Eleições dificultarão negociações de tarifas dos EUA, diz CEO da Amcham

Por Rafael Balago 18 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Eleições dificultarão negociações de tarifas dos EUA, diz CEO da Amcham

Embora as tarifas impostas ao Brasil por Donald Trump tenham sido reduzidas, tanto por decisão dele quanto por imposição da Suprema Corte, cerca de 60% das exportações brasileiras aos EUA ainda recebem sobretaxas, segundo cálculo da Amcham (Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos).

As negociações para reduzir as cobranças seguem em andamento, mas terão um obstáculo à frente: as eleições, tanto no Brasil (presidenciais) quanto nos EUA (legislativas, de meio de mandato).

“O período mais fértil para entendimento tende a ser o primeiro semestre. Depois disso, as condições ficam mais desafiadoras”, afirma Abrão Neto, CEO da Amcham, em entrevista à EXAME.

“Fica mais difícil por alguns motivos. A atenção dos governos se volta ainda mais para o campo doméstico. Além disso, a proximidade das eleições torna qualquer tema mais sensível politicamente, o que dificulta acordos. A janela vai se encurtando”, diz.

Veja a seguir a íntegra da conversa:

Um ano após o Liberation Day de Trump, qual o cenário? Há mais chance de avanço ou de redução das tarifas?

Lá no dia 2 de abril, quando o governo americano anunciou as tarifas recíprocas, a primeira onda de medidas dentro dessa estratégia de política comercial, tinha como fundamentação a legislação de emergência econômica (IEEPA), que acabou sendo contestada pela Suprema Corte americana.

Depois da decisão da Suprema Corte, o governo indicou que manteria o foco da sua política comercial, mas buscaria outros instrumentos para chegar ao mesmo resultado, reestruturando aquele arcabouço tarifário. Houve então a aplicação de uma medida “across the board” de 10% para o mundo todo, com base na Seção 122, que tem um fundamento jurídico diferente da legislação de emergência econômica e um nível tarifário mais baixo.

Isso acabou beneficiando as exportações brasileiras, porque reduziu consideravelmente as tarifas para as vendas do Brasil. Mas esse não é o ponto de chegada do que foi anunciado pelo governo americano.

Quais são as perspectivas de novas taxas?

Agora existe uma nova onda em curso, com investigações da Seção 301 — outra fundamentação jurídica. Essas investigações estão em curso. Foram abertas recentemente duas investigações contra vários países: uma sobre excesso de capacidade de produção e outra sobre trabalho forçado, envolvendo cerca de 60 países, incluindo o Brasil.

Existe também uma investigação mais antiga, do ano passado, sobre algumas práticas econômicas e comerciais brasileiras. Tudo isso para dizer que essa reconfiguração dos instrumentos tarifários está em curso nos Estados Unidos. A forma final ainda não foi definida, porque essas investigações ainda precisam ser concluídas.

É um momento de acompanhamento, mas também uma janela para que países interessados, como o Brasil, discutam com o governo americano, busquem entendimento e reforcem o diálogo para chegar à melhor situação comercial possível. Mas ainda há um nível de indefinição muito considerável.

Essas novas tarifas, caso aplicadas, tenderão a ser mais duradouras?

Sim. Os Estados Unidos já fizeram, em inúmeras ocasiões, uso dessa legislação — diferentemente da legislação de emergência econômica — e ela já foi testada do ponto de vista jurídico. Isso significa que medidas aplicadas com base na Seção 301 têm um rigor jurídico maior e podem acompanhar a relação comercial por mais tempo.

Um exemplo disso são as medidas contra a China. Houve uma investigação da Seção 301 no primeiro mandato do Trump, e as medidas aplicadas lá por 2017 ou 2018 perduram até hoje, inclusive foram ampliadas ao longo do tempo. Foram ampliadas no mandato do Trump, depois no mandato de Joe Biden, e seguem sendo a base para várias medidas contra a China.

O que o Brasil poderia oferecer nas negociações para evitar essas tarifas?

O caminho é o diálogo e a negociação diplomática. Não há outro. Os temas já são conhecidos. O lado americano sinalizou interesses como acesso a mercado no Brasil, economia digital e cooperação em minerais críticos.

O que é possível fazer em cada uma dessas áreas depende da negociação entre os governos e do que cada um considera viável e desejável. Mas há espaço para construir uma solução favorável para ambos.

O governo brasileiro — Ministério da Fazenda — e o CBP americano (Customs and Border Protection) anunciaram uma iniciativa conjunta na área de segurança pública, de combate ao crime organizado transnacional, que é um tema prioritário para os Estados Unidos. Então, há espaço para explorar iniciativas conjuntas, e isso ajuda também no desfecho das tarifas.

O senhor comentou no ano passado que o calendário eleitoral poderia atrapalhar esse processo. Já estamos em abril — isso pode dificultar mais se o processo avançar para o segundo semestre?

Com certeza. Fica mais difícil por alguns motivos. O primeiro é que a atenção dos governos se volta ainda mais para o campo doméstico. Há eleição presidencial no Brasil e eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Além disso, a proximidade das eleições torna qualquer tema mais sensível politicamente, o que dificulta acordos.

Isso significa que a janela vai se encurtando. O período mais fértil para entendimento tende a ser o primeiro semestre. Depois disso, as condições ficam mais desafiadoras.

A guerra no Irã impacta essas negociações?

A influência é maior na alocação de tempo e prioridade. Desde o início da guerra, ela captou parte importante da atenção do governo americano. Um exemplo foi o encontro previsto [de Trump] com Xi Jinping, que foi alterado por conta disso. Então, o impacto maior é na agenda e nas prioridades do governo.

Como estão as empresas afetadas pelas tarifas? Elas estão conseguindo diversificar mercados?

Hoje, o cenário é o seguinte: cerca de 45% das exportações brasileiras não têm sobretaxa. Cerca de 15% estão sujeitos às tarifas da Seção 232 (segurança nacional), como aço, alumínio, autopeças, cobre e alguns setores específicos. O restante tem sobretaxa de 10% com base na Seção 122. Ou seja, aproximadamente 45%, 15% e 40%.

As empresas tiveram um alívio importante com a redução das tarifas após a decisão da Suprema Corte e têm expectativa de retomar a intensidade das exportações para os Estados Unidos. Mas o cenário ainda não é definitivo, pois não se sabe o desfecho das novas medidas.

Se olharmos o perfil das exportações brasileiras para os Estados Unidos, mais de 80% são produtos industriais, da indústria de transformação, que o Brasil não exporta tanto para outros mercados. Isso torna muito difícil substituir o mercado americano, que é o maior do mundo e ocupa um lugar único na pauta exportadora brasileira.

A diversificação é uma estratégia que está sendo buscada por vários setores, mas ela não acontece no curto prazo e dificilmente substitui o tamanho do mercado americano.

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