Endeavor: Brasil cria unicórnios, mas ainda falha em formar empresas globais

Por Leo Branco 28 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Endeavor: Brasil cria unicórnios, mas ainda falha em formar empresas globais

O Brasil já forma empresas de bilhões. Mas ainda forma poucas empresas globais.

O dado que resume esse cenário veio de um estudo da rede global de apoio ao empreendedorismo Endeavor apresentado no South Summit, em Porto Alegre: 60% dos unicórnios brasileiros chegaram a esse patamar operando apenas no mercado doméstico. Na América Latina, a média é de 16%.

É nesse contexto que Maria Teresa Fornea, conhecida como Tetê, assumiu há seis meses a liderança da Endeavor Brasil. A organização conecta empreendedores e usa essa rede para apoiar decisões de crescimento — agora com um foco mais direto em internacionalização.

A discussão ganhou espaço no evento porque a entidade decidiu tratar o tema como prioridade. A leitura é que o Brasil precisa avançar na criação de empresas com presença fora do país.

“A gente tem muito teto invisível no Brasil. Muitas vezes não é falta de capacidade, é falta de referência e de acreditar que dá para construir uma empresa global a partir daqui”, afirmou em entrevista à EXAME no South Summit Brasil.

O próximo passo, segundo a executiva, é ajudar a remover essas barreiras e acelerar a presença global das startups brasileiras.

O conforto do mercado interno

O Brasil é a 10ª maior economia do mundo. Mas essa posição está ligada, em grande parte, ao mercado interno e a setores como commodities.

No campo de tecnologia, a presença internacional ainda é limitada.

“Esse dado de 60% é um lado bom e ruim do Brasil. É bom porque mostra que o nosso mercado interno permite construir empresas grandes, mas também cria um conforto que pode atrasar a expansão para fora”, diz.

Na prática, isso cria um padrão em que negócios ganham escala local, mas demoram a buscar outros mercados.

Uma agenda para internacionalizar

A resposta da Endeavor passa por estruturar esse movimento.

A organização lançou um estudo com caminhos para expansão e passou a tratar o tema como uma das principais agendas da rede.

Mais do que exportar, a ideia é criar presença fora — com operação, equipe e produto adaptado.

“O Brasil é a 10ª economia do mundo, mas quando você olha para internacionalização, tamanho de empresa e inovação digital, a gente está longe desse lugar. Então a pergunta é como a gente move esse ponteiro de forma estrutural”, diz.

Aprender com quem já fez

O principal instrumento da Endeavor continua sendo a própria rede.

A organização conecta empreendedores que já passaram por esse processo com aqueles que estão começando a olhar para fora.

“Quando você conversa com quem já fez, normalmente ele vai te falar mais do que deu errado do que deu certo. E é isso que acelera o caminho de quem está começando”, diz.

Essas trocas incluem decisões concretas: escolha de mercado, estrutura jurídica, contratação e adaptação de produto.

“Você não precisa resolver tudo sozinho. Dá para aprender com quem já abriu operação fora, já contratou time em outro país, já errou nesse caminho”, afirma.

Exemplos para puxar o movimento

Além da troca direta, a Endeavor aposta em casos já consolidados.

Empresas como VTEX, Pismo, Wellhub, Blip e Ebanx aparecem como referência de negócios que nasceram no Brasil e ganharam escala global.

A função desses exemplos é tornar o caminho mais visível — e possível.

“A inspiração é essencial. Quando você vê alguém que saiu daqui e construiu um negócio global, isso ajuda a remover esses tetos invisíveis”, diz.

O papel das regiões

A estratégia também passa por ampliar o olhar para além de São Paulo.

Durante o evento, a executiva destacou a importância de conectar a rede a polos regionais, como o Instituto Caldeira, no Rio Grande do Sul.

“Quando a gente se conecta com iniciativas regionais, a gente evita esse viés de achar que o mercado está só em São Paulo e amplia o acesso a oportunidades”, diz.

A ideia é expandir o acesso a capital, conhecimento e conexões para outros centros.

IA muda a forma de construir empresas

A inteligência artificial aparece como um fator que altera esse cenário.

Na avaliação da executiva, o impacto da tecnologia é estrutural.

“Isso não é um avanço incremental. É uma mudança de paradigma, como sair do cavalo para o carro. É um jogo novo”, diz.

Ferramentas mais baratas e rápidas reduzem o custo de criar empresas e permitem operar com mais eficiência desde o início.

“Hoje você consegue construir muito mais rápido e com menos recurso. Isso muda a forma de começar uma empresa e permite pensar em expansão global mais cedo”, afirma.

Ao mesmo tempo, a tecnologia abre espaço para novos modelos de negócio.

“Se a inteligência artificial permite resolver problemas complexos em escala, o Brasil tem uma vantagem, porque não faltam problemas complexos para resolver”, diz.

Uma mudança de posicionamento

A internacionalização passa também por como o Brasil se apresenta.

A Endeavor defende uma mudança de narrativa, com foco em capacidade técnica e construção de tecnologia.

“A gente precisa parar de se vender só como país do samba e começar a se posicionar como um país que constrói tecnologia, que tem engenharia, criatividade e resiliência”, diz.

Nesse contexto, ganha espaço o conceito de “Brazilian engineering”, usado para destacar engenharia, adaptação e execução.

Da operação para a rede

Antes de assumir a Endeavor, Tetê fundou a Bcredi, fintech de crédito imobiliário vendida para a Creditas, onde depois liderou uma unidade de negócios.

Ela também passou pelo Banco Bari e hoje atua como advisor e investidora.

A chegada à organização marca uma mudança de papel: de quem constrói uma empresa para quem apoia várias.

“Eu encontrei um lugar onde consigo usar minha energia para potencializar outros empreendedores. É uma forma de construir em escala”, diz.

A meta agora é usar essa rede para acelerar decisões — e aumentar o número de empresas brasileiras operando fora do país.

A história do South Summit

Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores.

O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.

Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.

A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.

Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.

A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.

Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.

Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.

A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.

A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.

Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: