momento desafiador para as lotéricas.
As bets, casas de apostas esportivas online, sugam parte do dinheiro do jogador, e a digitalização dos pagamentos esvaziou o fluxo que antes garantia o movimento das casas físicas — do Bolsa Família ao FGTS, hoje tudo cai direto no celular, sem passar pelo balcão.
Montenegro aposta na direção contrária à da concorrência: não esconde o método e ainda faz questão de pregar que mais gente copie o modelo.
"Quanto mais pessoas fizerem o que eu faço, melhor para as loterias Caixa", afirma.
A conta é simples — prêmio maior e mais frequente puxa apostador novo para o sistema inteiro.
Com 78 títulos nacionais em vendas de bolões e uma fila de premiações que engrossou nos últimos meses, entre Mega-Sena, Lotofácil e Dia de Sorte, a Aldeota virou caso de estudo do próprio setor.
Montenegro diz que recebe visita de outras lotéricas no balcão e convite da Caixa para evento atrás de evento. No Ceará, ele resume a filosofia com um ditado da terra: quanto mais cabra, mais cabrito.
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