Em BH, um dia para reunir gigantes mineiras, falar do futuro da IA e celebrar negócios em expansão

Por Daniel Giussani 18 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Em BH, um dia para reunir gigantes mineiras, falar do futuro da IA e celebrar negócios em expansão

Todo dia, Minas Gerais abre cerca de 1,4 mil empresas. É o segundo estado que mais formaliza negócios no país, atrás só de São Paulo, segundo levantamento do Sebrae Minas com dados da Receita Federal. Só em Belo Horizonte foram 31.362 aberturas em 2025, conforme a Junta Comercial do estado.

Parte desse número some nos primeiros anos. Outra resiste, cresce e, de quando em quando, vira gigante.

Foi assim com a Localiza, que começou com seis fuscas e hoje roda com 650 mil carros. Com a MRV, que partiu de uma construtora de obras populares e virou a maior incorporadora do país em volume. Com a Hotmart, que transformou criador de conteúdo em dono de negócio. E com nomes que viraram rotina na casa do mineiro, como Supermercados BH e Drogaria Araujo.

Minas não só cria gigantes — mantém um caldo fervendo de empresas que podem ser as próximas.

Reunir esses dois mundos no mesmo salão, os que já chegaram lá e os que estão a caminho, e colocar todos para conversar sobre o assunto que aparece em dez de cada dez rodas de empreendedorismo hoje — a inteligência artificial — foi a missão do Road Show Negócios em Expansão em Belo Horizonte, etapa do ranking Negócios em Expansão, o maior anuário de empreendedorismo do país.

O evento foi a primeira edição do road show na capital mineira. O ranking Negócios em Expansão é uma realização da Exame em parceria com o BTG Pactual Empresas, e a etapa de BH teve patrocínio também do CDL Belo Horizonte, com apoio da vinícola mineira Alma Gerais.

No palco, o diretor de redação da Exame, Lucas Amorim, lembrou que a premiação começou reconhecendo empresas que faturavam de 2 a 150 milhões de reais e foi subindo a régua à medida que as próprias empresas cresciam — hoje a faixa se aproxima do bilhão. E Minas Gerais sempre foi um estado referência no anuário.

"Só 2% dos agentes de IA geram valor", e por que isso importa

Quem abriu a tarde foi Erik Nybo, cofundador da Bits, numa masterclass sobre como colocar inteligência artificial dentro do negócio.

Ele começou com uma provocação à plateia: quase todo mundo usa IA, poucos conseguiram implementar de fato na empresa. A diferença, diz, não está na ferramenta, e sim no que vem antes dela.

O erro mais comum, na visão dele, é tentar encaixar a IA nos processos antigos. "Aquele processo que você desenhou para correr do ponto A, B, C, D, agora com IA pula do A até o E direto", afirma. Para Nybo, adotar a tecnologia exige redesenhar fluxos, estrutura e, às vezes, o próprio produto — e quem não faz esse trabalho de base acaba gastando mais tempo corrigindo o que a IA errou do que ganharia de produtividade.

Ele citou um relatório de uma grande empresa de software que teria criado dezenas de milhares de agentes de IA internos e concluído que apenas 2% deles geram valor real. A lição que tira do caso: identificar onde a tecnologia realmente entrega resultado, investir nesses pontos e medir o retorno, em vez de adotar IA por moda.

Também alertou para a governança — quem é dono dos dados, o que pode ou não ser inserido na ferramenta, por quanto tempo a informação fica armazenada. "A IA é como a gente, todo mundo tem acesso. Agora, só você tem os dados que você tem", diz.

O conceito que ele defendeu como ponto de partida tem nome técnico: fonte única da verdade, em inglês single source of truth — uma base organizada com as informações, o histórico e o tom de voz da empresa, da qual a IA puxa respostas sem precisar reler tudo a cada consulta.

Foi o caminho, segundo ele, que a Unilever usou para manter consistência de marca entre produtos e embalagens muito diferentes. E reforçou um princípio que voltaria em outros painéis: o humano precisa continuar na equação, validando, definindo regras e respondendo pelos erros.

Quando a conversa vira o balcão da loja

Se a masterclass tratou de como organizar a IA, o painel seguinte mostrou onde ela já está mudando o jogo: na relação com o cliente. No palco, dois nomes de peso do ecossistema mineiro de tecnologia, João Pedro Resende, cofundador e CEO da Hotmart, e Roberto Oliveira, cofundador e CEO da Blip, conversando com o sócio do BTG Pactual Gabriel Motomura.

JP Resende defendeu que o próximo ciclo de grandes marcas vai nascer de criadores de conteúdo, e não de engenheiros ou financistas. O motivo é que os criadores deixaram de viver só de publicidade e passaram a vender produtos próprios, combinando, cada vez mais, conteúdo educativo com agentes de IA que ajudam o cliente a executar o que foi ensinado.

"Toda profissão tem tarefas que são automatizáveis ou delegáveis para um agente de IA em alguma medida", diz. A facilidade de produção, porém, tem efeito colateral: uma enxurrada de conteúdo e software de baixa qualidade, o que ele resume com a expressão slop — lixo digital produzido em série.

Roberto Oliveira, da Blip, contou que a empresa apostou em 2014 na ideia de que o WhatsApp se tornaria uma plataforma aberta de comércio, porque o comércio sempre foi baseado em conversa. Sua orientação aos empreendedores é não focar na tecnologia, e sim no resultado.

"O maior erro é exatamente estar mais preocupado com a tecnologia do que com o resultado", afirma.

Ele defende um modelo híbrido, em que pessoas e automações convivem no mesmo canal, e aponta o que considera o limite real da automação: a experiência do usuário. Quando o cliente fica preso num loop automático sem resolver o problema, diz, é hora de passar para um humano.

A receita prática que ele deixou foi simples. "A bala de prata é começar", afirma, defendendo que a empresa coloque gente para atender no canal digital, aprenda com isso e só então vá automatizando o que faz sentido.

A briga pela atenção e o empresário que vira creator

O dia também passou pela vitrine. Numa palestra sobre marca pessoal, Leo Cirino, CMO da EXAME sustentou que ignorar redes sociais hoje é como, décadas atrás, recusar uma reportagem de capa de revista por timidez: uma chance gratuita de visibilidade jogada fora.

Segundo as plataformas, lembrou, o Brasil tem cerca de 20 milhões de criadores de conteúdo, perto de 10% da população.

O ponto central foi que o empresário não precisa amar TikTok para usá-lo a favor do negócio — pode aprender ou contratar quem já domina a linguagem. E que conteúdo que vende é aquele que ensina ou gera conexão, não o que lista atributos de produto.

O caso citado foi o de uma franqueada da Arezzo que, encalhada com estoque durante a greve dos caminhoneiros, começou a divulgar os produtos no próprio Instagram, então com poucas centenas de seguidores, e vendeu tudo.

Para fechar, a estrategista digital Gabi Salles trouxe o lado da execução. Ela contou que veio de 14 anos na área de tecnologia antes de migrar para o mercado digital, onde diz ter ajudado a gerar receitas próximas de 180 milhões de reais para os projetos que acompanhou. Sua tese é que internet é número: tudo no digital é mensurável, do tráfego do site ao desempenho de cada post, e por isso a produção de conteúdo deveria ser tratada como estratégia, com pesquisa de público e uma "esteira" de produtos pensada do primeiro contato à fidelização.

Potências mineiras: ambição, cultura de dono e a aposta na contramão

O painel mais aguardado juntou três trajetórias mineiras: Mônica Hauck, CEO da Solides; Rodrigo Tavares, CFO da Localiza; e Raphael Lafetá, executivo da MRV. O fio condutor foi a relação entre ambição, fracasso e visão de longo prazo.

Hauck contou que quebrou a primeira empresa por ter sido, nas palavras dela, arrogante e não ter ouvido o sócio — que também é seu marido. Tentava crescer rápido demais e tomou uma decisão de produto que a deixou sem dinheiro e sem produto no meio do caminho. Quando recomeçou, manteve a visão e ajustou a execução. "A ambição veio depois de dar tudo errado", diz. Hoje a Solides, segundo ela, passou de 50 mil clientes.

Tavares amarrou a história da Localiza à cultura mineira de "falar pouco, fazer muito". Resumiu meio século da empresa numa conta: foram 20 anos para chegar a 5 mil carros, e depois a frota multiplicou por cinco a cada década até os 650 mil atuais.

O conceito que ele usou para explicar o equilíbrio entre sonho e disciplina é uma frase atribuída a um dos fundadores: "farol alto, farol baixo" — enxergar longe sem perder o foco na execução do dia a dia. Para ele, a maior vantagem que a empresa ganhou com o tempo foi poder errar um pouco mais, por causa da solidez financeira que os fundadores não tinham no começo.

Lafetá, da MRV, falou da transição entre empreender e ser executivo, e defendeu que a vontade de fazer acontecer independe da cadeira que se ocupa.

Sobre o setor de construção, lembrou que o ciclo do produto é longo — compra-se um terreno hoje para entregar a chave cinco anos depois —, o que exige eficiência operacional apertada e visão de décadas. Sobre o cenário de 2026, com Copa do Mundo, eleições e juro alto, foi direto: os problemas que atingem todo mundo o preocupam menos do que os que afetam só a sua empresa, como o atendimento ao cliente.

"A eleição não deveria parar o Brasil, mesmo porque não é uma monarquia. Nós não vamos eleger um rei", afirma.

Foi Hauck quem cravou o recado mais contraintuitivo da tarde. Em vez de desacelerar num ano cheio de feriados e incertezas, ela defende dobrar a aposta, justamente porque a concorrência tende a recuar. "Eu me recuso a acreditar que 2026 não vai ser um ano maravilhoso", diz.

Tavares completou com a lógica de quem vê dificuldade como barreira de entrada: um problema difícil de resolver, uma vez resolvido, vira vantagem que afasta concorrentes.

O recado ao varejo: capacitação, crédito e segurança

O varejo teve seu próprio espaço, numa conversa com Marcelo de Souza e Silva, presidente da CDL Belo Horizonte e do Sebrae Minas. O diagnóstico dele foi sobre a concorrência global que chegou ao país e a dificuldade do pequeno varejista em competir de igual para igual com grandes plataformas estrangeiras.

A tecnologia, defendeu, é parte da resposta, desde que o empresário entenda o ganho de produtividade e custo que a IA pode trazer, em vez de adotá-la por adotar.

Ele insistiu numa palavra: capacitação. Tanto dos funcionários quanto do próprio dono, que precisa "levantar a mão" e buscar ajuda em vez de carregar os problemas sozinho.

Citou o trabalho do Sebrae Minas com o governo do estado em programas de liberdade econômica, que teriam passado de cerca de oito parcerias para mais de 80, levando facilidades de abertura e relacionamento com o poder público a centenas de municípios.

Para os próximos cinco anos, resumiu o que considera o tripé do varejista: qualificação constante, acesso a crédito de qualidade e segurança. São, segundo ele, as três demandas que mais aparecem nas pesquisas com empresários ao longo de quase quatro décadas de movimento lojista.

Um fio que costurou o dia

Da masterclass ao painel das gigantes, a tarde em Belo Horizonte teve a inteligência artificial como tema recorrente, mas o recado de fundo foi mais antigo: tecnologia não substitui execução, cultura e foco no cliente.

As empresas que subiram ao palco já passaram por tombos e reinvenções antes de virar referência. A plateia, cheia de negócios em expansão, ouviu de quem já chegou lá que o caminho continua sendo ambição com pé no chão.

Em 2026, com IA na mesa e um ano cheio de incertezas pela frente, a aposta mais repetida foi a de seguir crescendo enquanto a maioria hesita.

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