Em embate diplomático, China limita fluxo de terras raras ao Japão

Por Matheus Gonçalves 22 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Em embate diplomático, China limita fluxo de terras raras ao Japão

A China suspendeu as exportações de diversos minerais críticos, inclusive terras raras, ao Japão por pelo menos quatro meses, à medida que os vizinhos vivem um imbróglio diplomático sobre Taiwan.

A crise começou no fim do ano passado, após comentários da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, sobre uma possível retaliação japonesa caso a China decidisse invadir a ilha, que se autogoverna democraticamente.

Desde dezembro, as exportações de Pequim para Tóquio destes minerais foram virtualmente encerradas, com poucas exceções na forma de pequenos carregamentos do mineral ítrio.

Outras terras raras, como disprósio, óxido de térbio e óxido de ítrio, bem como o metal especial gálio, já não chegam a portos japoneses há meses. No mês seguinte, Pequim voltou a impor novas limitações.

Companhias japonesas no setor de ímãs para aplicações de alta tecnologia, como equipamentos militares e semicondutores, já sentem as perdas, com a Shin-Etsu, uma grande produtora de ímãs, parando de aceitar pedidos de produtos que contêm disprósio, por exemplo.

A decisão sugere novamente a alavancagem chinesa sobre seu vasto monopólio de terras raras — Pequim controla a produção e o processamento de até 90% da commodity — como moeda diplomática, uma dinâmica que o país já usou contra as altas tarifas de Trump no final do ano passado. E é uma boa estratégia, já que o mundo depende cada vez mais das reservas chinesas, à medida que terras raras e minerais críticos ganham relevância, conforme países buscam aumentar suas capacidades de defesa em meio à incerteza geopolítica.

Por sua vez, Tóquio está tomando medidas, como a liberação de estoques acumulados quando necessário, embora não divulgue muitos detalhes, disse à Reuters um funcionário anônimo do Ministério da Indústria japonês, acrescentando que o governo está ciente das preocupações com o aumento dos preços e a escassez de oferta.

O ministro do Comércio do Japão, Ryosei Akazawa, que está atualmente na China, tem reuniões agendadas para sábado com representantes chineses sobre o tema. Ele é a autoridade japonesa de mais alto escalão a visitar a China desde o início da disputa.

Lições do passado: preparação e vulnerabilidade

Uma das maiores empresas do Japão, a Mitsubishi Heavy Industries aproveita agora os frutos de uma boa preparação contra um possível choque de terras raras (Yuriko Nakao/Getty Images)

Apesar da gravidade da situação, não é a primeira vez que algo assim acontece com o Japão: em 2010, restrições semelhantes da China às exportações de terras raras ao Japão estimularam o aumento dos estoques e o uso mais racional dos minerais na produção de ímãs no país, bem como o estudo de possíveis alternativas.

Além disso, o Japão ajudou a financiar produtores alternativos, como a Lynas Rare Earths, com sede na Austrália, que, no ano passado, se tornou a primeira produtora comercial de térbio e disprósio separados fora da China. Também lançou projetos de terras raras na Austrália e na França e um projeto de gálio na Austrália.

Mesmo assim, a plataforma de análise Modern Diplomacy ainda estima riscos elevados para o Japão nesse contexto, que julga mais sério do que o evento de 2010, devido a um cenário geopolítico mais volátil.

De destaque, a análise aponta quatro fatores que mudaram nos últimos 16 anos: a rivalidade entre os EUA e a China, que se tornou mais sistêmica, uma geopolítica cada vez mais dominada pela corrida tecnológica conforme países buscam maior independência bélica e econômica das grandes potências, a importância estratégica de Taiwan, uma ilha mais crítica hoje do que era no passado, e uma visão global que passa a ver o acesso às terras raras como uma necessidade de segurança nacional. Segundo a plataforma, nenhum desses fatores era tão pronunciado em 2010, o que faz com que a situação atual carregue implicações geopolíticas consideravelmente maiores.

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