Empresa que comprou mina de terras raras no Brasil era startup até pouco tempo atrás

Por Clara Assunção 23 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Empresa que comprou mina de terras raras no Brasil era startup até pouco tempo atrás

A USA Rare Earth deixou de ser apenas mais uma startup de minerais críticos para se tornar peça central na disputa global por terras raras após anunciar a compra do Grupo Serra Verde, no Brasil, por cerca de US$ 2,8 bilhões.

Com a aquisição, informada ao mercado no início desta semana, a companhia norte-americana assume o controle da única operação em grande escala fora da Ásia capaz de produzir os quatro elementos magnéticos essenciais (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio).

Mas quem é a empresa listada na Nasdaq como USAR que pode marcar o cenário das terras raras no ocidente, segundo o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME)?

Menos de 10 anos no mercado

Fundada em 2019 com a proposta de reduzir a dependência ocidental da China, a USAR é uma empresa privada que se apresente como um negócio de tecnologia de ímãs com integração vertical, ou seja, com ambição de atuar em toda a cadeia produtiva, da extração mineral até o produto final.

O objetivo declarado é construir uma plataforma "da mina ao ímã e além", capaz de abastecer setores estratégicos como veículos elétricos, energia renovável, defesa, semicondutores e eletrônicos.

Isso significa estruturar uma cadeia completa, que vai desde a mineração, passando pelo processamento de terras raras nos Estados Unidos, à produção de metais e ligas por meio de sua subsidiária no Reino Unido (Less Common Metals) e a fabricação de ímãs permanentes em Oklahoma, no sul dos EUA, sua sede, além de atividades de pesquisa e desenvolvimento no Colorado, na costa oeste americana.

A empresa também vem ampliando sua presença internacional com parcerias industriais, especialmente na Europa.

O coração dessa estratégia está nos ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB), considerados os mais potentes disponíveis no mercado. Esses componentes são críticos para tecnologias de alta performance, de motores de veículos elétricos a turbinas eólicas, passando por sistemas aeroespaciais, inteligência artificial física e equipamentos médicos.

USA Rare Earth é uma empresa em construção

Apesar do discurso ambicioso e da relevância estratégica, a USAR ainda está em fase de construção. A empresa, listada em bolsa desde o ano passado, fechou 2025com receita de apenas US$ 1,64 milhão e prejuízo líquido ajustado de US$ 80 milhões, refletindo o estágio inicial de operação e o volume elevado de investimentos. A geração de caixa também é negativa, em linha com o avanço de projetos industriais e de mineração.

Em janeiro deste ano, o governo americano informou que vai injetar US$ 1,6 bilhão na companhia, via empréstimos e participação acionária, como parte de uma estratégia mais ampla de Washington para fortalecer cadeias domésticas de minerais críticos.

Esse vínculo com o governo, no entanto, também trouxe escrutínio político. Parlamentares democratas questionam possíveis conflitos de interesse envolvendo instituições financeiras ligadas a membros do governo na estruturação de investimentos na empresa.

Aquisições marcam o 1° trimestre da USAR

Desde o início do ano, a USAR vem acelerando sua estratégia de consolidação. Em março, a empresa fechou a aquisição da Texas Mineral Resources, garantindo controle total sobre o projeto Round Top, no Texas, considerado um dos principais depósitos de terras raras pesadas dos EUA e com início de produção comercial previsto para 2028.

A USA Rare Earth também firmou parcerias industriais, como com a Arnold Magnetic Technologies, e avançou em uma aliança com a Carester, na França, voltada ao processamento e reciclagem desses materiais.

"A criação desta ampla plataforma de processamento e comercialização de terras raras apoiará as prioridades estratégicas da França em matéria de soberania industrial e resiliência da cadeia de valor, garantindo recursos e capacidades essenciais para tecnologias avançadas e a transição energética", afirmou a companhia ao mercado na ocasião.

"Esta iniciativa também reflete a ambição conjunta da França, da USA Rare Earth e da Carester de construir uma indústria europeia de terras raras mais resiliente e sustentável", acrescentou.

Ao incorporar nesta semana o ativo de Serra Verde, em Goiás, já operacional e com capacidade única fora da Ásia, a USAR acelerou seu plano de construir uma cadeia de suprimentos completa fora da China, hoje responsável por cerca de 90% da oferta global de terras raras processadas.

Com o negócio, a empresa de mineração e manufatura passará a controlar integralmente a mina de terras raras Pela Ema e a planta de processamento em Goiás, a única operação em escala fora da Ásia capaz de produzir neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

O acordo também inclui um contrato de compra (offtake) de 15 anos para 100% da produção da fase inicial, por meio de um veículo financiado por entidades ligadas ao governo dos Estados Unidos e investidores privados, com preços mínimos garantidos.

A expectativa é que o Serra Verde atinja um EBITDA anualizado entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões até o fim de 2027, enquanto a empresa combinada pode chegar a US$ 1,8 bilhão até 2030. O fechamento da transação está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias.

Ações da USAR disparam na Nasdaq

Desde o anúncio da aquisição, as ações da USA Rare Earth nas Nasdaq já subiram quase 25%. Na segunda, quando a operação veio a público, os papéis registraram alta de 13,18%. Nesta quarta-feira, 22, subiram mais 11%.

A mineradora brasileira contará com pisos de preços para quatro terras raras no fornecimento de 15 anos com o governo dos EUA e investidores privados, segundo uma apresentação sobre o tema. Segundo a Reuters, críticos têm dito que os pisos de preços, que visam nivelar as condições competitivas com a China, produtora dominante de terras raras, têm o potencial de distorcer o mercado.

Na avaliação do BTG, o anúncio "marca um marco significativo para o cenário das terras raras ocidentais".

"Temos defendido que a oferta ocidental, e particularmente a do Brasil, está prestes a se tornar um ator cada vez mais importante no mercado. A transação da Serra Verde reforça essa visão. Como único ativo operacional de terras raras no Brasil, a Serra Verde detém uma clara vantagem de pioneirismo, com a maioria dos projetos de desenvolvimento visando a produção somente após 2028", dizem os analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo.

De acordo com o banco, a aquisição também reforça o quão crítica se tornou a oferta fora da China para os países ocidentais, particularmente os EUA, diante da necessidade de diversificação de um mercado altamente concentrado.

A instituição diz ver ainda uma "clara preferência" por terras raras pesadas, como disprósio e térbio, segmento que pode enfrentar um déficit de oferta de cerca de 30% até 2030, e avalia que o movimento pode inaugurar "uma onda mais ampla de transações no setor", com empresas em desenvolvimento se tornando alvos de aquisição.

EUA estão no início da busca por independência em terras raras, diz CEO

Em entrevista à Bloomberg, a CEO da USAR, Barbara Humpton, afirmou que a aquisição do Grupo Serra Verde é um passo rumo à independência dos EUA em relação à China no setor de metais de terras raras. "Estamos apenas no início disso", disse Humpton nesta quarta-feira, 20.

"A China estabeleceu isso como um objetivo há décadas. Eles declararam que o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras e agora vimos como esse monopólio foi usado para fins de política externa", afirmou.

A executiva também anunciou que a USA Rare Earth planeja aumentar sua produção nacional por meio das operações de mineração no Texas e com as unidades de separação no Colorado e a fábrica de ímãs em Oklahoma. "A empresa está focada no crescimento orgânico para expandir a cadeia de valor, beneficiando-se da demanda de fabricantes de ímãs em busca de um fornecimento confiável", disse a CEO.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: