'Emergência Radioativa': Netflix divulga trailer da nova minissérie; veja o vídeo
A maior tragédia nuclear brasileira não ocorreu por causa de um reator nuclear, muito menos uma bomba, mas sim foi fruto de negligência.
Em 1987, em Goiânia, um equipamento de radioterapia abandonado nas ruínas de uma clínica médica desativada foi encontrado por catadores de lixo. A partir disso, o césio-137 do maquinário foi liberado e contaminou centenas de pessoas.
O acidente deixou um rastro de mortes, doenças e uma luta por reconhecimento que se arrasta até hoje. Considerado o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear e em área urbana, o caso só não foi maior que o de Chernobyl, na Ucrânia, segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Quase três décadas depois, a Netflix irá lançar uma minissérie sobre a tragédia com Césio-137. O serviço de streaming divulgou nesta terça-feira, 3, o trailer de "Emergência Radioativa", confira:
Sobre o que é 'Emergência Radioativa'?
A minissérie da Netflix é focada nos eventos e consequências da tragédia de Goiânia com o césio-137.
Ambientada em 1987, a minissérie acompanha físicos, médicos e as próprias vítimas enquanto enfrentam pânico e preconceito em uma corrida contra o tempo para rastrear a origem da contaminação.
Qual é o elenco de 'Emergência Radioativa'?
A minissérie é criada por Gustavo Lipsztein, dirigida por Fernando Coimbra e produzida pela Gullane.
No elenco estão Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Bukassa Kabengele, Alan Rocha, Antonio Saboia, Luiz Bertazzo e Tuca Andrada, com participações especiais de Leandra Leal e Emílio de Mello.
Confira o trailer oficial:
"Emergência Radioativa" estreia no dia 18 de março.
Como ocorreu a tragédia com Césio-137 em Goiânia?
A origem do acidente remonta a 1972, quando a CNEN autorizou o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) a adquirir uma bomba de césio-137 de fabricação italiana para uso em serviços radiológicos, conforme documento do Ministério Público Federal.
Com o passar dos anos, pressionado a deixar o imóvel, o IGR transferiu sua sede para outro endereço. O instituto, no entanto, abandonou o equipamento, já obsoleto, nas ruínas do antigo prédio, sem comunicar o fato à CNEN ou à Secretaria Estadual de Saúde de Goiás. Em maio de 1987, a construção foi demolida a mando de um ex-sócio do IGR, sem qualquer aviso sobre a existência do material radioativo no local.
O acidente em si começou no dia 27 de setembro, quando dois catadores de material reciclável encontraram o equipamento nas ruínas e o desmontaram para venda a um ferro-velho, conforme relatado pela Folha de S.Paulo em 1997.
A cápsula foi rompida a marretadas e o material radioativo (um pó que emitia uma luz azul cintilante, inodora e aparentemente inofensiva) chamou a atenção de Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho.
Devair levou o Césio-137 como presente para sua sobrinha de seis anos, Leide das Neves, que se tornaria a primeira vítima fatal do acidente.
As reações visíveis começaram a aparecer poucos dias após o primeiro contato.
As consequências do césio-137
Segundo a Secretaria de Saúde do Estado de Goiás, foram identificados e isolados sete focos principais de contaminação.
A CNEN monitorou 112.800 pessoas entre setembro e dezembro de 1987: 249 apresentavam contaminação interna ou externa, 49 foram internadas, 14 transferidas em estado grave para o Hospital Militar Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, e quatro morreram.
O número real de afetados nunca foi consenso.
O governo de Goiás reconhece oficialmente apenas quatro mortes, mas levantamentos da Associação de Vítimas do Césio-137 (AVCésio) e do Ministério Público Estadual indicam que pelo menos 66 óbitos estariam relacionados ao acidente, com 1,4 mil pessoas contaminadas ao longo dos anos.
Em 2007, cerca de 1.100 pessoas ainda eram atendidas no Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA), incluindo vítimas diretas, vizinhos e trabalhadores que atuaram na contenção, segundo André Ferreira, diretor do centro, em depoimento à Folha de S.Paulo.
Além das sequelas físicas, as vítimas enfrentaram décadas de estigma e abandono. "A sociedade não permite que a gente consiga arrumar trabalho. É a falta de informação que provoca isso. O pior é que o longo tempo de exposição ao preconceito faz com que as vítimas não se reconheçam como pessoas comuns. É um efeito psicológico muito forte", disse Odesson Alves Ferreira, então presidente da AVCésio, ao jornal Gazeta do Povo.
O lixo radioativo gerado pelo acidente — mais de três mil metros quadrados de material contaminado, incluindo restos de construção, animais mortos e material hospitalar — foi transferido em 1997 para um aterro definitivo em Abadia de Goiás, a 20 km de Goiânia, administrado pela CNEN.
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