Empresa dos EUA compra única mina de terras raras do Brasil e dispara na bolsa

Por Clara Assunção 20 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Empresa dos EUA compra única mina de terras raras do Brasil e dispara na bolsa

A companhia norte-americana USA Rare Earth (USAR) anunciou nesta segunda-feira, 20, a assinatura de um acordo definitivo para adquirir 100% do Grupo Serra Verde, empresa brasileira responsável pela única operação de grande escala fora da Ásia capaz de produzir todos os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras.

De acordo com o documento da operação, divulgado ao mercado nesta segunda-feira, 20, a operação está estimada em cerca de US$ 2,8 bilhões, cerca de R$ 14 bilhões pela cotação atual.

Desse total, US$ 300 milhões serão pagos em espécie, enquanto a maior parte, aproximadamente US$ 2,53 bilhões, será quitada por meio da emissão de 126,849 milhões de novas ações da USAR, considerando o preço de US$ 19,95 por papel em 17 de abril de 2026.

Além disso, a operação envolve recursos complementares, como um financiamento de US$ 565 milhões junto à U.S. International Development Finance Corporation (DFC) para expansão da mina em Goiás e uma liquidez pro-forma de aproximadamente US$ 3,2 bilhões para a empresa combinada.

Na prática, o "restante" do valor é convertido em participação acionária, permitindo que os vendedores sigam expostos ao potencial de valorização futura do negócio.

Com o negócio, a USAR, empresa de mineração e manufatura, passará a controlar integralmente a mina de terras raras Pela Ema e a planta de processamento em Goiás, a única operação em escala fora da Ásia capaz de produzir neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

O acordo também inclui um contrato de compra (offtake) de 15 anos para 100% da produção da fase inicial, por meio de um veículo financiado por entidades ligadas ao governo dos Estados Unidos e investidores privados, com preços mínimos garantidos.

A expectativa é que o Serra Verde atinja um EBITDA anualizado entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões até o fim de 2027, enquanto a empresa combinada pode chegar a US$ 1,8 bilhão até 2030. O fechamento da transação está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias.

Ações da USAR disparam na Nasdaq

A reação do mercado foi imediata. As ações da USA Rare Earth disparavam mais de 12% na Nasdaq por volta das 13h14, cotadas a US$ 22,26, em um dia de queda do índice, que recuava 0,55% no mesmo horário.

Parte do interesse estratégico do acordo está justamente na previsibilidade de receita garantida pelos preços mínimos no contrato de fornecimento de 15 anos.

A mineradora brasileira contará com pisos de preços para quatro terras raras no fornecimento de 15 anos com o governo dos EUA e investidores privados, segundo uma apresentação sobre o tema. Segundo a Reuters, críticos têm dito que os pisos de preços, que visam nivelar as condições competitivas com a China, produtora dominante de terras raras, têm o potencial de distorcer o mercado.

A China domina cerca de 90% da oferta global de terras raras já processadas, enquanto Estados Unidos, países da União Europeia e outras economias ocidentais aceleram esforços para desenvolver cadeias produtivas próprias desses minerais, considerados estratégicos para a transição energética, a indústria eletrônica e o setor de defesa.

BTG vê marco para terras raras e avanço do Ocidente

Na avaliação do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), o anúncio de hoje "marca um marco significativo para o cenário das terras raras ocidentais".

"Temos defendido que a oferta ocidental, e particularmente a do Brasil, está prestes a se tornar um ator cada vez mais importante no mercado. A transação da Serra Verde reforça essa visão. Como único ativo operacional de terras raras no Brasil, a Serra Verde detém uma clara vantagem de pioneirismo, com a maioria dos projetos de desenvolvimento visando a produção somente após 2028", dizem os analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo.

De acordo com o banco, a aquisição também reforça o quão crítica se tornou a oferta fora da China para os países ocidentais, particularmente os EUA, diante da necessidade de diversificação de um mercado altamente concentrado.

A instituição diz ver ainda uma "clara preferência" por terras raras pesadas, como disprósio e térbio, segmento que pode enfrentar um déficit de oferta de cerca de 30% até 2030, e avalia que o movimento pode inaugurar "uma onda mais ampla de transações no setor", com empresas em desenvolvimento se tornando alvos de aquisição.

"Continuamos otimistas em relação ao desenvolvimento do abastecimento de terras raras no Ocidente e acreditamos que uma exposição diversificada (cesta de ações) em todo o setor continua sendo a maneira mais eficaz de aproveitar essa tendência", afirma o banco, citando nomes como Aclara Resources e Viridis Mining & Minerals como oportunidades de maior risco e retorno.

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