Eles saíram da escola e montaram uma construtora. Agora, vão faturar R$ 1,2 bilhão com data centers

Por Guilherme Gonçalves 19 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Eles saíram da escola e montaram uma construtora. Agora, vão faturar R$ 1,2 bilhão com data centers

Quando fundaram a Engemon, em 1990, Marco Alberto Silva e Robson Rocha tinham pouco mais de 20 anos, um curso técnico no currículo e nenhuma tradição empresarial na família. Um era filho de eletricista. O outro, de caminhoneiro. Os dois haviam acabado de sair da Escola Técnica Federal de São Paulo e decidiram abrir uma empresa em vez de seguir o caminho mais comum da época: procurar emprego em uma indústria.

“Hoje é normal alguém sair da faculdade e empreender. Naquele tempo, não era”, diz Silva.

A aposta começou pequena. A dupla fazia instalações elétricas e pequenas reformas para bancos, hospitais e escritórios — obras rápidas, muitas vezes realizadas durante a madrugada ou nos fins de semana, para que os clientes retomassem as atividades na segunda-feira sem interrupções.

Trinta e cinco anos depois, a empresa se transformou em um grupo de engenharia, tecnologia e energia que projeta faturar R$ 1,2 bilhão em 2026, impulsionado principalmente pela explosão do mercado de data centers no Brasil.

A Engemon faturou R$ 400 milhões em 2024 e agora vê uma aceleração puxada por projetos de infraestrutura digital ligados à inteligência artificial. Segundo Silva, cerca de 70% do crescimento recente veio justamente dos data centers, segmento que se tornou o principal motor da companhia.

“Hoje a gente participa de toda a cadeia. Da escolha do terreno até a operação.”

Qual é a origem da Engemon

A origem da Engemon ajuda a explicar o perfil da companhia hoje. Silva conta que teve apenas um emprego formal antes de empreender: trabalhou no Banco Nacional, em São Paulo, onde cuidava da infraestrutura predial. Foi ali que percebeu uma lacuna no mercado.

Na época, grandes empresas tinham dificuldade para contratar serviços menores de reforma e adaptação de espaços. O mercado era dominado por prestadoras grandes demais para pequenas demandas e pouco flexíveis para obras rápidas.

“Fizemos aquilo que ninguém queria fazer”, lembra Silva.

Os primeiros serviços eram bastante operacionais: instalação elétrica, entrada de energia, construção de pequenas salas técnicas e reformas corporativas. Com o avanço da tecnologia nos anos 1990 e 2000, a empresa começou a acompanhar as mudanças do mercado.

Primeiro vieram os projetos de cabeamento estruturado — a infraestrutura física que conecta computadores e redes. Depois, os sistemas de dados. Até que surgiu a oportunidade que mudaria o rumo do negócio.

Como a empresa cresceu com data centers

Segundo Silva, o divisor de águas aconteceu em 2009, quando a Engemon participou da construção do primeiro data center do UOL. Na época, o setor ainda chamava essas estruturas de CPD (Centro de Processamento de Dados), e o mercado brasileiro estava longe do tamanho atual. A inteligência artificial ainda não pressionava demanda por processamento, e o país começava apenas a estruturar sua infraestrutura digital.

Para a Engemon, porém, o projeto abriu uma nova frente.

“Ali a gente percebeu que precisava sair da obra convencional e apostar em projetos mais tecnológicos”, afirma.

A lógica fazia sentido para a empresa. Diferentemente de uma construção tradicional, um data center exige alta especialização técnica, redundância energética, refrigeração constante e operação ininterrupta. Silva costuma comparar esse tipo de obra a uma UTI hospitalar.

“Você não pode parar. Se uma UTI para, vidas estão em risco. Num data center, também existe um impacto gigantesco.”

Depois da UOL, vieram projetos para empresas como Globo.com, Vivo, Equinix e instalações ligadas à Olimpíada do Rio. Um dos casos mais simbólicos, segundo ele, foi o da Globo.com. A estrutura foi construída durante a expansão do BBB na internet, quando o público passou a votar online em vez de apenas por telefone.

A corrida da inteligência artificial

O avanço da inteligência artificial colocou os data centers no centro de uma nova corrida global por infraestrutura. Empresas de tecnologia passaram a demandar estruturas mais robustas, capazes de suportar processamento pesado e alto consumo energético. Esse movimento acelerou o mercado brasileiro — e mudou o patamar dos projetos da Engemon.

Hoje, segundo Silva, a empresa atua desde a análise técnica do terreno até a construção e manutenção das estruturas. A disponibilidade de energia se tornou um dos principais fatores para definir onde um data center pode ser construído.

“Muito antes de ser um negócio imobiliário, é um negócio de energia”, afirma.

O executivo diz que investidores americanos, chineses e europeus frequentemente chegam ao Brasil atraídos pela matriz energética considerada mais limpa e pela percepção de abundância energética. Na prática, porém, a equação é mais complexa.

“Às vezes o cliente quer 100 megawatts e a região só consegue entregar 10 no começo”, afirma.

A demanda crescente por IA também abriu espaço para retrofits — adaptações em estruturas já existentes para suportar novos níveis de processamento e refrigeração.

O efeito pós-pandemia

Outro ponto de virada da empresa veio depois da pandemia. Segundo Silva, o período de paralisação fez a Engemon reorganizar a estrutura interna e transformar áreas menores em unidades independentes de negócio.

Foi desse movimento que ganharam força os braços de energia, tecnologia e operação. Hoje, o grupo é dividido entre quatro frentes principais: Engemon Engenharia, voltada para construção e infraestrutura; Engemon Opservices, focada em operação e manutenção; Engemon IT, responsável pela área de tecnologia; Engemon Energy, dedicada a projetos energéticos e baterias.

A estratégia permitiu ampliar a atuação sem depender apenas da construção civil tradicional.

“A gente desencubou essas empresas dentro da empresa”, diz Silva.

Embora os data centers sejam hoje o principal motor de crescimento, a Engemon tenta manter uma atuação diversificada.

A empresa também trabalha em projetos hospitalares, aeroportos, galpões logísticos e infraestrutura energética. Na área hospitalar, a companhia costuma focar principalmente nas instalações técnicas, consideradas mais complexas.

Nos galpões, o foco está em estruturas com forte componente tecnológico, como sistemas de segurança, automação e logística integrada. Já na divisão de energia, a empresa atua em projetos espalhados pelo Brasil, incluindo sistemas que integram energia solar e baterias para armazenamento.

Atualmente, segundo Silva, o grupo soma mais de 200 obras em andamento considerando os projetos menores de energia, além de cerca de dez grandes projetos simultâneos.

Como a empresa quer crescer ainda mais

Apesar da expansão acelerada, a Engemon diz que nunca recebeu aporte de investidores externos.

“Sempre trabalhamos com capital próprio”, afirma Silva.

Recentemente, o grupo começou a estruturar uma governança mais robusta, com conselho e executivos associados à operação. Os filhos dos fundadores ainda são menores de idade, então uma sucessão familiar ainda não entrou no radar da empresa.

Agora, o desafio é acompanhar o ritmo do mercado sem perder capacidade de execução. Segundo Silva, a demanda atual é tão forte que, se todos os projetos em negociação avançassem ao mesmo tempo, a empresa teria dificuldade operacional para absorver tudo.

“A velocidade de cotação está acelerada”, diz. “A de fechamento ainda está moderada.”

Ainda assim, a percepção dentro da empresa é que o ciclo de expansão dos data centers e da infraestrutura ligada à inteligência artificial está apenas começando no Brasil.

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