Em São Paulo, Rosewood aposta que o futuro do luxo tem raízes brasileiras e é sustentável
Há um simbolismo por trás de um hotel de luxo nascer dentro de uma antiga maternidade. Localizado na Rua Itapeva, no bairro Bela Vista, em São Paulo, o prédio histórico viu 500 mil brasileiros chegarem ao mundo.
Hoje, como sede do Rosewood, o espaço segue sendo um "lugar de começos". E a aposta do negócio é que o luxo se constrói com brasilidade, responsabilidade ambiental e pessoas no centro de cada decisão.
"Queremos criar um espaço de troca consciente, onde pessoas e planeta se enriquecem mutuamente. Esse propósito permeia todas as nossas escolhas, da curadoria de fornecedores à experiência do cliente", destaca a gerente de impacto social da rede hoteleira, Lou Ana Garcia, em entrevista à EXAME.
O hotel abriu as portas dentro da Cidade Matarazzo, complexo que reuniu edifícios históricos do início do século XX e os transformou no maior projeto de upcycling do Brasil.
Ao lado da antiga maternidade restaurada, uma torre de cem metros de altura é coberta de madeira nativa e cercada por mais de 250 espécies de plantas nativas.
Projetada pelo arquiteto Jean Nouvel, vencedor do Prêmio Pritzker, a chamada Torre Mata Atlântica valoriza a biodiversidade brasileira e coloca a natureza como protagonista em meio ao concreto da capital paulista.
A experiência é, de fato, luxuosa. As diárias partem de cerca de R$ 4.000 e chegam a R$ 5.300 para os quartos mais acessíveis. O hóspede encontra uma arquitetura que dialoga com a natureza, onde painéis de madeira, jardins verticais e luz natural criam a sensação de um "oásis verde" em plena metrópole.
A decoração carrega referências culturais brasileiras, de obras de artistas locais às texturas inspiradas nos biomas do país. De livre acesso ao público, seis restaurantes e bares trazem a proposta de pluralidade e valorização de produtos locais.
Operação 100% renovável e economia circular
Em menos de um ano após a abertura, o hotel bateu a meta de uso de 100% de energia renovável. O resultado veio da combinação entre painéis solares instalados no próprio complexo e um contrato de longo prazo com a Omega Energy.
A lógica da sustentabilidade se repete na gestão de resíduos. O hotel conta com biodigestor e trituradora de vidro instalados no local, e todos os descartáveis são destinados corretamente. A parceria com a Multilixo formalizou a adesão ao modelo "Zero Aterro": nada do que sai do hotel vai para aterro sanitário, e o desempenho ambiental é mensurado com metas e indicadores.
Nas áreas de contato com o hóspede, a operação também reflete essa escolha consciente. A água servida é filtrada no próprio hotel e engarrafada em vidro. As amenidades dos quartos chegam em embalagens de material reciclado. Os carros à disposição dos hóspedes são elétricos ou híbridos, conduzidos por motoristas da própria equipe.
Segundo a gerente de impacto, "cada detalhe foi pensado dentro de uma mesma cadeia de decisão".
A construção do hotel também foi feita com mármore e madeira são 100% brasileiros. O mobiliário e os interiores vieram de fornecedores locais ou de materiais reutilizados. Cinquenta e sete artistas brasileiros foram contratados para criar obras exclusivas para o espaço, visando ressaltar a brasilidade e impulsionar a arte e economia local.
Para Lou, se trata de uma redefinição do que significa oferecer "uma experiência de alto padrão". No Rosewood, o padrão é medido também pelo que "fica para a cidade depois que o hóspede vai embora".
Pessoas no centro do negócio
O pilar social é onde o hotel mais aposta. Em parceria com a ONG Sefras, o Rosewood contratou refugiados e vinte jovens locais ingressaram como aprendizes, com rotação entre departamentos.
Em novembro de 2022, nove funcionários concluíram três meses de treinamento em língua de sinais. O cardápio do restaurante Le Jardin contempla opções certificadas disponíveis 24 horas, resultado de um processo de curadoria que envolveu desde consultorias religiosas até certificação formal.
A parceria com a tribo indígena Pataxó, do sul da Bahia, é um dos exemplos do que o hotel entende como brasilidade e valorização dos povos originários. As obras da comunidade ocupam paredes, o artesanato é comercializado dentro do complexo e o líder Arassari Pataxó tem presença ativa no espaço.
A Capela Santa Luzia, construída há mais de cem anos dentro do complexo, abre as portas para shows gratuitos mensalmente, visando a democratização.
Um modelo sustentável em expansão
O Rosewood São Paulo é o primeiro hotel da rede na América do Sul e segundo a gerende de impacto, as iniciativas implementadas funcionam como "laboratório" para o que a marca quer levar adiante: a ideia de que sustentabilidade ambiental, impacto social e experiência de luxo não apenas coexistem, mas se reforçam.
No complexo Cidade Matarazzo, o hub AYA é inspirado na estrutura do cipó Jagube, planta amazônica usada no preparo da Ayahuasca e já nasceu com operação carbono zero como meta central.
O espaço reúne marcas e eventos comprometidos com a descabonização, e funciona como extensão da mesma lógica que orienta o hotel: o ambiente construído pode ser um agente ativo de transformação na cidade.
"Não buscamos apenas criar destinos, mas memórias emocionais, aprendizado e conexões", conclui a gerente de impacto.
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