Encontros gratuitos, show a R$ 75: a banda que transformou a teimosia em modelo de negócio

Por Tamires Vitorio 14 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Encontros gratuitos, show a R$ 75: a banda que transformou a teimosia em modelo de negócio

Vinte anos atrás, cinco adolescentes formaram uma banda em Tempe, no Arizona, e a batizaram com o nome de um estado onde nenhum deles havia morado. Desde então, dispensaram as gravadoras gigantes, construíram o próprio ecossistema, e, agora, concluíram sua primeira turnê em arenas nos Estados Unidos.

O The Maine, grupo composto por John O'Callaghan (vocal), Jared Monaco (guitarra), Garrett Nickelsen (baixo), Pat Kirch (bateria) e Kennedy Brock (guitarra e backing vocals), deixou a Warner Music em 2011 e, em 15 anos de independência, criou sua própria gravadora, fundou um festival no Arizona e conquistou uma base de fãs que viaja o mundo para assistir aos shows.

"Quando trabalhávamos com uma gravadora, as coisas muitas vezes saíam do jeito que outra pessoa imaginou. Quando você controla cada decisão, comete erros — mas são os seus erros", afirma Garrett Nickelsen em entrevista à EXAME.

A caminho da independência

Na época da saída da Warner, a indústria fonográfica enfrentava uma grande crise. As vendas de CDs haviam caído 76,5% em 2011 em comparação a 2000, segundo a Associação Americana da Indústria de Gravação (RIAA, na sigla em inglês), e o streaming ainda engatinhava.

À época, a pergunta era: como sobreviver sem o apoio de uma grande gravadora?

A resposta foi criar a 8123, uma infraestrutura própria que começou como uma empresa de gestão artística e se expandiu para gravadora, loja de merchandise e festival.

"Por volta do nosso terceiro disco falamos: dane-se tudo. Ainda estávamos tecnicamente na Warner, mas eles não ajudaram naquele. Foi a maior curva de aprendizado: como lançamos isso por conta própria? Como chegamos ao streaming?", diz Nickelsen.

O empresário Tim Kirch acumula funções: faz a arte da capa enquanto descobre como colocar o disco nas lojas e no streaming. "É muito difícil, mas o resultado é que as pessoas sentem que vem 100% da gente", diz o baixista.

Hoje, segundo eles, o cenário mudou.

"Você pode colocar uma música no TikTok e ela explode do dia para a noite", afirma Nickelsen.

Para Brock, o caminho independente está mais normalizado, mas isso não significa que ficou fácil.

"Com o tempo encontramos o que funciona para nós, o que ressoa com as pessoas que já estão na nossa frente. Nos importamos tanto com cada aspecto da música que vamos fazer todo esse trabalho duro para garantir que pareça certo", diz.

'Não pague para conhecer humanos'

Em 2017, o The Maine publicou uma coluna no Medium que ganhou grande repercussão no cenário do rock alternativo, criticando a prática de cobrar pelos meet & greets (encontros pagos com fãs para tirar fotos com artistas).

Para a banda, ao monetizar o encontro, o artista se transformava em produto, quebrando algo fundamental na relação com o fã. A lógica, segundo Nickelsen, continua a mesma quase dez anos depois.

"Somos apenas pessoas e não tem nada de especial em nós. Acontece que juntamos alguns acordes e cantamos algumas músicas", afirma. "Antes costumavámos passar horas com nossos fãs depois dos shows. Mas ficar até as duas horas da manhã em Chicago no meio do inverno não é bom para a saúde", diz.

Esse cuidado com a relação com o público não se limita somente aos meet & greets. Até mesmo os ingressos entraram na mesma filosofia de acessibilidade.

Em maio de 2023, a banda anunciou sua volta ao Brasil com ingressos a R$ 75, uma abordagem bem abaixo dos preços cobrados por bandas de porte similar, que chegavam a R$ 200, R$ 400 ou mais no mesmo período.

Com o dólar cotado a R$ 5,10 naquele mês, segundo o Banco Central do Brasil, cada ingresso equivalia a cerca de US$ 14,70 — menos do que o preço para assistir um filme no cinema americano.

"É uma relação simbiótica. Nos alimentamos disso e somos capazes de continuar correndo riscos porque as pessoas se importam. Somos muito gratos às pessoas que nos permitem fazer isso", afirma Kennedy Brock.

O que muda quando a escala cresce

A "I Love You But I Chose The Maine Tour", concluída em maio de 2026, foi o maior lançamento de ingressos da carreira do The Maine.

Vinte e seis cidades nos Estados Unidos, arenas como o Salt Shed de Chicago e o Brooklyn Paramount — casas com capacidade entre 3 e 5 mil pessoas, bem acima dos clubs de mil lugares que a banda percorreu durante anos.

O crescimento levanta uma questão que o próprio grupo reconhece: como uma banda que construiu sua identidade inteira na proximidade com o fã navega a escala sem perder exatamente o que a distingue?

The Maine: banda lançou 10º álbum em abril (The Maine/Reprodução)

"Nunca foi uma onda massiva de algo acontecendo. Nossas performances ditam se as pessoas vão voltar e se vão trazer um amigo da próxima vez. Os shows são espontâneos — nunca temos um roteiro", diz Brock.

A resposta veio logo depois. Ao encerrar a turnê em Dallas, em 2 de maio, o The Maine anunciou a "Tour Next Door", shows em cidades menores, longe das capitais habituais, com dois sets por noite, um acústico e um elétrico.

Um formato que seria inviável em arenas. É uma autocorreção deliberada — a banda cresce para um lado e cria um mecanismo para não perder o outro.

Joy Next Door — dez álbuns e nenhuma fórmula repetida

Lançado em 10 de abril de 2026, Joy Next Door é o décimo álbum do The Maine, mas, em vez de um marco comemorativo, a banda optou por uma abordagem mais ousada.

Produzido por O'Callaghan e Sean Silverman nos 8123 Studios, o disco explora um "espaço intermediário", entre a estabilidade e a mudança. Para Pat Kirch, o título reflete uma ideia central: "a felicidade não é um destino, é algo em constante evolução".

"Nos importamos tanto com cada aspecto da música e da forma como somos representados que vamos fazer todo esse trabalho duro para garantir que pareça certo", diz Nickelsen.

O álbum saiu no meio de uma turnê ativa, o que limitou a presença de músicas novas no setlist. A "Tour Next Door" foi desenhada em parte para corrigir isso e dar ao Joy Next Door o espaço de palco que a turnê anterior não teve.

Em paralelo, a banda fez sua primeira aparição em um programa de TV americano em horário nobre, tocando o single "Die to Fall" no The Kelly Clarkson Show — um marco para um grupo que construiu sua carreira inteiramente fora do mainstream televisivo.

"Se eu pudesse dar um conselho para mim mesmo 20 anos atrás, diria apenas para continuar. Nossas decisões, certas ou erradas, são lições que moldam o futuro. Não sei se queria ter todas as respostas naquele momento. Parte do processo é descobrir as coisas ao longo do caminho", afirma Brock.

Uma longa estrada

A maioria das bandas não chega a durar duas décadas. Segundo o jornalista e historiador musical Alan Cross, a expectativa média de carreira de um grupo de rock é de sete anos.

Um estudo publicado na revista acadêmica Quality & Quantity, que analisou o ciclo de vida de 49 bandas, identificou um padrão: grupos que sobrevivem ao primeiro ciclo costumam atingir um segundo pico de relevância por volta dos 20 anos de carreira, impulsionados por uma base de fãs consolidada e pela chegada de uma nova geração de ouvintes.

O The Maine está entrando exatamente nessa janela.

Para Nickelsen, a dica que fica em duas décadas é simples. "Se pudesse voltar no tempo, eu diria para mim mesmo apenas que vai ser uma estrada divertida e interessante, meu amigo. Esse é um bom conselho."

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