Eles furaram a bolha das bebidas vegetais. Agora, vão passar dos R$ 300 mi surfando onda wellness
O próximo passo da A Tal da Castanha não está no copo, mas na panela. Depois de se tornar uma das marcas que ajudaram a popularizar as bebidas vegetais no Brasil, a empresa criada pelos irmãos Felipe e Rodrigo Carvalho quer ocupar novas prateleiras nos supermercados e nas cozinhas.
A nova aposta faz parte da linha "Cremeria" da marca: o Molho Alfredo, versão vegetal do tradicional molho à base de queijo, e o Condensado de Castanha-de-Caju, pensado para substituir o leite condensado em receitas como brigadeiro, pudim e mousses.
A ideia é levar a mesma lógica do rótulo limpo que fez a marca crescer no leite vegetal para ocasiões de consumo mais amplas.
“Queremos que as pessoas consumam o que elas sempre gostaram, com o sabor e a textura que já têm em mente, mas trazendo leveza e praticidade para o dia a dia”, diz Rodrigo Carvalho, co-CEO da Positive Company, holding dona das marcas A Tal da Castanha, Jungle, Possible, Plant Power e Zaya.
O movimento acontece em um momento de forte expansão. A Positive Company faturou R$ 300 milhões em 2025 e projeta crescer entre 30% e 40% em 2026. Em 2020, ano em que foi criada a joint venture com o Grupo 3corações, a receita era de R$ 20 milhões.
Desde então, o grupo multiplicou de tamanho, ampliou o portfólio e passou a disputar mercados que vão muito além das bebidas vegetais.
A marca A Tal da Castanha ainda responde por cerca de 60% do faturamento. Porém, a frente que mais cresce hoje na empresa é a Jungle, bebida de hidratação funcional, que deve dobrar de tamanho neste ano.
Como a castanha virou o principal insumo de uma empresa milionária
A origem da empresa está no Ceará. A família Carvalho já atuava há décadas no setor de castanha-de-caju, por meio da Amêndoas do Brasil, empresa criada pelo pai dos fundadores.
Em 2014, em uma viagem aos Estados Unidos, a família percebeu o crescimento do leite de amêndoas e fez uma pergunta que mudaria o rumo do negócio: por que não criar uma bebida vegetal brasileira à base de castanha-de-caju?
Felipe Carvalho assumiu o desafio de desenvolver a fórmula. Rodrigo, formado em administração, com passagem pelo Itaú BBA e pelo setor de concessionárias, entrou mais diretamente na operação em 2017 para estruturar a área comercial.
O primeiro produto da A Tal da Castanha chegou ao mercado em 2015 com uma proposta incomum para a época: uma bebida vegetal feita apenas com água e castanha-de-caju. Sem gomas, conservantes, adoçantes artificiais ou aditivos.
“A gente percebeu claramente que existia uma lacuna de empresas sérias e de produtos verdadeiros, que entregassem aquilo que prometiam”, diz Rodrigo. “Resolvemos fazer o primeiro leite vegetal do mundo com dois ingredientes apenas.”
Molho Alfredo de A Tal da Castanha: novo produto marca a expansão da empresa para a cozinha e reforça a estratégia de ir além das bebidas vegetais (Positive Company/Divulgação)
No começo, o público era restrito. Segundo o executivo, entre 95% e 99% dos consumidores compravam por alergia, restrição alimentar ou veganismo. Hoje, esse perfil representa de 5% a 7% da base. O grosso do consumo vem de pessoas que não necessariamente abandonaram o leite tradicional, mas buscam uma rotina mais saudável.
“São pessoas que querem se sentir melhor, que querem ter mais saúde no dia a dia. Não necessariamente um público restrito”, afirma.
A virada de chave
A A Tal da Castanha nasceu incubada dentro da indústria da família, mas ganhou escala a partir de 2020, quando a Positive Brands fechou uma joint venture com o Grupo 3corações. O acordo deu origem à Positive Company e abriu acesso a uma estrutura nacional de distribuição.
A parceria permitiu que os fundadores concentrassem esforços em marketing, inovação, desenvolvimento de produto, estratégia comercial e precificação, enquanto a 3corações apoiava a expansão nos canais de venda.
Hoje, a empresa tem 85 funcionários diretos, concentrados em áreas como marketing, administrativo, pesquisa e desenvolvimento, trade e eventos. Indiretamente, segundo Rodrigo, são cerca de 7 mil pessoas envolvidas na operação, considerando a estrutura de vendas, logística, distribuição e promotores da 3corações.
A produção segue um modelo misto. A Tal da Castanha trabalha com três indústrias parceiras — uma no Paraná e duas em São Paulo — para envase das bebidas vegetais.
O Jungle líquido é produzido por um parceiro na Bahia. Produtos em pó usam a estrutura fabril da 3corações em Natal. Já o condensado é feito na Amêndoas do Brasil, no Ceará.
O consumidor que passou a ler rótulo
O crescimento da empresa acompanha uma mudança de comportamento do consumidor brasileiro. A pandemia acelerou a busca por bem-estar, imunidade, alimentação funcional e produtos percebidos como mais naturais. Mas, segundo Carvalho, a A Tal da Castanha entrou nesse mercado antes de o tema virar tendência.
“A gente estava no lugar certo antes da hora”, diz. “Acabamos sofrendo um pouco por estar antes da hora, mas agora conseguimos aproveitar melhor esse momento.”
A marca também se beneficiou da disposição do consumidor em pagar mais por produtos associados a saúde e qualidade. O preço ainda é uma barreira para parte do público: uma bebida vegetal costuma custar mais do que o dobro do leite de vaca. Mas, para a empresa, a comparação deixou de ser apenas financeira.
“As pessoas acabam não olhando somente para o preço, mas para o valor agregado daquele produto”, afirma Carvalho. “Já que é para pagar algo mais caro, é melhor pagar num produto que realmente entregue aquilo que eu preciso.”
Esse movimento também aparece em outras categorias. No mercado de hidratação, dominado historicamente por marcas tradicionais de isotônicos, a Jungle cresceu com uma proposta de água de coco, eletrólitos e fórmula sem corantes ou conservantes. A marca já é a terceira mais vendida do segmento no Brasil.
Jungle, marca de hidratação funcional da Positive Company: bebida deve dobrar de tamanho neste ano e já aparece entre as principais do segmento no Brasil (Positive Company/Divulgação)
Mais do que leite vegetal
A expansão do portfólio mostra como a Positive Company quer deixar de ser vista apenas como uma empresa de bebidas vegetais. Além de A Tal da Castanha e Jungle, o grupo reúne a Possible, segunda marca de bebidas vegetais da companhia; a Plant Power, de suplementos; e a Zaya, de snacks saudáveis, comprada em um movimento de crescimento inorgânico.
A Possible já tem 8% do mercado brasileiro de bebidas vegetais. Somada à A Tal da Castanha, que tem 42%, a participação do grupo chega a 50% da categoria no país. Entre os concorrentes estão multinacionais como Danone, Nestlé e Coca-Cola, além de marcas também especializadas em bebidas vegetais, como a Naveia e a Nude.
Na Plant Power, a empresa avança em suplementos, proteínas, creatinas, cafés funcionais e shots. Na Zaya, a aposta está em snacks sem glúten, sem leite e com apelo funcional. Uma nova linha de salgadinhos proteicos, com 15 gramas de proteína, deve ser lançada ainda neste ano.
A nova fronteira está fora do Brasil
A internacionalização também começa a ganhar peso. A empresa já exporta para Austrália e Canadá e prepara a chegada a mercados como Suíça, México, Argentina, Chile e Paraguai. Para vender A Tal da Castanha fora do Brasil, a companhia criou a marca PlantCo, com o mesmo produto e identidade visual adaptada.
A Jungle também pode ganhar espaço internacional. Segundo Carvalho, há conversas para levar a marca à Europa e aos Estados Unidos, em meio a uma pressão regulatória maior contra bebidas esportivas com excesso de açúcar, corantes e aditivos.
“O Jungle já nasceu com esse formato, mesmo sem ter nenhuma exigência da indústria”, afirma. “Ele passa a ser um produto desejado em alguns países.”
Para sustentar a expansão, a marca também prepara um rebranding da Jungle, com embalagens mais modernas e pensadas tanto para o mercado brasileiro quanto para o exterior.
A ambição da Positive Company é crescer surfando uma tendência que já deixou de ser nicho.
O leite vegetal abriu a porta. Agora, a empresa quer estar no café da manhã, na sobremesa, no treino, no lanche e na hidratação de quem talvez nunca tenha se definido como vegano, intolerante ou plant-based — apenas como alguém disposto a pagar mais por algo que pareça fazer melhor.
“Uma coisa alimenta a outra”, diz Carvalho. “A gente lança um produto novo, ele ganha tração, o mercado absorve e o próprio mercado pede mais.”
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