Em São Paulo, o calor extremo acompanha a desigualdade social, revela pesquisa da USP
Uma nova pesquisa da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design da Universidade de São Paulo aponta o que boa parte da população já sente na pele: as áreas mais adensadas e menos favorecidas da capital paulista também são as que mais sofrem com o calor extremo.
O estudo, publicado na revista científica Urban Climate, relaciona a desigualdade social e a vulnerabilidade climática em São Paulo e utiliza dados públicos para formar o primeiro mapa de risco ao calor da cidade.
Entre os materiais cruzados estão dados ambientais e informações sobre renda, faixa etária e densidade da população, obtidas a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Luiza Muñoz, uma das autoras do artigo, afirma que “em São Paulo, quem corre mais risco ao calor são pessoas de baixa renda que moram em áreas adensadas, especialmente em favelas”, conta.
Entre as causas para esse fenômeno estão a menor presença e acesso a áreas verdes, que ajudam a reduzir a ocorrência de ilhas de calor.
Risco ao calor: o que é?
A pesquisa ainda leva em conta a definição do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC): a vulnerabilidade, a exposição e o perigo climático são determinantes para avaliar o grau de risco ao calor de uma determinada região.
As altas temperaturas são especialmente perigosas, explicam as pesquisadoras, quando atingem grupos vulneráveis, com crianças e idosos, ou grupos mais expostos aos riscos ao calor.
Isso depende da possibilidade e capacidade de adaptação de cada pessoa, fator que costuma ser menor para populações mais vulneráveis. “Quanto maior a renda, espera-se que maior seja a capacidade de adaptação”, explica a pesquisadora.
Políticas públicas de adaptação
De acordo com a orientadora da pesquisa, Denise Duarte, o objetivo é alertar sobre as possibilidades de melhoria para as áreas em risco nos ambientes urbanos adversos, o que permite que o poder possa elaborar o planejamento urbano a partir de políticas públicas.
O material ainda avalia que a pouca cobertura vegetal, a maior impermeabilidade do solo e a alta densidade populacional são fatores que favorecem para a manutenção de temperaturas mais elevadas, cenário mais comum justamente onde há menor renda per capita. “O mapa é um retrato da desigualdade social em São Paulo”, explica Muñoz.
“Não é possível discutir risco ao calor, ou qualquer risco climático, sem discutir questões socioeconômicas”, continua.
As regiões mais quentes de São Paulo, segundo estudo
De acordo com as pesquisadoras, embora outras regiões centrais e bairros de maior renda na cidade também apresentem temperaturas elevadas e ilhas de calor, o risco e exposição ao calor são menores, uma vez que a população apresenta maior capacidade de adaptação do que em favelas e comunidades.
O mapa elaborado aponta que os principais riscos relacionados ao calor estão nas zonas leste, norte e sul da cidade de São Paulo.
Pontos considerados de risco extremamente alto estão localizadas próximas as favelas de Heliópolis, de Paraisópolis, no bairro do Grajaú (os três são pertencentes a zona sul).
Na zona leste, as áreas com maior risco são próximas ao distrito de Sapopemba, na Cidade Líder e na Cidade Tiradentes. O risco também é alto entre as regiões do Jaçanã e Vila Medeiros, na zona norte.
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