Em 2018, greve dos caminhoneiros derrubou Ibovespa e Petrobras caiu 26%
A ameaça de uma nova greve de caminhoneiros voltou a entrar no radar do mercado financeiro brasileiro e já provoca reflexos nos ativos. Nesta terça-feira, 17, o Ibovespa até acompanhou o otimismo externo ao longo do dia, mas perdeu força na reta final e fechou com leve alta de 0,30%, aos 180.409 pontos, após superar os 182 mil pontos na máxima intradiária.
Uma virada que coincidiu com a notícia de articulação de uma paralisação nacional da categoria, o que elevou a cautela dos investidores. O movimento também foi sentido em outros ativos. O dólar desacelerou a queda e terminou o dia em baixa de 0,58%, a R$ 5,199, enquanto a curva de juros passou a subir, refletindo a piora de percepção de risco.
Para agentes do mercado, uma eventual paralisação pode pressionar a inflação, desorganizar cadeias de abastecimento e dificultar a condução da política monetária em um momento já sensível, marcado por decisões de juros no Brasil e no exterior e pela alta do petróleo com a Guerra no Irã, que já dura 19 dias.
Diante da escalada da tensão, o governo anunciou nesta quarta, 18, medidas para tentar evitar a greve, como reforço na fiscalização do frete mínimo e punições mais rígidas para empresas que descumprirem as regras. O receio é de que uma paralisação volte a gerar efeitos em cascata sobre a economia, como já ocorreu em 2018.
Na avaliação de Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos, uma greve como essa tem impacto amplo, já que o movimento não está restrito a um tipo específico de transporte.
"Não tem um setor específico que anunciou essa grave, foram caminhoneiros de um modo geral. Então, no começo, os mais impactados são setores que precisam de giro rápido ou que têm uma cadeia de produção bem delimitada", afirma.
Segundo o operador do mercado de capitais, isso inclui distribuidoras de combustíveis, companhias aéreas e redes de supermercados. Esses setores são seguidos por frigoríficos e empresas do agronegócio.
"Podemos ter problemas em vários setores. Se não chega produto em um lugar, também não sai produto dali para outro. Isso afeta toda a cadeia", diz. Ele pondera, porém, que o efeito tende a ser concentrado no curto prazo. "Greves são problemas muito mais pontuais do que estruturais. Machucam no curto prazo, geram confusão, mas no médio e longo prazo o efeito tende a ser pequeno".
Como a greve dos caminhoneiros de 2018 impactou a Bolsa?
Esse diagnóstico encontra respaldo no que foi observado durante os 10 dias da greve dos caminhoneiros de 2018. Entre 21 e 30 de maio daquele ano, a paralisação dos caminhoneiros interrompeu o transporte de combustíveis, alimentos e insumos em todo o país, provocando desabastecimento e levando o Brasil à beira de um colapso logístico.
O movimento, motivado na época pela forte alta do diesel, superior a 50% em 12 meses, afetou cadeias produtivas inteiras e exigiu a atuação das Forças Armadas para liberação de rodovias e garantia do abastecimento.
No mercado financeiro, o choque foi imediato. Entre o último pregão antes da greve, em 18 de maio, e o encerramento do movimento, em 30 de maio, o Ibovespa acumulou queda de cerca de 7,6%.
Em um dos momentos mais críticos, no dia 28 de maio, o índice despencou 4,49% em um único pregão, pressionado pela piora das expectativas fiscais e pelo tombo das ações da Petrobras, que recuaram mais de 14% naquele dia.
Um levantamento da Elos Ayta, compartilhado com exclusividade à EXAME, detalha como esse estresse se distribuiu entre as empresas listadas e reforça o caráter sistêmico do choque. Considerando o período entre 20 e 30 de maio de 2018, companhias de setores estratégicos lideraram as perdas, com destaque para petróleo, siderurgia e energia elétrica.
As ações da Petrobras registraram as quedas mais acentuadas, com recuos de 26,27%, no caso das ações ordinárias da estatal, a PETR3; e 25,86% nas preferenciais (PETR4), refletindo diretamente a pressão sobre a política de preços de combustíveis.
No setor de siderurgia, os papéis também sofreram fortemente. A Usiminas caiu 22,75%, CSN recuou 16,94% e Gerdau teve perdas de 16,28%, enquanto Metalúrgica Gerdau caiu 14,97%.
Empresas de energia elétrica também figuraram entre as maiores baixas, como a Axia Energia, na época Eletrobras, com quedas de 20,70% e 17,20% em diferentes classes de ações.
O movimento atingiu ainda bancos e grandes companhias de commodities, evidenciando o efeito disseminado da paralisação: Bradesco caiu 10,50%, na classe ordinárias (BBDC3), e 7,37% na preferencial (BBDC4). O Banco do Brasil (BBAS3) recuou 6,47%, enquanto Vale (VALE3) perdeu 7,56% e Suzano (SUZB3) caiu 6,69%.
Outros setores ligados à atividade doméstica também foram impactados. A Cyrela recuou 8,67%, Qualicorp caiu 8,50% e Ultrapar teve baixa de 8,39%. Além desse setor, empresas com exposição indireta à logística sentiram os efeitos, como Motiva, do setor de concessões rodoviárias, com queda de 9,73%.
Os dados mostram que, embora a paralisação tenha origem em um segmento específico, seus efeitos se espalharam rapidamente por toda a economia, atingindo desde empresas intensivas em logística até grandes exportadoras e instituições financeiras.
Dez grandes empresas perderam mais de R$ 1 bilhão
Do ponto de vista operacional, os impactos também foram relevantes, embora secundários em relação à reação imediata do mercado. Levantamento citado à época pelo jornal Gazeta do Povo indicou que 68% das empresas do índice reportaram efeitos em seus balanços, com perdas concentradas principalmente em distribuidoras de combustíveis e frigoríficos.
Ao todo, segundo a publicação, 10 companhias do Ibovespa somaram R$ 1,187 bilhão de perdas com a paralisação dos caminhoneiros em 2018. Ainda assim, a maior parte conseguiu compensar os prejuízos nos meses seguintes, reforçando o caráter transitório do choque, como apontaram em seus balanços.
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