Em Fortaleza, um dia para celebrar a força da economia cearense — e seus negócios em expansão

Por Leo Branco 15 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Em Fortaleza, um dia para celebrar a força da economia cearense — e seus negócios em expansão

O mundo entrou em uma nova disputa. Não é mais só sobre produzir — é sobre onde produzir. Energia barata, limpa e estável virou ativo estratégico. Dados viraram infraestrutura crítica. E, nesse novo mapa, o Ceará saiu da periferia para o centro.

Fortaleza, com 17 cabos submarinos concentrados em poucos quilômetros, virou um dos principais pontos de conexão da internet no planeta. Ao mesmo tempo, o estado combina isso com uma matriz energética majoritariamente renovável.

“Energia é o ouro, é o diamante que o mundo pode ter hoje”, disse Ricardo Cavalcante, presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), no palco da primeira edição do Road Show Negócios em Expansão, o NEEX, na capital cearense.

Realizado na terça-feira, 14 de abril, um dia após o aniversário de 300 anos da cidade, o evento promovido pela EXAME e com o apoio do BTG Pactual Empresas reuniu mais de 200 empresários e executivos para discutir crescimento, infraestrutura e novas frentes de negócio no Nordeste.

O evento faz parte do Negócios em Expansão, o maior prêmio para empreendedores do Brasil, que está com inscrições abertas.

Um dos pontos centrais foi a mudança no mapa econômico. Energia e dados passaram a definir onde as empresas vão investir. E o estado do Ceará reúne dois ativos: conexão e energia.

Esse movimento já aparece nos números. Nos últimos 35 anos, a indústria cresceu 210%, enquanto a população avançou 38%. Hoje, o Ceará tem 18.900 indústrias e 391.000 empregos formais no setor.

“Em 1990, a gente exportava 147 produtos. Hoje exporta mais de 1.700”, disse Cavalcante.

O avanço ganhou escala com projetos recentes. O principal exemplo é o data center da ByteDance, dona do TikTok, em Caucaia. O investimento inicial é de R$ 50 bilhões e pode chegar a R$ 200 bilhões.

“Eles escolheram o Ceará pela fibra óptica e pela capacidade de gerar energia”, afirmou Cavalcante.

Leo Branco, editor da Exame, e Ricardo Cavalcante, presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec). (Eduardo Frazão/Exame)

Negócios locais crescem e mudam de escala

O avanço de empresas da região apareceu no painel “Negócios Cearenses em Expansão”. No palco, executivos de setores diferentes relataram crescimento recente e mudanças de estratégia.

O painel reuniu as empresas com operação no Ceará e que foram destaque no prêmio Negócios em Expansão 2025, que reuniu as empresas emergentes que mais cresceram ao longo do ano anterior.

É o caso da Naturagua, de água mineral, e da Santelisa, de embalagens recicladas. Ambas fazem parte do Grupo Telles, cujos acionistas principais – a família Telles, do Ceará – estão à frente dos negócios há 180 anos.

Representante da quinta geração da família, Aline Telles Chaves, atual CEO do grupo, comentou a mudança do perfil dos negócios com a venda do aguardente Ypióca, então carro-chefe dos negócios da família, em 2012. “O faturamento do grupo quase caiu a zero”, disse.

A empresa reorganizou o portfólio com negócios como água e embalagens. Entre 2015 e 2025, cresceu 500% em receita e 1.000% em EBITDA. Hoje tem cerca de 2.200 funcionários e mais de R$ 1 bilhão.

No varejo, a Take a Break, de Pedro Albano, cresceu com minimercados autônomos em condomínios. O negócio começou como atividade paralela. “Eu trabalhava em outra empresa e comecei no tempo livre”, disse.

A empresa estruturou um grupo de sócios e ampliou a operação. Cresceu cerca de 700% em um ano e ficou entre as cinco primeiras do ranking na sua categoria. A estratégia inclui foco em classes A e B e uma rotina comercial intensa. “Eu não garanto o resultado, mas garanto a rotina”, disse.

A Central Geradores, fundada por Gabriel Carneiro, mudou de área ao longo do tempo. Começou com transporte e passou a operar com locação de geradores. “No início eu fazia tudo”, disse.

A empresa expandiu presença para outros estados e precisa manter operação próxima dos clientes. O negócio exige equipamentos pesados e investimento constante. Cresceu mais de 50% no último ano.

No setor imobiliário, o Hub Plural, de Alfredo Júnior, cresceu durante a pandemia. A empresa manteve contratos e reduziu custos para clientes. “A gente deu até 50% de desconto para manter o contrato”, afirmou.

Também emprestou móveis para clientes trabalharem em casa. “A gente levou mobiliário para a casa dos clientes”, disse. Hoje são 10 unidades, mais de 15.000 metros quadrados e cerca de 3.000 clientes.

Certificações e prêmios apareceram como apoio comercial. “Mostra que a empresa foi auditada”, disse Pedro Albano sobre o uso do selo do ranking.

Mediado pelo repórter Daniel Giussani, da Exame, painel "Cearenses em Expansão" contou com Aline Telles Chaves, CEO do Grupo Telles, Pedro Albano, CEO da Take a Break, Gabriel Carneiro, fundador da Central Geradores, e Alfredo Júnior, CEO da Hub Plural. (Eduardo Frazão/Exame)

Gigantes locais discutem consumo e operação

O avanço de grandes empresas entrou no painel “As Gigantes Cearenses”.

A M. Dias Branco, representada pela executiva Luciane Sallas, apresentou operação com cerca de R$ 12 bilhões em receita e presença em 93% dos lares brasileiros. A empresa atua com marcas regionais e exporta para 40 países.

“Ser simples, prático e criativo” segue como base, disse a executiva.

Na Pague Menos, o CEO Jonas Marques apresentou faturamento de R$ 16 bilhões e 27.000 funcionários. A empresa ampliou programas de formação interna. “A escuta é terapêutica”, afirmou.

A Solar Coca-Cola, com André Salles, atua em cerca de 70% do território nacional, com 21.000 funcionários e 400.000 pontos de venda. A operação inclui apoio direto a pequenos comércios.

“Observamos crescimento de bebidas de baixa caloria”, disse, ao comentar mudanças no consumo.

Mediado por Lucas Amorim, diretor de redação da Exame, painel "As Gigantes Cearenses" teve participação de André Salles, CEO da Solar Coca-Cola, Jonas Marques, CEO da Pague Menos, e Luciane Sallas, executiva da M. Dias Branco. (Eduardo Frazão/Exame)

Crédito e inovação mudam relação com bancos

O acesso a capital entrou no debate em painel com Rodrigo Bachi, do BTG Pactual Empresas, e Martin Redies, da integradora de tecnologias para energia solar Sou Energy.

A empresa de energia solar cresceu rápido desde 2018. “Na pandemia a gente cresceu 300%. Em 2021, 500%”, disse Redies.

Esse ritmo exige financiamento constante. “A tomada de recursos é fundamental”, afirmou.

Segundo Bachi, o modelo de análise mudou. “O crédito era baseado no passado”, disse. Agora, bancos usam dados e projeções.

O tempo de liberação também caiu. “Uma antecipação pode cair em 5 minutos”, disse Redies.

Para empresas, o banco passa a ter outro papel. “Eu não vejo mais banco só como crédito, mas como parceiro de tecnologia”, afirmou.

Rodrigo Bachi, do BTG Pactual Empresas, e Martin Redies, da integradora de tecnologias para energia solar Sou Energy. (Eduardo Frazão/Exame)

Redes sociais entram na rotina das empresas

O uso de conteúdo digital apareceu no painel “Marca Pessoal”, mediado por Leonardo Cirino, CMO da EXAME.

Dados apresentados mostram cerca de 20 milhões de produtores de conteúdo no Brasil. O tempo médio de uso de redes chega a 9 horas por dia.

A estratégia discutida foi usar a internet para ampliar o que já funciona fora dela. “Nada além do que eu já fazia no offline”, disse o nutricionista Daniel Coimbra, um dos principais nomes da creator economy no Nordeste.

Cearense e morador de Fortaleza, Coimbra tem mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais. Hoje, ele costuma abrir turmas para até 860 alunos simultaneamente em cursos para replicar a estratégia dele para a construção de autoridade online.

Outro ponto foi a presença do dono ou especialista. “As pessoas compram o CPF na frente do CNPJ”, afirmou.

Painel "Marca Pessoal" teve participação do nutricionista Daniel Coimbra e do CMO da EXAME, Leonardo Cirino.  (Eduardo Frazão/Exame)

Casos mostram a aplicação prática. Uma dona de loja de calçados, com cerca de 200 seguidores, começou a gravar vídeos simples para vender estoque. Anos depois, vendeu o estoque de oito lojas em 40 minutos com o mesmo formato.

Os participantes também falaram sobre a rotina de produção. Conteúdos curtos, vídeos longos e comentários sobre notícias aparecem como formatos possíveis.

A frequência foi citada como fator de distribuição. E ferramentas de inteligência artificial passaram a ser usadas para produção e edição.

O processo de venda segue uma sequência. “Se eu tento vender direto, não funciona”, disse Coimbra ao explicar a lógica de atrair, explicar e depois vender.

No fim do dia, os temas se cruzaram. Energia, dados, crédito, operação e conteúdo apareceram como partes do mesmo processo.

Empresas que crescem hoje combinam infraestrutura com execução, capital com velocidade e presença digital com operação física. No Ceará, esses elementos já estão disponíveis.

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