Em ano de Copa do Mundo, Canadá entra em recessão técnica
O Canadá receberá neste ano a Copa do Mundo da Fifa, juntamente com os Estados Unidos e o México. Em meio ao megaevento, no entanto, o país vive uma recessão econômica, com retração de 0,1% no Produto Interno Bruto (PIB) em base anualizada durante o primeiro trimestre de 2026, após queda revisada de 1% no trimestre anterior.
Os dados foram divulgados pelo Statistics Canada, a agência nacional que compila dados estatísticos macroeconômicos e demográficos, nesta sexta-feira, 29. Como este é o segundo trimestre consecutivo de queda anualizada, especialistas consideraram o fenômeno uma recessão técnica.
Vale notar, no entanto, que em base trimestral — outra forma de medir a variação do PIB, que compara o trimestre atual com o imediatamente anterior — o resultado foi estável, com crescimento de 0%. Isso significa que a economia canadense escapou por pouco de uma recessão técnica segundo esse critério.
No entanto, analistas consultados pela agência Reuters e pelo Banco do Canadá haviam projetado crescimento anualizado de 1,5% no período, o que não foi concretizado.
O Canadá tem atualmente o 16º maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo, de acordo com relatório de 2023 divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O país já chegou a liderar o ranking por diversos anos nas décadas de 1990 e 2000, mas foi superado por países europeus nas últimas duas décadas.
Por que o PIB canadense diminui
O principal fator de pressão sobre o PIB no primeiro trimestre foi o aumento das importações, que cresceram 2,9% no período. Cerca de metade desse crescimento foi puxado por produtos intermediários de metal e sucata metálica, ambos impulsionados pela importação de ouro.
Excluindo essas duas categorias, as importações cresceram em ritmo mais moderado, de 1,2%, lideradas por automóveis e caminhões leves e equipamentos industriais, segundo o Statistics Canada.
As exportações, por outro lado, recuaram 0,1% no primeiro trimestre, após alta de 1,6% no quarto trimestre de 2025. A queda foi puxada pela redução nas exportações de automóveis e caminhões leves, afetadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Parte da perda foi compensada pelo aumento nas exportações de petróleo bruto, betume e gás natural.
Além dos fatores de balança comercial, o investimento empresarial caiu 0,7% no país, quinta trimestral queda consecutiva. Isso ocorreu principalmente por um recuo de 4,6% em estruturas de engenharia.
O investimento do governo também recuou 2,5%, em grande parte por causa da desaceleração nos gastos com sistemas de armamentos em relação ao alto nível registrado no fim de 2025. O investimento residencial caiu 2%, com destaque para a baixa nas compras e vendas de imóveis "usados", que encolheram 9,9% no trimestre.
A economia canadense tem resistido aos impactos das tarifas comerciais por mais de um ano, mas os efeitos secundários das medidas já se fazem sentir no investimento, nas contratações, nos gastos e nos preços, segundo a CBC.
Aumento no desemprego
O mercado de trabalho também dá sinais de recessão. Em abril de 2026, a taxa de desemprego subiu 0,2 ponto percentual, chegando a 6,9%, segundo dados do Statistics Canada. O número de pessoas em busca de emprego cresceu 51 mil no mês.
A disponibilidade de postos emprego variou pouco em abril (-18 mil, ou -0,1%), mas nos primeiros quatro meses de 2026 o país acumula perda líquida de 112 mil postos de trabalho (-0,5%), concentrada em empregos de tempo integral, que caíram 111 mil no período.
O desemprego juvenil, entre pessoas de 15 a 24 anos, subiu 0,5 ponto percentual, chegando a 14,3% em abril, bem acima da média pré-pandemia de 10,8%. Entre homens em idade economicamente ativa (25 a 54 anos), a taxa subiu 0,3 ponto percentual, para 6,1%.
A proporção de desempregados que buscam trabalho há 27 semanas ou mais, considerado desemprego de longa duração, foi de 22,5% em abril, significativamente acima da média pré-pandemia de 17,1% registrada entre 2017 e 2019.
Inflação, apesar de estagnação econômica
Apesar do desempenho fraco da economia, os preços continuam subindo. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) canadense avançou 2,8% em base anual em abril, aceleração frente aos 2,4% registrados em março, segundo dados do Statistics Canada divulgados em maio.
O principal fator de alta foi a energia: os preços de gasolina dispararam 28,6% em termos anuais em abril, após alta de 5,9% em março.
A aceleração foi parcialmente explicada por um efeito de base. A remoção da taxa de carbono para consumidores em abril de 2025 havia causado queda nos preços naquele mês, o que agora pressiona para cima a comparação anual.
A isso se somaram incertezas de oferta ligadas ao conflito no Oriente Médio e a troca para o combustível de verão, mais caro. Combustíveis derivados de petróleo também subiram 41,3% em base anual.
Excluindo a gasolina, o CPI subiu 2,0% em abril, ritmo mais moderado que os 2,2% de março. A taxa de poupança das famílias caiu para 3,5% no primeiro trimestre, o menor nível desde o primeiro trimestre de 2024, à medida que o consumo cresceu mais rapidamente do que a renda disponível, segundo o Statistics Canada.
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